Arquivo de março 2011

Semana 13: Jó 8.10-13 (de novo)

Bildade (amigo de Jó):

Deixe que os nossos antepassados falem a você e o ensinem. Da sua experiência eles dirão isto: ‘Será que a taboa pode crescer fora do brejo ou o junco viver sem água? Verdes ainda e mesmo sem serem cortados, eles secam antes das outras ervas. Assim acontece com os que esquecem de Deus; assim dá em nada a esperança dos maus….’

Reflexão

Quero chamar atenção para o mesmo texto da semana passada…algo que nem mencionamos e às vezes passa despercebido. Os amigos de Jó e o próprio Jó, como é típico de tantas outras pessoas na Bíblia, facilmente recorrem para exemplos da criação (popularmente se fala “natureza”, mas “criação” é o termo bíblico). Na passagens acima e nos versículos imediatamente depois, Bildade procura argumentar por meio de analogias com a criação. De certo modo, isto era mais fácil e até mais normal para pessoas criadas no campo, isto é, em ambientes rurais. Mas esta observação não diminui a importância do uso corrente na Bíblia de analogias com a criação.

É importante porque revela um pressuposto da cosmovisão ou dos valores da Bíblia e das suas personagens. O pressuposto é que tais analogias podem ser feitas por uma motivo simples: Deus é o criador tanto do mundo dos seres humanos quanto do resto da criação. Aliás, os dois não são dois mundos criados por Deus, mas ambos pertencem ao mesmo mundo. Até aqui, para a maioria que lê estas devocionais, estou falando o óbvio e bem-conhecido. Tudo bem, mas quero deixar um desafio…especialmente para nós cristãos, mordomos da criação e preocupados em ser servos responsáveis nesta área também: por que a gente, gente grandemente urbana, não procura falar mais a linguagem da criação, isto é, conscientemente fazer as nossas analogias de “espiritualdade” e amadurecimento na fé, buscando e usando analogias da criação? Assim, estaríamos ressaltando tanto a sua origem (de Deus) quanto ao nosso íntimo vínculo a ela. E quem sabe, desta forma contribuiremos ao seu resgate eventual…como o passarinho que cuida do seu ninho.

Oração

Majestoso Criador, graças te damos pelo maravelhoso lugar que nos deu dentro da sua criação. Afine a nossa mente para compreender e comunicar os teus caminhos que manifestas por meio daquilo que criaste. Em nome de Jesus. Amém.

Semana 12: Jó 8.10-13

Bildade (amigo de Jó):

Deixe que os nossos antepassados falem a você e o ensinem. Da sua experiência eles dirão isto:
Será que a taboa pode crescer fora do brejo ou o junco viver sem água?
Verdes ainda e mesmo sem serem cortados, eles secam antes das outras ervas.
Assim acontece com os que esquecem de Deus; assim dá em nada a esperança dos maus….

Reflexão

No fim de semana passado estive em Brasília num encontro com cerca de 50 pastores do centroeste. Numa conversa particular com um deles, comentei da minha alegria (e aprendizagem) ao escrever estas devocionais baseadas no Livro de Jó. Então, este amigo me perguntou se entendi as falas dos amigos de Jó como tendo: a) a mensagem certa, de maneira errada ou na hora errada, b) a mensagem certa, de maneira certa e na hora certa, ou c) a mensagem errada, de maneira errada e na hora errada. Respondi que de grosso modo, estou pressupondo “c”, que os amigos de Jó falaram essencialmente a mensagem errada e na hora errada.

A qualificação,“de grosso modo”, é importante, pois, sem dúvida, os amigos de Jó falam muitas coisas certas também. É justamente isto que complica a leitura deste livro. E por trás desta “complicação” há outra: a nossa dificuldade de conciliar a nossa doutrina da inspiração das Escrituras com conteúdos equivocados dentro dela! Logo, está na hora duma explicação.

