Arquivo de junho 2011

Semana 26: Jó 23.8-12

Eu procuro no Leste, mas Deus não está ali; e não o encontro no Oeste.
E também não o vejo quando age no Norte ou se esconde no Sul.
Mas Deus conhece cada um dos meus passos; se ele me puser à prova, verá que sairei puro como o ouro.
Eu sigo o caminho que ele me mostra e nunca me desvio para lado nenhum.
Obedeço aos mandamentos de Deus; sempre faço a sua vontade e não a minha.

Reflexão

É muito difícil, até impossível, não admirar Jó. Apanhou para valer… e sem culpa nenhuma. Perdeu familiares, bens, saúde e apoio da esposa e dos amigos. Os amigos não entenderam a sua situação e passaram sal no ferido o acusando de alguma perversidade mas ele não era culpado. Quanto desânimo! E nisto tudo, Jó se sentia cada vez mais perplexo, cada vez menos próximo de Deus, o “bem maior” que sobrava da sua vida. Entretanto, e mesmo muitíssimo desanimado, não desistiu. Conforme os versos acima, procurava Deus em toda parte, e não o encontrou. Mesmo assim, ele afirmou, “eu sigo o caminho que ele me mostra e nunca me desvio para lado nenhum. Obedeço aos mandamentos de Deus; sempre faço a sua vontade e não a minha” (vv.11-12). Quanta resolução frente ao desânimo. Eu queria ser como Jó, mas lógico, sem passar por aquilo que ele passou. Quem quer passar por isso, afinal?

Neste domingo, meu amigo Paulinho, psicólogo e líder de louvor na nossa igreja local, pregou uma mensagem com base em 2 Coríntios 4.16-18. O versículo 16 diz, “Por isso nunca ficamos desanimados. Mesmo que o nosso corpo vá se gastando, o nosso espírito vai se renovando dia a dia.” Esclareceu que a palavra traduzida como “desanimar” não é tanto a ideia de perder a empolgação emocional quanto a ideia de perder a motivação. Distinção brilhante! Jó estava sim, desanimado. Mas não perdeu a motivação. Sabia quem era e quem permanecerá a ser o alvo da sua vida…o próprio Criador, mesmo em face de aparente distância.

Ainda estou mastigando estas palavras.

Eu queria ser como Jó.

Oração

Pai amado e misericordioso, venha ao nosso encontro. Não se afaste de nós. Não me afasto de Ti e não me afastarei, pela tua graça e pelo poder do Teu Espírito em mim. Quero, Senhor, a resolução de Jó, a determinação e a garra que me acompanha quando passo por dificuldades. Em nome do Teu filho amado, Jesus. Amém.

Semana 25: Jó. 22.26-28; 23.16-17

[Elifaz]

Deleitar-te-ás, pois, no Todo-Poderoso e levantarás o rosto para Deus. Orarás a ele, e ele te ouvirá; e pagarás os teus votos. Se projetas alguma coisa, ela te sairá bem, e a luz brilhará em teus caminhos.

[Jó]

Deus é quem me fez desmaiar o coração, e o Todo-Poderoso, quem me perturbou, porque não estou desfalecido por causa das trevas, nem porque a escuridão cobre o meu rosto.

Reflexão

Belíssimas estas palavras de Elifaz, não achas? Não são as palavras que desejas falar, ou até que falas, para as pessoas amadas nossas que desejamos que caminhem com o Senhor? Ora, acho tão chato ter que dizer o seguinte, mas as palavras de Elifaz não são palavras acertadas. Pelo menos, quando foram ditas, não eram apropriadas para a situação de Jó. Por mais que Elifaz queria desafiar e confortar Jó, a cruel realidade do mundo em vivemos, e mundo criado por Deus, é que nem sempre as coisas se vão bem para aqueles que vivem de modo íntegro diante de Deus, certamente não o tempo todo.

Tudo bem. Até aqui, esta é a mesma mensagem que temos visto ao longo do estudo de Jó. Nenhuma novidade. Mas vejamos a resposta de Jó para Elifaz. Ela é especialmente instrutiva. Se Deus é mesmo soberano no sentido de nos surpreender e até permitir que sejamos gravemente afligidos (mesmo que não para a morte — 1 Coríntios 10.13), às vezes o nosso relacionamento com ele é de desmaio, perturbação e desfalecimento. E este relacionamento não é antagônico ao de “deleitar-se”. Da mesma forma, tanto amamos os nossos pais humanos quanto, quando são bons pais que também disciplinam, os tememos, isto é, temos um profundo respeito por eles.

O que me impressiona nestes capítulos é a resolução de Jó. Ele não tinha dúvida que amava e servia a Deus com integridade. Não tinha dúvida nenhuma apesar da orientação persistente contrária dos seus amigos. Mas também não sabia o que fazer, pois diante dum Deus que permite aflições tremendas nas nossas vidas, o que fazer?

Ora, Jó não achava respostas fáceis para esta pergunta, certamente não dos seus amigos. E longe de mim fazer o papel destes amigos dando uma resposta destas. Temos que esperar alguns bons capítulos para entender o que Deus queria fazer na vida de Jó. E na vida real, nós também, às vezes, temos que esperar um bom tempo antes de percebermos o que Deus está querendo fazer nas nossas vidas.

