Arquivo de junho 2010

Semana 26: Romanos 8.13-16

13 Porque, se vocês viverem de acordo com a natureza humana, vocês morrerão espiritualmente; mas, se pelo Espírito de Deus vocês matarem as suas ações pecaminosas, vocês viverão espiritualmente. 14 Pois aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. 15 Porque o Espírito que vocês receberam de Deus não torna vocês escravos e não faz com que tenham medo. Pelo contrário, o Espírito torna vocês filhos de Deus; e pelo poder do Espírito dizemos com fervor a Deus: “Pai, meu Pai!” 16 O Espírito de Deus se une com o nosso espírito para afirmar que somos filhos de Deus.. (NTLH)

Reflexão

Adorei! Alguma coisinha na devocional da semana retrasada sobre Romanos 7.7-9 (Semana 23) não me parecia certa. Lembra, quando falamos que somos ou escravos do pecado ou escravos de Deus? Só que as Escrituras eram claras. Diziam exatamente isso e o raciocínio de Paulo não deixava dúvida. É isso mesmo: seres humanos são inevitavelmente escravos de algo, ou do seu Criador ou da rebelião contra o seu Criador. Não há neutralidade e não há meio termo.

Só que eu não lembrava que logo em seguida Paulo iria dizer o que ele disse na passagem acima: “porque o Espírito que vocês receberam de Deus não torna vocês escravos.”Então, qual é, seguidores de Jesus são ou não são escravos de Deus? Bem, se levarmos a sério a linguagem de Paulo nas duas passagens, a resposta só poderia ser “sim” para as duas perguntas. Por um lado, para não sermos escravos do pecado, nos tornamos escravos de Deus, porque submetemo-nos a Deus como Senhor. Por outro lado, ao nos tornamos escravos de Deus, como Paulo explica acima, “o Espírito de Deus se une com o nosso espírito”, e, unidos ao Espírito de Deus, isto transforma o nosso relacionamento em um de filiação, algo bem mais íntimo. O relacionamento de filho para pai ainda é um relacionamento de obediência, uma espécie de “escravidão”, mas não é um relacionamento de mera servidão. Ou seja, não nos submetemos a alguém que não se preocupa conosco e que não tem o nosso melhor interesse em mente. Submetemo-nos àquele que melhor define o conceito de pai: quem nos gera, quem nos nutre, quem acompanhe e direcione o nosso amadurecimento para que realizemos, ao máximo, os dons e talentos que ele nos deu para cumprir o nosso plano de vida como mordomos da criação de Deus.

Portanto, escravos de Deus, sim (capítulo 7), mas mais que isto, filhos e filhas queridos.

Oração

Como é bom, ó Pai, saber que Tu nos amas e que cuidas de nós. Feliz Dia dos Pais, Pai Eterno! Em nome de Jesus. Amém.

Semana 25: Romanos 8.11

Mas se o Espírito que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou Cristo dos mortos também vivificará seus corpos prestes a morrer por meio da habitação do Espírito em vocês. (tradução minha)

Reflexão

Quando se vive numa outra cultura diferente de onde se foi criado, se aprende mais do que uma outra língua. Começa-se a reparar jeitos diferentes de viver e se comportar. O humor é diferente. Alguns valores são diferentes, mesmo que, às vezes, ligeiramente. Uma das centenas de coisinhas diferentes que eventualmente reparei quando cheguei ao Brasil há 32 anos foi o fenônemo da repetição. Numa conversa, numa palestra ou até mesmo na escrita, achava que as pessoas se repetiam mais do que eu estava acostumado. Com o tempo, percebi que isto simplesmente era uma maneira de dar ênfase ou importância. Seja como for, Paulo também se repete, como fazemos no Brasil (!) no versículo acima, especialmente na frase que segue a vírgula. Porque? Talvez porque as implicações da sua afirmação são realmente incríveis, mas ao mesmo tempo, fáceis de não perceber.

Paulo afirma que o mesmo Espírito que ressuscitou Cristou efetivamente porá vida novamente não no nosso interior, no nosso espírito, mas nos nossos corpos, que doutra sorte, estão destinados a morrer. O que ele está dizendo? Que aqueles que morrem em Cristo um dia ressuscitarão, como em 1 Coríntios 15? Certamente é isso que vem à mente, não é? Mas uma leitura até superficial do contexto, o que precede e o que segue este versículo, revelará que Paulo está falando não duma condição futura e distante, mas da nossa condição atual. Podemos ter vitória sobre o pecado hoje! E isto porque o Espírito de Deus faz uma obra não no nosso espírito mas no nosso corpo.

