Opi_03_16_15_matoHá diversas referências na Bíblia para mundo criado por Deus. As mais notórias incluem as palavras hebraicas do Antigo Testamento shāmim e ’erets para “céus” e “terra”; e as palavras gregas do Novo Testamento ktisis para a “criação/criatura”, kosmos para o “mundo”, e ouranos kai para “céu e terra”. Às vezes estes termos são qualificados com a palavra kainos para “novo” (Gl 6.15; 2Co 5.17; Ap 21.1): “novo céu e nova terra” ou “nova criação/criatura”.

Quando alguém procura dizer algo a respeito da perspectiva bíblica sobre o mundo, normalmente procura fazê-lo a partir destes termos. Veja, por exemplo, o excelente estudo de Juan Stam, As boas novas da criação ou o meu mais resumido e-book, Teologia da Criação: passado, presente e futuro. Assim é possível elaborar uma perspectiva bíblica a respeito da criação como essencialmente boa (mesmo atingida e “tingida” pelo pecado) e alvo da redenção de Deus.1 Esta perspectiva já é uma grande correção da perspectiva popular, com base em uma leitura equivocada de 2 Pedro 3.6-10. Digo “equivocada” porque em 2 Pedro a destruição do mundo pelo fogo no futuro é explicitamente comparada com a destruição do mundo pelas águas (o dilúvio) no passado. Ora, o mundo na época de Noé foi “destruído” sim, no sentido de ser varrido por uma calamidade catastrófica. Mas o que surgiu depois não foi um outro mundo, e sim, o mesmo mundo renovado. Semelhantemente quando alguém se converte, se torna “nova criatura”, mas com os mesmos corpo, mente e coração. Somos transformados, e não aniquilados. O “velho homem” morreu para que nasça um homem novo, mas de novo, isto não implica trocar de corpo.

Há ainda mais termos que não só auxiliam e sustam a mesma tese que acabamos de elaborar no parágrafo anterior. Também avançam e esclarecem a responsabilidade da igreja em relação à criação.2 Estou me referindo à terminologia grega no Novo Testamento em torno da palavra pãs ou ta panta com referência ao “todo”. A razão pela negligência de atenção para o uso desta terminologia é grandemente linguística: é difícil traduzi-la e, frequentemente, as diversas versões da Bíblia acabam ofuscando ou diminuindo o seu significado. Portanto, vamos reparar algumas das passagens principais e oferecer uma tradução que destaque melhor o plano de Deus para a sua criação, a posição de Cristo e o papel da igreja neste plano. São diversas passagens ao longo do Novo Testamento com uma concentração maior na Carta aos Efésios.

Mas antes de traduzir e comentar estas passagens, precisamos fazer algumas observações lexicográficas. Quando não acompanhado pelo artigo definido, geralmente traduz-se pãs ou ta panta como “cada um”, “todos” ou “cada tipo”. Com o artigo definido, as traduções mais comuns incluem “inteiro” ou “todo”. Às vezes, transmite a ideia de “todo mundo”, “todas as pessoas” ou “todas as coisas”. Com certas preposições, a referência é mais adverbial, por exemplo, “em tudo”. Enfim, predomina as ideias mais substantiva de “o todo” ou adjetivo de “inteiro”. Creio que é seguro dizer que as outras referências se derivam destas. Como se pode imaginar, não é uma palavra rara. Ocorre mais que 1.244 vezes no Novo Testamento e em mais 34 vezes inclui-se a palavra semelhante hapas com praticamente o mesmo sentido. Eis as principais passagens na versão Almeida Revista e Atualizada, sendo que minhas alterações estão sublinhadas, a tradução de pãs ou ta panta está em negrito, e outros destaques estão em itálico:

Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez…. O Verbo estava no mundo [cosmos], o mundo [cosmos] foi feito por intermédio dele, mas o mundo [cosmos] não o conheceu (João 1.3, 10)

Porque dele, e por meio dele, e para ele é o todo. A ele, pois, a glória eternamente. Amém (Romanos 11.36, conforme o padrão de Isaías 40.13)

…todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem é o todo e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual é o todo, e nós também, por ele. (1 Coríntios 8.6)

Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo. Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte. Porque o todo sujeitou debaixo dos pés. E, quando diz que o todo lhe estão sujeitas, certamente, exclui aquele que o todo lhe subordinou. Quando, porém, o todo lhe estiver sujeito, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que o todo lhe sujeitou, para que Deus seja tudo no todo. (1 Coríntios 15.25-28)

E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. Ora, o todo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. (2 Coríntios 5.17-19)

­­de fazer trazer debaixo da sua [de Cristo] cabeça, na dispensação da plenitude dos tempos, o todo, tanto as coisas do céu como as da terra; nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz o todo conforme o conselho da sua vontade…. o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando- o dentre os mortos e fazendo- o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude do todo que a tudo completa (Efésios 1.10-11, 20-23; ver também Sl 8.7)

Mas, falando a verdade em amor, cresçamos para o todo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor. (Efésios 4.15-16)

­Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foi criado o todo, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. O todo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, o todo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo o todo, quer as [coisas] sobre a terra, quer as [coisas] nos céus. E a vós outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis, se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro. (Colossenses 1.13-23)

Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando o todo pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, (Hebreus 1.3)

O que podemos observar destas passagens e das suas respectivas traduções sugeridas?