Oração

Pai amado, veja a nossa fragilidade e não permita que as aflições nos esmaguem. Venha nos socorrer nas nossas angústias para que possamos nos deleitar verdadeiramente na Tua presença. Em nome de Jesus. Amém.

Semana 24: Jó 22.17-18, 20b

[Elifaz]

A Deus eles [os maus] diziam: ‘Deixa-nos em paz!’ E comentavam: ‘O que pode o Todo-Poderoso fazer em nosso favor?’ Foi Deus quem encheu de coisas boas as casas dos maus, porém eu não quero pensar como eles… as riquezas dos maus são destruídas e que as sobras são devoradas pelo fogo.

Reflexão

Novamente, a fala de Elifaz, amigo do Jó, está correto, embora o seu pressuposto, que Jó seja um destes maus, seja errado. Muitas pessoas, no nosso tempo e no tempo de Jó, não estão “nem aí” com a religião. É como se falassem para Deus, “deixa-nos em paz! O que pode o Todo-Poderoso, ou até mesmo a religião, fazer em nosso favor?” Isto descreve muito bem a atitude de muitos dos nossos vizinhos, colegas de trabalho ou de estudo e até mesmo amigos. Não querem nada com a religião e se irritam ou se aborrecem se a gente fala alguma coisa nesta direção.

Mas se aborrecer é até bom. Pois indica que a pessoa está incomodada, e se está incomodada, provavelmente seja por causa suas convicções mais íntimas não são tão ateístas. Não que isto seja carta-branca para a gente aborrecer as pessoas demasiadamente “em nome da fé.” Claro, devemos sempre estar prontos para dar uma boa palavra a respeito das nossas convicções. Mas normalmente a “ousadia de falar” rende mais quando temperada pelo tato e sensibilidade genuína.

Elifaz acerta, sim, nesta observação a respeito dos maus, mesmo errando na aplicação para o caso de Jó. Mas apesar deste acerto, Elifaz, mais adiante, acaba tirando conclusões equivocadas a respeito dos próprios maus. Pois, se ele afirma (corretamente) que “foi Deus quem encheu de coisas boas as casas dos maus”, o que dizer da sua conclusão contraditória no versículo 20, “as riquezas dos maus são destruídas…”? Mais correto ainda é a perspectiva do Jó no capítulo anterior inteiro onde os maus continuam bem até à velhice (por exemplo, 21.7). O fato é que Elifaz e Jó conhecem, pelas suas vivências, casos em que os ricos se dão bem até a morte e outros casos que se danam. Claro, é fácil concluir que quando se danam é pelo castigo de Deus. Mas como interpretar os muitos casos em que os maus se dão bem (materialmente) o resto da vida?

Para Jó a teologia simplista dos seus amigos, que os bons prosperam e os maus se danam, não dá porque não explica a vida real. E certamente não explica o sofrimento que ele estava passando.

Por que será, temos a tendência de adotar explicações fáceis e depois aplicá-las tão facilmente à vida dos outros… sem sensibilidade?

Oração

Pai amado, o Livro de Jó continua a desafiar as nossas pressuposições. E ressalta a necessidade de nos aproximarmos de Ti. Dá-nos o coração de Cristo para ouvir melhor a Tua voz e atender melhor as vozes de angústia ao nosso redor. Em Cristo Jesus, Amém.

 

Semana 23: Jó 22.6-9

[Elifaz]

Como garantia de um pequeno empréstimo, você ficava com as roupas dos seus patrícios e assim os deixava nus. Você não dava água para as pessoas cansadas nem comida aos que tinham fome. Você usou a sua posição e o seu poder para se tornar o dono da terra. Você roubou e maltratou os órfãos e nunca ajudou as viúvas.

Reflexão

Como observamos ao longo destas reflexões, os amigos de Jó acusaram Jó falsamente. Parece-nos que eram sinceros mas mesmo assim, a acusação não competia. Mas se a acusação era falsa, o pressuposto a respeito daquilo que desagrada Deus estava certíssimo.

Deus, de fato, se aborrece de quem pratica injustiça de qualquer sorte, quer seja enriquecer-se aos custos do empobrecimento dos outros, deixar de mostrar misericórdia, ou qualquer tipo de exploração a fim de tomar posse do poder. Nisto tudo, certos atos eram especialmente graves: maltratar os órfãos e a negligência de socorrer as viúvas. Interessante que são estas injustiças que definem o conceito de “pecado” mencionado no versículo anterior, v. 5.

Isto é importante porque popularmente o pecado é geralmente concebido em termos individuais e morais. Isto é, o pecado seria aquele delito que eu cometo individualmente. A mentira, os maus pensamentos, a inveja, a cobiça, e a pornografia são alguns exemplos. Enquanto é justo pensar nestes delitos como pecados, a definição dada por Elifaz não puxa para este lado mas enfatiza o mal que cometemos em relação ao nosso próximo, especialmente as injustiças ou negligências que prejudicam as pessoas socialmente frágeis.

É bem provável que isto não seja nenhuma novidade para a grande maioria que acompanha estes devocionais. Estamos “cansados de saber” isto. Sim. Por que então isto ainda nos incomoda? Ou não te incomoda?

Oração

Crentes de carreira somos muito de nós, ó Pai. E ainda relutamos em refletir a Tua misericórdia. Sejas misericoridoso para conosco e graves no nosso interior a fome e a sede pela Tua justiça dentro de nós e por meio de nós demonstrada nos nossos relacionamentos. Em nome de Jesus. Amém.