Veja bem, o pressuposto bíblico é que os nossos corpos fazem parte da criação toda. Não existe uma criação dos humanos separados da criação toda. A criação do ser humano foi o clímax da criação toda e não um outro universo.

O que está acontecendo aqui? Novamente, Paulo está preparando o caminho para aquilo que falará um pouquinho adiante a respeito da redenção da criação. E, acredito eu, aquilo que ele está fazendo em Cristo Jesus pelo seu Espírito na transformação dos nossos corpos, ele está fazendo também e fará na criação toda. E para isto a humanidade redimida tem um papel chave.

Considere: se Deus pode  transformar o meu corpo e portanto os meus desejos pelo seu Espírito, isto será uma chave para o resgate da criação.

Oração

Transforme-nos mesmo pelo Teu Espírito, ó Pai, na imagem e semelhança de Cristo. Amém.

Semana 24: Romanos 7.25-8.2

Que sujeito miserável eu sou! Quem me libertará desta morte do corpo? É Deus que me presenteia com uma saída e esta saída é Jesus Cristo, o nosso Senhor. Porque antes, mesmo sabendo o que é correto na minha cabeça, acabava fazendo o que é errado compulsivamente. Mas agora, existe um escape da compulsão beco sem saída, que é a vida dos seguidores de Jesus Cristo vivida pelo Espírito com tranquilidade. (tradução minha)

Reflexão

Romanos 7 termina enfatizando o desespero do ser humano, na figura de Adão, criado à imagem e à semelhança de Deus e, portanto, querendo servir a Deus, mas sem poder fazê-lo devido à ação do pecado no seu íntimo. E o capítulo 8 começa com a solução do dilema. Em Cristo Jesus somos libertos desta prisão ao pecado e isto é efetuado pela ação do Espírito dentro de nós. O assunto que Paulo está tratando é bem conhecido: a natureza humana, que nada mais é que a condição pecaminosa de todas as pessoas. Mas é especialmente interessante para nós que Paulo não termina por aí. Porque a natureza “humana” faz parte da natureza da “natureza”, ou para nós que preferimos chamar a natureza de “criação”, a natureza da criação toda. Mesmo que a sequência do dilema seja o contrário: foi a queda pecaminosa do ser humano que provocou (e ainda provoca) a encrenca da criação.

Agora, vejamos a solução: Jesus Cristo. Efetuado como? Pelo Espírito. Isto nas nossas vidas humanas e um pouquinho mais para frente a gente verá que também é a solução da criação caída.  Ou seja, a principal solução e a solução definitiva da criação, ou usando a linguagem mais contemporânea: do ecosistema, provém daqueles que vivem pelo Espírito de Deus, transformados e justiça-ficados em Jesus Cristo.

Mas como? Como? Como? Esta pergunta exige, antes duma resposta, bastante meditação e contemplação. Faremos isto nesta semana?

Oração

Pai amado, quanta responsabilidade, quão grande tarefa que nos deste, quão grande o seu plano, alcançando o mundo de gente e alcançando a mundo todo. Transforme-nos mesmo, Senhor, para o resgate do mundo inteiro, para a sua própria glória. Amém.

Semana 23: Romanos 7.7…9

O que significa tudo isto? A Lei é pecado? Certamente não! Porque se não fosse pela Lei, “eu” não teria conhecido o pecado. “Eu” não teria desejos pecaminosos se a Lei não tivesse dito, “Não tenha desejos pecaminosos”….Pois houve um dia em que “eu” vivia sem conhecer a Lei. Mas quando o mandamento veio, o pecado surgiu, e “eu” morri e o mandamento que deveria ser vida para mim pronunciou a minha sentença de morte. (tradução minha)

Reflexão

Até entre os melhores comentaristas da Bíblia, este capítulo de Romanos causa muita confusão…mas desnecessariamente. Pois hoje sabemos que o uso dum “eu” fictício fazia parte da técnica que os gregos antigos usavam para fazer palestras, a técnica da retórica, que possuía até manual.[1] Por isso, coloquei “eu” entre aspas. Porque Paulo não está falando de si mesmo, mas de outro, como se fosse ele. E quem era este “eu”? Era Adão.[2] Quem mais na história bíblica poderia dizer que vivia antes da Lei (dada no Monte Sinai) mas que conhecia o mandamento proibindo a cobiça (no caso, de comer do fruto da árvore do conhecimento) e que foi este mandamento que trouxe a sua morte?

