Arquivo de julho 2011

Semana 30: Jó 27.1-5

E Jó continuou em sua fala e disse: “Juro por Deus, pelo Todo-Poderoso, que não quer me fazer justiça e que enche de amargura o meu coração, juro que, enquanto ele me der forças para respirar,
os meus lábios nunca dirão coisas más, e a minha língua não contará mentiras. Nunca direi que vocês têm razão de me acusar; enquanto viver, insistirei na minha inocência…”

Reflection

Do ponto de vista da “ciência” da interpretação o Livro de Jó é fascinante. Já vimos isto diversas vezes nas nossas devocionais. No capítulo 27 vemos novamente. Alguns princípios vêm a mente, por exemplo…

Primeiro, cuidado com interpretações “ao pé da letra”. Muitos leitores sabem isto muito bem. A língua emprega diversas estratégias de comunicação, desde a prosa até a poesia e incluindo metáforas, aforismos e expressões idiomáticas. Por exemplo, se lermos a oração de Jó ao pé da letra e entendermos que a sua fala, sendo contido dentro das Escrituras, é também fala divina, poderíamos concluir, equivocadamente, que Deus não é justo e que deseja prejudicar as pessoas. Lógico, não chegamos a esta conclusão porque conhecemos tantas outras passagens que dizem ao contrário. Ao invés de entender a oração de Jó desta maneira, é fácil entender que esta fala é duma pessoa chateada e a sua chateação registra a percepção da injustiça de Deus mas não a injustiça em si. É fácil ver isso nesta passagem mas sempre temos que ser atentos que em outras passagens algo semelhante poderá estar acontecendo.

Segundo, a interpretação precisa levar em conta o interlocutor. Este princípio também é óbvio para muitos como o bê-a-bá de qualquer leitura de textos. Entreanto, porque tratamos as Escrituras como leitura sagrada e assim como de um só autor, o Espírito Santo, por “trás” dos muitos autores, temos a tendência de tratar todas as falas contidas numa dada passagem do mesmo jeito. Tanto que, se for prestar a atenção para as leituras públicas das Escrituras, quase sempre as pessoas lêem todas as falas com o mesmo tom de voz (normalmente um tom monótono porque parece mais “sagrada”), como se fossem faladas por uma só pessoa. No caso da nossa passagem acima, a fala é de Jó e não dos seus amigos, o que explica muito o conteúdo e o tom da fala.

Bem, até aqui, minhas observações são mais pedagógicas que “devocionais”. Então… uma observação mais pessoal: não é fantástico que Jó, mesmo achando Deus injusto com ele, não parte para a maldade como muitos que desistem de Deus em situações semelhantes. Mas, ao invés disto, Jó faz questão de reafirmar o seu compromisso com a integridade: “meus lábios nunca dirão coisas más, e a minha língua não contará mentiras…” Que modelo para nós, na hora do aborrecimento!

Oração

Pai, reafirmamos a nossa confiança, a nossa lealdade a ti acima de tudo. Mesmo na aflição desejamos ser como tu, fiel, justo e compassivo. Por isso, dê nos a porção abundante do teu Espírito dentro de nós. Em nome de Jesus. Amém.

Semana 29: Jó 26.5-14

Na terra da escuridão, todos se contorcem, treme o oceano e tudo o que nele existe.
O abismo abre-se diante de Deus, a terra da destruição aparece a descoberto.
Deus estendeu a abóbada celeste sobre o vazio e suspendeu a terra sobre o nada.
Encerrou as águas dentro das nuvens, sem que estas rebentem com o peso.
Encobriu com uma nuvem o seu trono, para não ser visto por ninguém.
Traçou um círculo à volta do mar, no limite entre a luz e as trevas.
Tremem as colunas que sustentam o céu assustadas com o seu bramido.
Com o seu poder acalmou o mar, com a sua inteligência desfez o caos.
Com o seu sopro varreu o céu, com a sua mão matou a serpente veloz.
Mas isto é só uma parte das suas obras, um eco de tudo o que se pode contar dele. Quem será capaz de compreender a grandeza enorme dos seus feitos? (Sociedade Bíblica de Portugal)

Reflexão

Nos versículos acima eu quis chamar atenção para duas coisas: os diversos elementos da criação (sublinhados) e a observação final (em negrito)…

Nas primeiras linhas vemos como Jó apresenta certos atributos de Deus — o seu poder, a sua soberania, a sua criatividade, a sua onisciência, e o seu cuidado sobre nós — por meio da nossa experiência do mundo real, isto é, dos elementos da criação, tão presentes que nem reparamos. Na antiguidade era comum recorrer aos elementos da criação para falar dos atributos de Deus. Hoje, no nosso mundo urbanizado e industrializado, é mais raro. Falar de Deus hoje é muito mais filosofar pelo uso duma linguagem mais abstrata. Que pena. Pois como os Livros de Jó, Salmos, Provérbios, e dos Profetas especificamente e todos os autores da Bíblia de modo geral sabem, a “assinatura” do Criador e a sua maior evidência está evidente na sua própria criação. Pela sua beleza, sua potência, sua ordem e pelo seu propósito. Consegues ver desta maneira?

Entretanto, a última afirmação, em negrito, é uma boa ressalva: “mas isto é uma parte das suas obras, um eco de tudo que se pode contar dele”. A marca do Criador pode ser visto, sim, na sua criação. Mas não se confunde a criação com Criador. Se há beleza, poder, ordem, e propósito na criação, muito mais há no Criador. Aliás, ouso dizer que só temos uma noção destas coisas por temos a imagem de Deus gravada em nós de tal forma que possamos perceber, por mais parcial que seja, o que é beleza, poder, ordem e propósito, e outras características do próprio Deus.