Primeiro, esta tradução mais ao pé da letra não flui bem em português e por isso, às vezes, é mais fácil atribui a ela um sentido adverbial (“tudo”) do que substantivo (“o todo” = universo) ou até adjetivo (“todas as coisas”). Mas quanto a este último, ao responder à pergunta “quais coisas”, o sentido adjetivo (“todas as coisas”) acaba tendo o mesmo sentido que a forma substantiva (“o todo”).

Segundo, creio que a leitura destes textos bíblicos juntos ilustra a associação de ou ta panta com ktisis (criação/criatura), kosmos (mundo), e ouranos kai gē (céu e terra). Lendo assim, poderemos concluir que:

  1. O universo (“o todo”) foi criado por Deus/Cristo (Jo 1.3,10; Rm 11.36; 1Co 8.6; Cl 1.13-23; Hb 1.3)
  2. O destino do universo, de alguma forma, é de servir os propósitos de Deus. Isto é, é de servir Cristo e estar debaixo da sua autoridade (Rm 11.36; Ef 1.10; Cl 1.13-23)
  3. Quanto à última afirmação, o processo está atualmente em andamento, terminará somente no “fim”, Cristo está colocando o universo debaixo da sua autoridade (1 Co 15.25-28)
  4. A igreja coopera e completa a tarefa de Cristo de colocar o universo debaixo da sua autoridade (2Co 5.17; Ef 1.10, 22-23; 4.15-16 veja também Ef 3.10; Cl 1.13-23)

O que há de novidade neste exercício? Não há nenhuma novidade de conteúdo. Os mesmos quatro pontos acima podem ser igualmente feitos por meio de um estudo dos outros termos ktisis (criação/criatura), kosmos (mundo), e ouranos kai gē (céu e terra). A contribuição é mais de ênfase do que de conteúdo. Por que isto é importante? É importante porque a perspectiva alternativa e muito popular é basicamente que este universo não faz parte do plano futuro de Deus. Ao contrário, ele é destinado a destruição. E o corolário é que a igreja, portanto, não deve ter grande preocupação pelas questões ambientais além do conveniente, e isto especialmente porque o seu papel missionário é iminentemente evangelístico.

Há uma base aparentemente forte nas Escrituras para esta perspectiva popular. Pois, há passagens bíblicas que falam da destruição futura do universo (2Pe 3.1-13) e do aparecimento de um novo céu e nova terra (Ap 21.1). Também há muitas passagens bíblicas da importância da tarefa evangelística, começando com as diversas referências à “Grande Comissão”. Tudo isto é reforçado por filmes, livros e pregações populares. E é justamente este o problema principal: a dificuldade de promover uma interpretação quando uma outra contrária já ganhou a maior simpatia. Não é nem a questão de corrigir a interpretação popular em si, porque não é difícil corrigi-lo (veja, por exemplo, as obras citadas no início desta reflexão). Mas a correção é um faca de dois gumes. Por um lado, é preciso mostrar a falha da interpretação popular. Mas é igualmente importante mostrar que a interpretação alternativa tem mais peso bíblico.

Por exemplo: por um lado, é importante demonstrar que a “destruição” encontrada em 2 Pedro 3 não se refere ao mundo em termos materiais, que o novo céu e nova terra não são outro céu e outra terra mas este mesmo céu e terra renovados, e que a dimensão evangelística do ministério é urgente, sim, mas não a única ocupação e preocupação missionária. No entanto, além destas demonstrações, é igualmente importante mostrar que a perspectiva alternativa é corrente. Aliás, ela é bem mais corrente que as passagens usadas para sustentar a interpretação popular. Esta é a importância das passagens que falam da ta panta. Pois elas se somam a muitas outras passagens que usam os termos ktisis, kosmos, e ouranos kai gē.

E a conclusão é esta: Deus tem um plano redentor3 para o mundo que Ele próprio criou e que o pecado atingiu. E Deus estabelece o povo de Deus para participar deste plano. Esta é a nossa missão e certamente a evangelização é absolutamente central ao seu cumprimento. Mas a tarefa de evangelização vai além de gente e inclui, de alguma forma, a criação toda. Esta é a nossa missão.

 

Notas:

1. Veja especialmente Romanos 8.18-25 onde a criação, e não uma “nova” no sentido de “outra” criação, aguarda sua libertação.
2. Prefiro usar o termo “criação”, ao invés de “natureza” ou até mesmo “meio-ambiente” por ser este o termo mais usado nas Escrituras por ele enfatizar o seu vínculo inseparável com Deus como criador.
3. A ideia de redenção decorre especialmente de Romanos 8.18-25, mas também é sustentado pelas passagens que afirmam que Cristo está “sujeitando” o universo debaixo dos seus pés. Estas observações, entretanto, não devem ser usadas para sustentar a doutrina da salvação universal. Da mesma forma que o destino humanos implica tanto em julgamento quanto em salvação, igualmente é o caso do universo (criação/mundo/céu e terra) todo.

 

  1. Que o nosso criador , libertador e consolador , abençoe tudo que exalta o seu nome . Graça e paz aos seguidores de Cristo vivo repreendido toda ousadia do fracassado DIABO. Amem IGREJA VIVA DO ETERNO E SOBERANO DEUS?

    Halelluyah Senhor!!!

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