O Documentário

O programa é centralizado em três documentários que abordam as três frentes nas quais o debate sobre religião e ciência é mais intenso: a cosmologia, a biologia evolucionária e as neurociências.

No primeiro deles é apresentada uma exposição muito didática do conceito de “ajuste-fino cósmico” (fine-tunning), ou seja, a ideia de que o universo apresenta uma série de características singulares e surpreendentes que indicam a existência de um propósito e uma mente divina. O fenômeno do ajuste-fino cosmológico é a principal evidência para o que foi denominado “princípio cosmológico antrópico” — o universo foi projetado para que enfim o ser humano viesse à existência. O documentário discute ainda o status da noção de “multiverso”, uma das saídas procuradas por cosmologistas não-cristãos para escapar das implicações do princípio antrópico.

O segundo documentário trata do problema da evolução biológica. A crítica ao criacionismo da terra jovem e ao Design Inteligente é respeitosa, mas incisiva. O roteiro apresenta uma defesa da compatibilidade essencial entre a ideia cristã de criação e a teoria da evolução. E o grande argumento em defesa da posição evolucionista teísta é a descoberta de Simon Conway Morris, paleobiólogo de Cambridge, de que o fenômeno da convergência evolucionária — espécies separadas desenvolvendo características estruturalmente idênticas ou quase — é muito mais extenso e capilar do que se imaginava.

Morris e outros relacionam esse fato ao argumento cosmológico antrópico, sugerindo que a teoria da evolução, corretamente interpretada, não seria evidência de que a vida surge “por acaso”. Antes, o mecanismo evolucionário seria na verdade um processo muitíssimo mais complexo e ainda insuficientemente compreendido de produzir complexidade. Ou seja: haveria evidência empírica de que a evolução foi dirigida por Deus. O segundo filme trata ainda do problema do mal, do aquecimento global e da vocação cristã de cuidar do planeta terra.

O terceiro documentário foca a questão da personalidade humana, no contexto das neurociências: seria possível, como alguns neurocientistas vêm alegando, que a personalidade, a consciência — tudo aquilo que costumávamos chamar de “alma” — seja meramente uma projeção de nosso cérebro físico, um epifenômeno? Vários cientistas cristãos são convocados para explicar por que essa alegação é gratuita: na verdade, cada movimento da personalidade humana tem uma contraparte neurológica, mas isso não prova que a personalidade seja uma ilusão, que o real seja apenas a química cerebral. Somos seres profundamente corporais, mas a mente é uma realidade emergente que transcende ao cérebro, e que é capaz de provocar mudanças reais no mundo físico. E porque nossas personalidades são reais, as questões de valores éticos também são reais, irredutíveis e insolúveis do ponto de vista da ciência do cérebro.
Além dos três filmes principais, os diretores produziram três sequências “bônus” com entrevistas com cientistas, teólogos e filósofos.

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