Muitos de nós estamos acostumados com mensagens evangélicas que se qualificam em algum momento coma a afirmação, “assim diz a Palavra de Deus” ou algo semelhante. Aprendemos a citar a Bíblia desta forma com a própria Bíblia, porque os seus autores citam textos bíblicos anteriores desta maneira. Logo, isto é bom. Só que não devemos entender, por isso, que a Bíblia é mero catálogo de afirmações desconectadas. Não, salvo algumas exceções (como o Livro de Provérbios), ela é escrita como história e assim possui uma sequência. Isto significa que são textos cujos significados se encontram em contextos. Por exemplo, em Mateus 4.5 o diabo cita Salmo 91.11-12. O diabo anunciou a Palavra de Deus? Sim e não. Sim porque citou corretamente e assim reproduziu fielmente as escrituras. Não porque o diabo procurou aplicar o texto dum modo equivocado.

O mesmo occore com o texto de Jó citado acima. Bildade falou uma verdade. Entretanto, aplicou a sua afirmação a Jó e assim errou a sua aplicação. A grande diferença entre o conversa do diabo em Mateus 4 e o diálogo dos amigos de Jó no Livro de Jó é de volume. O diabo fala poucos versículos em Mateus, mas os amigos de Jó falam muitos versículos e capítulos em Jó. E assim, muitos leitores ficam confusos. Afinal, como pode Deus permitir que uma perspectiva, ou pelo menos uma applicação errada seja tão extensa como no Livro de Jó? Não sei se tenho uma resposta certa a esta pergunta, mas talvez Deus queira que conheçamos aplicações erradas ou não apropriadas e que conheçamo-nas relativamente bem. Afinal de contas, não precisamos discernir muito bem as diversas mensagens “evangélicas” que estão sendo anunciadas por aí?

E assim, poderemos amadurecer no nosso jeito de tratar as Escrituras.

Oração

Não desejamos, ó Pai, um conhecimento da tua Palavra que não tenha vida e paixão. Mas também, ó Pai, queremos te ouvir tanto no interior dos nossos corações, como discernir a tua voz nos teus dizeres, na Palavra. Desperta o nosso ouvido para te ouvir, e nos incomoda para te obedecer. Em nome de Jesus. Amém

Semana 11: Jó 8.1-5

Então Bildade, da região de Sua, em resposta disse: “Até quando você, Jó, vai falar assim? Até quando as suas palavras serão como um vento forte? Será que Deus torceria a justiça? Será que o Todo-Poderoso faria o que não é direito? Decerto os seus filhos pecaram contra Deus, e ele os castigou como mereciam. Agora volte para Deus e ore ao Todo-Poderoso….”

Reflexão

Nos capítulos 6 e 7, Jó, muito chateado com Deus e com os seus amigos, desabafa de modo com uma transparência assustadora. Lemos um pouco disto nas últimas devocionais. Agora é a vez de um outro amigo falar. Como o primeiro amigo, Elifaz, nos capítulos 4 e 5,  também adepto convicto da sua teologia da vida vitoriosa que é um espelho da teologia da prosperidade, Bildade é convencido que Jó é vitima do seu próprio pecado e os filhos de Jó são vítimas dos seus pecados. A reclamação gritante de Jó nos capítulos anteriores, aos olhos dos seus amigos, deve parecer carnal e assim confirma a perspectiva de Bildade. Afinal, quem tem a coragem de questionar a veracidade da sua afirmação: Será que Deus torceria a justiça? Será que o Todo-Poderoso faria o que não é direito? Bildade deve ter razão, não? Não, Bildade está tragicamente equivocado.

Ainda estou assimilando a tragédia dos últimos 5 dias no Japão, que por sinal continua a se desdobrar. Domingo à noite, no culto, diriji a congregação numa oração pedindo o socorro de Deus para os japoneses e a proteção contra explosões nas usinas nucleares. De lá para cá, havia diversas explosões e o mundo inteiro está preocupado. Deus não ouviu as minhas (e as suas) orações? Deus está castigando os japoneses pelo seu pecado? Afinal, Deus torce a sua justiça ou faz o que não é direito?