Oração

Pai eterno, Criador de tudo, quão magnífico é o teu nome. Venhas nos encher da alegria do teu Epírito, do auto-entrega de Cristo e da compaixão de Deus. Em nome de Jesus. Amém.

 

Semana 28: Jó 25.1-6; 26.1-2

Bildad de Chua respondeu, dizendo: “Deus é soberano e temível, lá do céu, faz reinar a paz. Os seus servidores são batalhões incontáveis e a sua luz ilumina toda a humanidade. Um homem não consegue ter razão contra Deus, um simples mortal nunca sai inocente. Até a Lua se apresenta sem luz e as estrelas perdem brilho diante dele, quanto mais o homem, criatura insignificante, que não passa dum simples verme!”

Job respondeu, dizendo: “Que boa maneira de ajudar a quem está sem forças, de socorrer quem não consegue erguer os braços!… (Sociedade Bíblia de Portugal)

Reflexão

Tanto a resposta do Bildade quanto a do Jó são afirmações verdadeiras. É verdade que Deus é o soberano sobre absolutamente tudo e diante dele, nenhum ser humano pode contrariá-lo com êxito. Bildade falou a verdade. E também é verdadeira a repreensão que Jó faz, de que este tipo de verdade, a verdade que Bildade contou, tem força zero para consolar os aflitos. Jó falou a verdade. Mas ambas as verdades se vestem de ironia, bastante ironia. E a ironia quase sempre tem o efeito inverso, neste caso, de transformar a verdade em falsidade. Ou será que estou exagerando?

A verdade de Bildade se torna “falsa” porque erra na sua aplicação. Não se aplica, como ele imagina, à situação específica de Jó. Mas também a réplica de Jó se torna “falsa” porque ao invés de se humilhar diante deste Deus soberano, Jó se chateia cada vez mais e se afunda cada vez mais na sua amargura. E assim a sua “inocência” em termos da causa do seu sofrimento acaba se transformando cada vez mais em culpabilidade em termos da sua contrição, ou melhor, da sua falta de contrição diante do Deus Soberano.

A lição é especialmente relevante para líderes cristãos. Será que nós também, como Bildade, afirmamos “verdades” que não se aplicam aos nossos relacionamentos e assim intensificamos mais ainda o desentendimento e a inimizade? Ou como Jó, afirmamos ironicamente a verdade do outro a nosso respeito com a finalidade também de minar a paz e nos auto-justificar com aquela falsapiedade?

Não sei de você, mas eu sou duplamente culpado… tanto da ironia encrenqueira de Bildade quanto da ironia orgulhosa de Jó.

Oração

Deus, tenha misericórdia de nós!

Semana 27: Jó 24.13, 20-25

[Jó]
“Os perversos odeiam a luz.A própria mãe não lembra dele. Os vermes o devoram com gosto, e ele é esquecido por todos. O pecador é destruído como uma árvore que cai. Isso acontece porque ele nunca ajudou as viúvas, nem teve pena das mulheres que não podem ter filhos. Deus, com o seu poder, destrói os maus; ele age e acaba com a vida dos perversos. Deus deixa que vivam seguros, mas fica sempre de olho neles. Durante algum tempo, os perversos prosperam, mas num instante secam como o capim, são cortados como as espigas de trigo. Quem pode dizer que essas coisas não são assim? Será que alguém pode provar que não estou dizendo a verdade?”

Reflexão

Na sua resposta para seus amigos que entendem que os perversos sofrem enquanto os justos prosperam, Jó faz a observação profunda e contrária acima. Nos versos 3 a 11 ele fala de órfãos, viúvas e pobres que sofrem indevidamente às mãos dos exploradores perversos. Interessante notar que estas três categorias de pessoas exploradas (órfãos, viúvas, e pobres), junto com os estrangeiros, são especialmente protegidas pela Lei. Inclusive, nos Salmos, a palavra usada para “pobre” às vezes é traduzida como “justo” por ser virtualmente o seu sinônimo. Desta forma, Jó apela para o bom senso que reconhece que pessoas inocentes, pessoas que são especialmente o objeto da proteção e do amor de Deus, sofrem. Ao mesmo tempo, Jó também afirma, e novamente apelando para o bom senso, que pessoas más prosperam, mesmo que indevida e temporariamente (especialmente v.24).

Por que Jó fala assim? Sem dúvida ele está repreendendo os amigos pela sua “teologia” raza. Veja, por exemplo, o último versículo citado acima. Mas ao fazê-lo, ele também faz uma observação “conciliatória”, sobre a qual os seus amigos também concordam: Deus julgará um dia a todos (v.1). E este dia pode ser ou não o dia de hoje. Para os amigos de Jó, o dia sempre é hoje. Para Jó, pode ser ou não. Mas para todos, o julgamento é certo, adiado ou não.

A bondade e a integridade são compensadas, sim. E a maldade, a duplicidade, e o auto-engrandecimento são punidas. Mas a punição ou a compensa não são meramente “futuras” e exteriores. São, acima de tudo, presentes e interiores. Fazer a coisa certa, mesmo que resulte em exploração, faz um bem imenso ao interior, e o bem que faz é imediato.

No meio do sofrimento, Jó havia aprendido uma lição incalculável: fazer a coisa certa é simplesmente certo, mesmo que redonde, por enquanto, em sofrimento.

Oração

Pai eterno e misericordioso, como é bom seguir nos teus passos e nos conduzir de acordo com os teus preceitos. Dá-nos a tua graça para viver de a plenitude do teu Espírito. Em nome de Jesus. Amém.