Arquivo de abril 2011

Semana 17: Jó 15.4

Elifaz:

Mas você quer acabar com o sentimento religioso; se dependesse de você, ninguém oraria a Deus. (NTLH)

Também, você quebra a reverência e retira a contemplação sábia diante de Deus. (tradução minha ao pé da letra)

Como é que pode desprezar o jeito “consagrado” de agir e falar a respeito das coisas de Deus? (tradução minha livre)

Reflexão

Puxa vida, três tentativas de traduzir este versículo! Mas creio que deu para ter a idéia do que Elifaz está reclamando. Jó deu a sua resposta longa e super-áspera nos capítulos 12, 13 e 14 para os conselhos dos seus três “amigos”, Elifaz (capítulos 4-5), Bildade (capítulo oito) e Zofar (capítulo 11). Vale a pena ler! Agora começa uma segunda rodada de conselhos e respostas (cap.s 15-21), começando com Elifaz. Elifaz não gostou nem da atitude e nem das palavras de Jó. Efetivamente é isto que ele diz no versículo acima. Elifaz evidentemente acredita que existe um jeitinho de se colocar e uma jeitinho de falar das coisas de Deus. Hoje denominamos este “jeitinho” de “consagrado” ou, às vezes, “piedoso”, algo que facilmente confundimos com os nossos “usos e costumes”.  O que normalmente não se encaixam dentro do nosso conceito de “consagrado” são expressões de chateação, a verbalização das nossas dúvidas, a insistência de usar uma linguagem “normal” ao invés duma linguagem religiosa, até certas posturas e roupas (tênis e bermuda certamente não são consagrados).

Jó é culpado de tudo isto porque falou o que estava no seu coração, mesmo quando isto questionava diretamente o Criador (por sinal, na resposta de Jó nos capítulos 12-14, reparei 21 referências aos aspectos organícos e inorgânicos da criação!). E por isso, os seus amigos só poderiam tirar uma conclusão: “Você fala assim por causa do seu pecado” (Jó 15.5a).

Eu confesso que estou começando a ficar com certo complexo de estar batendo sempre na mesma tecla nestas devocionais. A minha única defesa é que exatamente isto que encontramos no Livro de Jó e só posso concluir que estamos tão obstinados em sermos “bons amigos” e “bons conselheiros” que nos faz bem (por nos faz mal!) ouvir os desacertos dos amigos de Jó. E lá vamos nós para uma segunda rodada de diálogo entre Jó e seus amigos os próximos sete capítulos! Quem sabe a ficha eventualmente cai!

Oração

Como precisamos de Ti, ó Pai. Precisamos aprender como ouvir bem as angústias dos outros, como expressar de modo transparente as próprias angústias, e como depender e confiar em Ti na hora da provação. Venhas ao nosso socorro. Em nome de Jesus. Amém.

Semana 16: Jó 12.1-3

Então em resposta Jó disse:
“Sem dúvida, vocês são a voz do povo, e, quando morrerem, não haverá mais sabedoria…Mas eu também entendo as coisas e não sou menos do que vocês. Quem não sabe isso que vocês disseram?

Reflexão

Aconteceu na semana passada. Era apenas a nossa segunda vez naquela reunião dum pequeno grupo de pessoas procurando implantar o evangelho no seu bairro. Eu e a minha esposa não conhecemos metade das pessoas que estavam lá. Pediram que eu trouxesse a palavra, o que eu fiz.

De repente, uma jovem senhora deu uma de Jó…e com todo o capriche. Falou energeticamente e muito frustrada, “por que Deus me abandonou? Por que não responde as minhas orações. Não fiz nada errado…” E não parou aí. Falou e reclamou com toda a seriedade um tempão e deixou um silêncio, até mesmo um espanto, pairando na reunião. Já ví este tipo de confusão antes, mas nunca desta dimensão.

Então vieram os conselhos, praticamente de todo mundo, eu inclusivo. Conselhos bons? A maioria sim. Conselhos acertados? Não faço idéia porque ainda não sei direito o que aquela senhora passava. Mas uma coisa me impressionou: ela escutava cada um que falava sem nunca interromper. Mas no final de cada conselho, parecia que todo isto era de pouca ou de nenhuma ajuda.

Jó também escutavam as respostas longas dos seus amigos…sem nunca interrompê-los. E embora seja possível, até compreensível, entender a sua resposta acima como ironia, acredito que ele estava falando sinceramente quando dizia que quando os amigos morrerem não haverá mais sabedoria (bem, talvez estivesse exagerando um pouco!).

Impressionante! Como eu gostaria de ter a mesma paciência de ouvir o conselho de amigos, mesmo quando é tudo furado. Lamentavelmente conheço de outra sorte grandes líderes cristãos que não conseguem ouvir nem sequer uma sentença (!) inteira a seu respeito sem interromper para se defender.

Oração

Deus tenha misericórdia de nós! Amém.