Mas quanta pretensão nossa e do Bildade pressupor que toda desventura que ocorre para mim individualmente ou para um grupo de pessoas numa determinada região é vinculada espiritualmente ao comportamento humano. Chegamos a esta conclusão para poupar Deus da culpabilidade das desgraças que ocorrem, como se estas duas alternativas  esgotássem as suas explicações.

O Livro de Jó nos ensina que Deus não não é culpado pela situação de Jó e nem Jó é culpado. O mesmo pode ser dito em relação aos terremotos, o tsunami e das explosões nas usinas no Japão. Fazem parte duma criação em agonia, uma criação que aguarda a sua libertação, uma criação onde podemos e devemos, como cristãos, fazer diferença. Sobre isto, nosso papel não é de explicar, e sim, de redimir.

Oração:

Pai, desculpe a minha insistência, mas por favor, tenha misericórdia do povo japonês. Poupe os de maiores crises. Ajude-nos a ajudá-los com água, resgates, reconstrução e demonstração da compaixão de Cristo. Em nome de Jesus. Amém.

Semana 10: Jó 6.23-25

Será que pedi que me salvassem de um inimigo ou que me livrassem das mãos dos bandidos? Ensinem-me, que eu ficarei calado; mostrem os erros que cometi. Quem fala a verdade convence, mas a acusação de vocês não prova nada. (NTLH)

Reflexão

Hoje de manhã, quando fazia a minha caminhada, eu estava aborrecido. É que domingo à noite, durante a pregação, eu tinha feito um comentário, que alguém não gostou (falei que no Brasil e no ocidente de modo geral, a gente fica pensando muito sobre sexo). Entendo a necessidade do tato, mas lamento muito a proibição não dita no meio da igreja que impede a franqueza, mesmo quando choca ou agride. Lembrei disto quando voltei a minha leitura do Livro de Jó. Eu me impressionei como Jó era franco e transparente. Eu queria usar isto para justificar a liberdade que tomei no culto e dizer que o meu acusador estava tão errado, mesmo bem intencionado, quanto Elifaz… mas talvez isto não seja justo. De repente, eu poderia ter sido mais discreto na maneira que falei!

Mesmo assim, vale a observação como uma primeira lição: sem esmagar os outros, vamos procurar mais franqueza na nossa “espiritualidade”. Não seríamos assim, mais parecidos com Jesus?

Agora uma segunda lição: veja o que Jó falou nos versículos acima. Os amigos davam o seu conselho, um conselho não acertado e um conselho não pedido! Precisamos tomar muito cuidado quando queremos dar a nossa opinião quando ela não é procurada! Corremos o risco de dar um tiro pela culatra. Os amigos do Jó queriam “salvá-lo” mas Jó nunca se sentia perdido. Sua desgraça não era consequência de erros seus, mas de circunstâncias externas (mesmo provocados pelo diabo). Daí, ele dá uma lição para seus amigos: “…mostrem os erros que cometi. Quem fala a verdade convence, mas a acusação de vocês prova nada”.

Quantas vezes a gente dá conselho sem evidências da situação. (Tem gente que até recomenda remédios nesta base: “tome este, é muito bom”!). Eu me lembro da poda que recebi uma vez dum biblista inglês famoso que, depois de ler um trabalho meu para o doutorado, escreveu na margem: “faltam evidências”. Como a gente tem a mania de aconselhar os outros sem o mínimo de conhecimento das circunstâncias que contribuiram para a situação, sem evidências.

Pronto! Três lições: 1) falemos com franquesa e transparência — com boa dose de amor; 2) não demos conselho que não fosse pedido; e 3) pensemos antes de falar(!), isto é, não tiremos conclusões precipitadas e falemos com base em evidências.

Oração

Pai amado, livra-nos do complexo de curandeiro que queira “resolver” tudo facilmente. Abra os nossos ouvidos para ouvir mais, e também o nosso coração para nos compadecer, e a nossa mente para falar, quando pedido, e com base. Em nome de Jesus. Amém.