Sendo Adão e não Paulo, isto muda radicamente a interpretação dos versículos seguintes. Pois não é Paulo, crente em Jesus, que faz o que não quer e o que quer não consegue fazer. É Adão na codição do ser humano caído. Ou seja, Paulo não está escrevendo sobre um conflito interno do crente e sim sobre a vida dos descrente! Eu sei, eu sei, “tudo isto é uma questão de opinião e interpretação” dizem os mais atentos Só que até o século IV, quando a liderança da igreja era predominantemente da cultura grega, todos concordavam com esta interpretação (muitos biblistas hoje não sabem disto)! Somente quando houve uma liderança latina (começando com Agostinho) a interpretação mudou.

Por enquanto isto não parece nada devocional, não é, com nota de rodapé e tudo!? Mas se for verdade o que eu digo significa que há mudança substancial para aqueles que creêm em Jesus e que a sua justiça-ficação também é substancial (Rm 8.1-3)…e que a transformação da criação por meio dos crentes, assunto do próximo capítulo 8, também é possível substancialmente!

Pense nisto. Sério.

Oração

Pai, graças te dou que nos resgatou, e mesmo sendo eu uma obra ainda em construção, Tu já tens realizado maravilhas em nós. Em nome de Cristo Jesus. Amém.


[1] Paulo foi formado nesta escola durante a sua adolescência em Tarso.

[2] Abraão era o referencial do cenário de discussão no capítulo 4, como Adão o era não só no capítulo 5, como também, sugiro, nos capítulos 6 e 7.

Semana 22: Romanos 7.6

Mas agora a lei não tem mas nenhum poder sobre nós. Seu poder de nos prender morreu para que sejamos servos na novidade do Espírito e não no Escrito ultrapassado. (tradução minha)

Reflexão

A nossa fé é uma fé do “Escrito”, pelo menos no sentido de vivermos uma fé revelada, em que esta revelação foi transcrita em palavras sagradas, que reconhecemos como Sagradas Escrituras. Não é uma fé meramente do “eu acho” ou “eu sinto”. Deus falou por meio dos profetas e Sua Palavra é segura, confiável, mais do que qualquer outra fonte da “verdade”. Por isso, a tradução acima pode parecer estranha. E até mesmo na época de Paulo e para seus leitores deu bastante confusão e controvérsia. E sinceramente, não adianta tentar “resolver” o conflito dizendo que o “Escrito” certamente não se referia às Escrituras. Não resolve simplesmente porque se referia, sim, às Escrituras. Esta não é a questão. A questão é o que Paulo queria dizer. Que as Escrituras não eram sagradas e que são inferiores a voz de Deus no nosso interior? Também não. Afinal, cita incansavelmente as Escrituras em Romanos, mais do que em todas as suas outras cartas juntas (!) para apresentar o seu ponto de vista como a postura “bíblica”. E aí é que está a questão. Pois, os seus opositores também argumentavam e contra argumentavam a partir da sua compreensão das Escrituras. Ou seja, é possível, até fácil, ler as Escrituras com os “olhos errados”,  os olhos do “ao pé da letra” e não os olhos do Espírito.

Os olhos do “ao pé da letra” são rígidos, literais, mecânicos, explicativos e frios. São olhos nossos. Não necessitam de oração e nem de devoção. Os olhos do Espírito são compassivos, metafóricos, maravilhados e profundamente tementes a Deus. Não são olhos nossos. Pertencem a Outro, o Divino, algo inexplicável. Temos que ir além de nós para ver por meio deles. Ver o quê? Certamente e acima de tudo, o ensino das Escrituras e por meio delas, a verdade que nos cerca num mundo criado por Deus. Compreende?

Oração

Desejamos exergar para entender, para assumir, para ser Teu instrumento. Encha-nos do Teu Espírito. Em nome de Jesus. Amém.