Arquivo de fevereiro 2011

Semana 8: Jó 5.1….17

“Jó, se eu fosse você…. Feliz é aquele a quem Deus corrige!” (NTLH)

Reflexão

As indelicadezas de Elifaz se agravam mais. Na passagem anterior,  ele havia quebrado o silêncio de solidariedade com o sofrimento de Jó, e resolvido dar o seu “palpite”. Começou até bem, pedindo licença para falar (4.2) e elogiando o bom testetmunho de Jó. Mas depois veio a bronca insensível com base no pressuposto encontrado na teologia da recompensa absoluta: prospera quem é bom e sofre quem merece. Tudo isso vimos na última devocional…

Mas veja como Elifaz acaba sendo uma boa lição em “Aconselhamento Contra”. Você já passou por uma dor, uma perda ou um sofrimento bem agudo, só para ter que aguentar dos seus “simpatizantes” relatos de como eles passaram pior? Grande conforto, não (por favor, entenda a ironia)!… Se quiser confortar um amigo, não chame atenção para si mesmo. Não é você que está sofrendo, não agora. É teu amigo. Interesse-se por ele. Procure saber a história dele. Ouça dele o que ele pretende e como ele está lidando com a situação. Não se precipite! Se ele precisar,, pedirá a sua opinão. Se não, morda a língua e escute.

“Jó, se eu fosse você, voltaria para Deus.” Que coisa horrorosa! Elifaz nem pergunta se Jó acha se poderia ter algum pecado na sua vida. Já o pressupõe como sendo a “causa” dos sofrimetos de Jó. Aliás, este negócio de “causas” é sério, não é? Não aguentamos sofrer ou ver alguém sofrer sem identificar a “causa”. Às vezes parecemos mais um bando de agoureiros do que crentes. Além do mais, é simplesmente arrogante esta postura, “se eu fosse você”, como se fôssemos melhores para enfrentar as dores e sofrimentos que um mundo encrencado pelo pecado traz para todos.

Por fim, para cimentar o cúmulo da insensibilidade, Elifaz afirma, “Feliz é aquele a quem Deus corrige”. Ao dizer isto, ele demonstra dois equívocos. Primeiro, Jó pecou e Deus o está corrigindo. Ora, vamos esclarecer uma coisa: Jó pecou? Para responder, faço outra pergunta: existe algum ser humano que não pecou ou que não peca (por favor, não sucumba à tentação de avaliar “graus” de pecado). A resposta é óbvia e em momento algum, Jó nega ser um homem pecador, mesmo sendo “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (1.1). Pessoas íntegras e retas são pessoas que confessam os seus pecados e procuram agradar o coração de Deus no seu comportamento. São perdoadas, não impecáveis. Mas a questão não era essa, se Jó havia pecado ou não. Quem poderá negar ter pecado? A questão é que o seu pecado nada tinha a ver com isto. No seu caso, era vítima inocente dum discurso entre Deus o o Acusador. Isto pode ainda ocorrer hoje, como também há vítimas inocentes de desastres naturais, acidentes horríveis e outras características dum mundo ainda em aflição.

Segundo, conforme Elifaz, Jó precisava ser “feliz” ou “bem-aventurado” (5.17). Confesso que não sei qual é o sal na ferida pior, a “identificação” da causa da dor de Jó no seu pecado ou a exortação de que precisava ser “feliz” com a “correção”. Para mim, a exortação de ser feliz é pior. Novamente, o apelo para alegrar-se é apenas mais uma dimensão da teologia da compensação que parte do pressuposto que somos nós que mudamos a nossa situação. Cura divina é prometida para os que choram (Is 57.18; 61.2). Bem-aventurados são os que choram (Mt 5.4). Nós devemos chorar com aqueles que choram, não exortá-los a ser feliz (Rm 12.15). Deus restaura no meio do choro. A alegria no meio da tristeza apenas disfarça.