Semana 9: Jó 5.18-6.15

Elifaz:
Deus fere, mas ele mesmo faz o curativo; ele machuca, mas as suas mãos curam …. (5.19)

Jó:
…. Será que sou forte como a pedra? Será que o meu corpo é de bronze? Não sou capaz de me ajudar a mim mesmo, e não há ninguém que me socorra. Meus amigos me desapontaram “Uma pessoa desesperada merece a compaixão dos seus amigos, mesmo que tenha deixado de temer ao Deus Todo-Poderoso. Mas eu não pude contar com vocês, meus amigos, que me desapontaram como um riacho que seca no verão. (6.12-15)

Reflexão

Leia com cuidado a passagem acima. Veja a fala de Elifaz que termina em Jó 5.27, e leia a fala de Jó que começa no capítulo 6. São “falas” muito diferentes. A fala de Elifaz é a fala de que “tudo vai dar certo”,  muito diferente da fala de Jó. Talvez você ache a minha avaliação injusta porque somos fortemente tentados a acreditar que a descrição de Elifaz do amor e do cuidado de Deus seja certa. Acreditamos nisto porque esta é a perspectiva que ouvimos muito na igreja. Resumidamente, ela é a afirmação de que “tudo vai dar certo para os crentes”. É a conversa do tudo azul, tudo beleza. É a conversa da teologia da prosperidade (será que vou bater novamente nesta tecla?): Deus deseja riquezas e saúde para o povo dele. E quem não experimenta isto, está em pecado. Esta é a conversa de Elifaz. Qual é o problema?

Simplesmente não é bíblico (eventualmente a perspectiva dos amigos de Jó será rejeitada no Livro de Jó), pelo menos não no sentido do povo de Deus escapar da violência, de doença, e de outros tipos de “desgraça”. Pensem bem: o que dizer dos fiéis que sofrem perseguição e perda em países que não toleram a fé cristã? O que dizer dos desastre naturais que, vira e mexe, atingem uma região e outra e arrastam gente, inclusive crente, para a morte sua e/ou dos seus queridos? Diremos, “tenha fé, tudo vai dar certo!”???

Não me entenda mal. Não estou dizendo que a vida do povo de Deus é tão desgraçada como a vida de qualquer um. Ou Que Deus não deseja ultimamente nos “abençoar”. Claro que ele deseja isto. Mas a Bíblia é clara: a vida de ressurreição em Cristo e o triunfo de sermos filhos de Deus tem que trilhar o caminho da cruz! Passamos por sofrimento por razões que nem sempre podemos até saber por quê. A Bíblia descreve Deus como um oleiro que molda a gente como barro quebrado, e também como um metalúrgico que nos trata como ouro e nos queima pra caramba, para nos purificar. Mas até estas metáforas bíblicas não “explicam” toda a dor que o ser humano passa. Nem sempre “tudo vai dar certo” a não ser no sentido de que no Dia Final não haverá mais entre nós a tristeza, a injustiça e a dor. Sim, em última análise, esta é uma afirmação confortante, mas não nos diz nada a cerca do que teremos que passar para chegarmos lá.

A resposta de Jó era mais acertada que o consolo de Elifaz. Não somos mesmo fortes como a pedra ou feitos de bronze (6.12). E uma pessoa desesperada merece a compaixão dos seus amigos (6.14), não o dedo acusador e esta bobeira que “tudo vai dar certo”.

Oração:

Senhor amado, este Livro de Jó nos assusta. Quem gosta de sofrer? Porém, teu filho amado não fugiu do sofrimento por nós, mesmo quando ele próprio se assustou com a dor. Pai, esteja conosco na dor e na alegria, na pobreza e na riqueza. Conceda-nos a porção plena do Espírito Santo, para nos manter fiel a Ti em todas as circunstâncias. E Pai, livra-nos da tentação de dizer aos aflitos ao nosso redor, “tudo vai dar certo”. Dá-nos um coração quebrantado e compassivo. Em nome de Jesus. Amém.