Semana 15: Jó 11.2-5

Zofar:

Será que todo esse palavrório vai ficar sem resposta? Por acaso, quem fala muito é quem tem razão? Jó, você pensa que não temos resposta? Pensa que as suas zombarias vão nos fazer calar a boca? Você diz que o seu modo de pensar está certo e afirma que é inocente diante de Deus. Eu gostaria que Deus falasse e lhe desse uma resposta! (NTLH)

Reflexão

É verdade que às vezes Jó exagerava na sua explicação da sua situação (“Deus me joga na lama, e até a minha roupa tem nojo de mim” 9.31). Mas de grosso modo, o seu desabafo nos capítulos 9 e 10 fazia sentido e assim era razoável. Por isso, a resposta do terceiro amigo de Jó, Zofar, nos versículos acima, é especialmente incrível e arrogante. Na verdade, a resposta de Zofar se aplica muito mais a ele próprio do que a Jó. Quem fala muito e não tem razão, ou pelo menos, não tem toda a razão, são os amigos de Jó. É uma resposta preocupante e eu fico imaginando se eu e você fazemos o mesmo quando procuramos aconselhar os outros!

Zofar dá o tipo de resposta que todo ministro é tentado de dar: aquela resposta com o ar de “eu sei o que Deus está pensando a seu respeito.” Quem faz este tipo de resposta provavelmente superestima, como os amigos de Jó, a sua própria espiritualidade ou intimidade com Deus. Na verdade, este tipo de resposta revela arrogância, não espiritualidade ou intimidade com Deus. Mas para ser justo com Zofar, a resposta que dá (capítulo 11 todo), ele dá por causa dum pressuposto: Jó pecou, Jó está errado, Jó colheu o fruto do seu erro na forma do castigo de Deus. Claro, nós sabemos o que Zofar não sabia: Jó era, de fato, inocente, e o seu sofrimento era proveniente do diabo. Quem sabe, então, a gente deve dar um desconto para Zofar?

Que desconto nada, nem para Zofar, e muito menos para nós mesmos quando julgamos o próximo e achamos que sabemos os desígnios de Deus para ele. Cuidemos! Cuidemos!

Oração

Deus compassivo e misericordioso, perdoa-nos quando alegamos saber mais que sabemos dos seus desígnios para com os outros. Ajude-nos a ser rápidos para nos compadecer e lentos para julgar. Em Nome de Jesus. Amém.

Semana 14: Jó 9.21-24

Sou inocente, mas não me importo com isso; estou cansado de viver. Para mim, é tudo a mesma coisa; por isso, digo que Deus destrói tanto os bons como os maus. Se, de repente, uma desgraça mata pessoas inocentes, Deus ri. Deus entregou o mundo nas mãos dos maus e cobriu os olhos dos juízes com uma venda. E, se não foi Deus quem fez isso, então quem foi? (NTLH)

Reflexão

O Livro de Jó desafia as teologias simplistas. A passagem acima é um bom exemplo. O amigo de Jó, Bildade, havia exortado Jó no capítulo 8 com uma teologia simplista, aquela que todos nós já expusemos algum dia talvez, ou até continuemos a expor popularmente, uma teologia em que Deus abençoa os bons e castiga os perversos.  Logo, se sofrer, é porque pecou. O interessante é que a elaboração desta teologia simplista inclui muitas boas e acertadas observações. Jó reconhece isto na sua resposta para Bildade: “Eu sei muito bem que as coisas são assim” (9.2). Mas de acordo com Jó, o problema principal está com a aplicação, aplicação esta que pressupõe que se pode enquadrar Deus facilmente dentro das nossas categorias e estabelecer “conclusões” sobre porque isto ou aquilo aconteceu: no caso específico, porque Jó estava sofrendo tanto.

O protesto de Jó está certo, mesmo que a sua conclusão, citada acima, pareça muito forte. Tanto que eu mesmo não consegui me conformar com a expressão: “Se, de repente, uma desgraça mata pessoas inocentes, Deus ri”. Talvez seja o Bildade dentro de mim, mas eu precisei verificar esta tradução. O hebraico é mais ou menos isto mesmo. Mas a tradução grega conhecida como a Septuaginta, feita 150 anos antes de Jesus, mostra que os escribas também lutavam com este versículo, pois traduziram “pois os perverso morrem, mas os justos são ridicularizados”.

Não acredito que devamos entender que Deus realmente tem algum prazer na desgraça dos inocentes. Mas, a leitura desta primeira parte do capítulo 9 afirma que simplesmente não podemos tirar conclusões precipitadas de causa e efeito sobre as nossas circunstâncias. De fato, a única “explicação” que se pode dar para as desgraças que os inocentes sofrem é aquela que Jó deu em 9.24.

Onde tudo isto nos deixa? Humildes e humilhados diante do nosso único recurso: a misericórdia e a graça de Deus, que Ele promete para aqueles que estão em Cristo Jesus. Estamos novamente no campo de Bildade? Não, porque, como Jó, a sua graça não nos isenta de sofrimentos, porém…

E essa pequena e passageira aflição que sofremos vai nos trazer uma glória enorme e eterna, muito maior do que o sofrimento. (2 Coríntios 4.17 NTLH)

Oração

Pai, confessamos a nossa devoção a Ti acima de qualquer ídolo material ou de comportamento contrário a Ti. Tenha misericórdia de nós e tenha misericórdia de tantos inocentes que sofrem no Brasil,  devido a desgraças climáticas, políticas ou quaisquer que sejam. Que possamos refletir a compaixão de Cristo para pessoas nestas situações. Em seu nome, pedimos, Amém.