Oração

Pai, toda a nossa formação evangélica nos ensina a sermos ousados na fala e assertivos na verdade. Por isso, somos péssimos ouvintes das dores do próximo. Não sabemos distinguir entre o momento da docura e o momento da cobrança. Em nome de Cristo Jesus, ó Pai, nos conceda corações compassivos, lábios freiados e mente de Jesus. Amém.

Semana 7: Jó 4.1-5.7

A aflição não brota da terra;
a desgraça não nasce do chão:
somos nós mesmos que causamos o sofrimento,
tão certo como as faíscas das brasas voam para cima. (Jó 5.6-7 NTLH)

Reflexão

Desculpe te dar este trabalho, mas realmente é preciso ler a passagem toda, todo o capítulo 4 e os primeiros sete versículos do capítulo 5. Aqui, um dos amigos de Jó começa a falar. A gente havia louvado o seu silêncio e solidariedade com Jó nas últimas reflexões. E aqui, Elifaz começa bem, pois antes de levantar qualquer crítica, ele elogia Jó pela força que dá às pessoas desanimadas (4.2-4). Começar elogiando geralmente é uma boa estratégia de consolação. Mas neste caso, durou muito pouco. Logo Elifaz questiona a falta de fé de Jó (4.5-6). Pior, o seu raciocínio é aquele do evangelho da prosperidade e da compensação que é fácil resumir: cada um recebe o que merece (4.7-11).

Pior ainda, — e lamento dizer, mas na observação que se segue eu sinto cheiro da minha própria raça, a “raça” dos pastores — Elifaz não resiste à tentação do discurso da auto-legitimação espiritual e reivindica a inspiração divina de modo nada sutíl (4.12-16). É aquele papo de “Deus me revelou” ou “Deus me deu esta palavra”. Pode me achar muito mundano, mas confesso que frases assim me dão arrepio. E são frases corriqueiras entre a liderança evangélica. É a tentação de ser voz de Deus absoluto ao invés de mero servo dele, que enxerga obscuramente como por um espelho ee cujo “conhecimento” é imperfeito (inclusive a habilidade de escrever devocionais).

E o que é que Elifaz foi “inspirado” para dizer a Jó? Isto: “sofres porque mereces!”(5.6-7, os versículos acima citados). Mas pare para pensar um pouquinho. Elifaz foi coerente com a sua teologia, a teologia da prosperidade e da compensação. Coerente com um teologia errada. Coerente porque esta teologia leva mesmo para a arrogância. E o cûmulo da arrogância é quando confundimos o nosso pensamento com a voz de Deus. “Minha” opinião não é mais minha. É divina. Por isto, favor, bedeça!

Hoje à tarde voltei do hospital. Nada sério, porém doloroso. Duas pedras de rim. Minha esposa ficou comigo durante toda o drama que começou na sexta-feira à noite. Acompanhou-me silenciosamente sem partir para “explicações”. Não precisava. A dor já dá conta de nos acusar sem subsídios.

E nós vivemos ainda dentro dum contexto de muito sofrimento causados por mudanças climáticas e violência sociais. Somos povo de Deus. Como respondemos? Como não responder?

Oração

Pai, somos como os amigos de Jó. Acertamos na solidariedade e fracassamos ao mesmo tempo miserávelmente. Quermos ouvir a tua voz interna, sem pretenção de ocupar o teu lugar. Dê-nos humildade como a de  Jesus. Dê-nos o espírito de misericórdia e justiça, também como teu filho nos demonstrou. Em nome dele oramos. Amém

Semana 6: Jó 3

[1] Finalmente Jó quebrou o silêncio e amaldiçoou a dia do seu nascimento….[6] “que aquela noite fique escura e desapareça do calendário!….[8] que seja amaldiçoada pelos feiticeiros!…[20] por que os infelizes continuam vendo a luz?

Reflexão

Se você consegue ler o capítulo 3 de Jó, devagar, assimilando um pouquinho o seu repúdio, então está de parabens. Que capítulo difícil de ler, pelo menos para aqueles que tem um pouco de coração!

Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades… Quem não gosta de ouvir esta música? Ela lembra da reunião de amigos, familiares, presentes, e um bolo gostoso, não é? Mas Jó não pensava em seu aniversário assim. Não agora. Ele finalmente põe para fora todo o sentimento e ressentimento ruim. Não consegue mais engolir quieto, passivo, e religiosamente correto a sua situação. Veja que invoca até feiticeiros! Dizem os psicólogos que por os sentimentos fora é bom, até terapêutico. E quem sou para discordar de peritos? Sei que o sentimento sair da garanta é bom. Mas, no caso de Jó, tenho as minhas dúvidas. Explico…

A impressão que se tem é que o desabafo é sempre positivo. E acredito que geralmente o é. Mas o caso de Jó é diferente. Leia bem o capítulo, e veja como ele desabafou. Há algo dissonante aqui. Pois, antes, ele nobremente recusava amaldiçoar Deus. Afinal era “crente”, óbvio que não no sentido de colocar a sua fé em Jesus…isto é anacrônico…mas era temente a Deus. Logo, como “crente”não lhe é permitido amaldiçoar o Criador. E em nenhum momento ele o faz, pelo menos não tecnicamente. E aí está o problema. Quando finalmente desabafa no capítulo 3, ele não consegue segurar mais a dor. Não aguenta a tristeza. O homem crente desmorona diante do peso intolerável do sofrimento. E veja bem, amaldiçoa quase tudo que pode imaginar associado à sua existência, menos diretamente o próprio Deus. Afinal, quem estabeleceu o dia em que Jó nasceu? E quem lhe deu a mãe que o gerou? E quem lhe deu a própria vida? Indiretamente ele “amaldiçoa” Deus, mas sem amaldiçoá-lo.

Eu consigo me identificar com esta atitude, mesmo que jamais tenha sentido a profundidade da dor e da perda que ele sentiu. Como crente, como pastor e como teólogo, sei que certas atitudes e certas reclamações não me cabem, mas sou rebelde do mesmo jeito (a minha esposa infelizmente confirma). E quando não aguento mais — isto só acontece com os seres humanos, quem não for, escapa — não vou “xingar” (já pensou se alguma “ovelha” ouvísse?), mas vou dar um jeito de mostrar minha indigação com o próprio Deus.

Sinceramente não sei se há outro jeito. Logo, não estou censurando Jó, afinal quem aguenta o que ele aguentou sem nenhum piu?

Por outro lado, Jó não amaldiçoou Deus. Mas quero reparar outra lição do capítulo 3…muito simples, mas muito profunda…

Foi Jó que quebrou o silêncio, não os seus amigos. Pois o capítulo 2 terminou com a solidariedade dos amigos, quietos ao seu lado. A tentação de falar alguma palavra de consolo ou “explicação” deve ter sido enorme. Mas os amigos resistiram firmes a tentação e permaneceram QUIETOS. Foi Jó quem quebrou o silêncio. E veja só, os amigos também não interromperam a reclamação longa e gritante de Jó. Não deram nenhuma correção teológica quando Jó amaldiçoou o dia que nasceu. Não o repreenderam quando invocou os feitiçeiros para amaldiçoar aquele que virou o dia em noite e escuridão para Jó. Não o cortaram quando Jó desejou a morte. Ouviram quietos…melhor, talvez estivessem até inquietos, mas estavam silenciosos do mesmo jeito.

Não se interrompa o desabafo, mesmo (talvez especialmente) o desabafo teologicamente incorreto. Apenas ouça.

Oração

Pai, eu sei que  falo muitas coisas erradas para o Senhor, mas o Senhor nunca me interrompe, e eu sou menor que uma amoeba numa formiga diante de Ti. Por favor, me dê a tua graça para permanecer quieto diante do desabafo do meu igual. Em nome de Cristo Jesus. Amém