Amigos do baú do coração

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Amigo não precisa de dia porque todo dia ele é – suficiente afeto.

Das coisas da vida, dentre as melhores, estão os amigos que ganhei. Algumas amizades construí, mas, a maioria foram presentes, daqueles que fazem a vida valer até nos dias maus. No bolo de amigos que ganhei tem um que quero hoje celebrar.

Amigos há daqueles que são interessantes, os que são engraçados, os que são artistas (os que brincam com ideias e te levam junto), os que são belos, os que são leais. Ele é um ser cativante (e muito mais).

Esse amigo é um contador de histórias que me emociona a cada encontro. Ele tem poesia na língua, delicadeza no coração e uma mente, realmente, brilhante (além da careca).

Ele gosta de gente, nem sempre tão perto, mas ele se aproxima muito, como poucos.

Ele tem contos cotidianos porque vê o que pela maioria passa desapercebido. Ele tem memórias que desabrocham em causos risonhos, com pitadas folclóricas, que te levam para dentro. Ele tem pensamentos surpreendentes que arrancam-nos risos e lágrimas, muitas vezes simultaneamente.

Ele me ajuda a pensar melhor, a amar melhor, a aproveitar melhor a vida, inquietando-me e fazendo observações pouco prováveis. Sim, ele chega a ser irritante…

É também acelerado. Acompanha de tudo, sabe bastante e brinca com coisas sérias de tal forma que nos leva a perceber a seriedade da coisa.

Quem aguentaria um sujeito assim? Quem seria esse alguém à altura? Uma esposa singular. Que dialoga, que acolhe, que devolve, que se cala, que observa e critica, que chora e ri, que é leve sem perder a densidade da vida. Mais do que simpatia, entende de empatia. Ela que colore dias escuros do companheiro, e quando não, apenas permanece na escuridão deles, sim, ela veio para ficar.

Exercita o corpo, a mente, a alma, tudo discretamente, com sabedoria. Pessoa rara, certa para andar com ele.

Juntos tiveram duas meninas, hoje, mulheres. Imagine o que são duas filhas de um casal como esse? Sim, espetaculares em suas singularidades.

Ah, e em tempo, tem a Farofa, não na mesa, na casa. Uma cachorra sapeca que faz toda família multiplicar histórias e alegrias.

Idealização? Não ignoro limitações, fraquezas, mas isso é parte da vida de todos. Mas, reconhecer e celebrar as belezas das relações é algo necessário e delicioso.

C. S. Lewis dizia que “vivemos num mundo sedento de silêncio, privacidade e, portanto, sedento de meditação e amizade verdadeira”. E isso não é difícil de verificar, ainda que nem todos consigam assim nomear e reconhecer.

Quero meditar mais e melhor, mas em meio a essas que consigo, vejo melhor meus amigos, e desejo agradecer.

Hoje minha homenagem carregada de gratidão vai para Valdir e Diva que entraram há anos em minha história e me abençoam continuamente.

O monge cisterciano, Aelred de Rievaulx, que viveu no século XII d.C., parafraseou I Jo 4.16, dessa forma: “Deus é amizade, e todo aquele que permanece na amizade permanece em Deus”. Quero permanecer.

Teologia do Quartinho

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O que nunca foi simples parece estar ainda mais complicado, consideremos as relações entre verdade e mentira, ficção e realidade, essência e aparência.

O que caracteriza nossa vida no século XXI? Vertiginosos processos de espetacularização do nosso mundo, onde apenas o que causa sensação é percebido e valorizado, ou seja, experiência e intensidade são palavras chaves em nosso tempo.

Vivemos dias onde tudo o que não causa impacto em nossas sensações tende a desaparecer rapidamente no fluxo de informações, apesar, claro, de que aquilo que nos causa sensações fortes também desaparecerá em breve período, mas ao menos deixa marcas. O que quero destacar é o quanto vamos nos tornando viciados em injeções de sensações que agudizam nosso sistema nervoso, favorecendo assim, um jeito de ser que depende de sequências de instantes que nos joguem na vida como montanha russa permanente.

Dentre as sensações mais buscadas está o de ser visto, admirado, seguido (criar tendência e espalhá-las com agilidade porque logo se esvai, tudo é muito efêmero – sensação é vapor).

No regime ditatorial da espetacularização da vida crescem novas construções identitárias, onde valho quanto causo (provoco sensações nos que me cercam), sou quando sou percebida (necessidade de destaque na vitrine da vida).

Há sempre muito mais nos obscuros meandros de nossa alma, e quão pouco ainda sabemos da bagagem enigmática que carregamos. Mas, algumas coisas carregamos há muito, constitui-nos como humanidade caída.

A questão de exibirmo-nos, de sermos validados pelo outro, de desejarmos ser não apenas aprovados, mas admirados é grande desde sempre. E isso aparece inclusive no âmbito da espiritualidade.

Ao mesmo tempo que queremos novidades (novas e mais intensas sensações), trazemos desejos antigos, que nos confundem e nos empurram a práticas já conhecidas.

Aprecio sempre como as palavras de Jesus são atuais. Como profundo conhecedor de nossa alma carente, de nossos desvios e labirintos interiores, ele adianta e revela comportamentos mascarados, mas que achamos que nunca ninguém descobriria o que estava por detrás – achamo-nos convincentes.

Assim diz Jesus: “Quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros” (Mt 6.5). Jesus, firmemente, denuncia a hipocrisia na espiritualidade. Quem de nós escapa?

A oração é um convite desafiador para o desvendamento de própria alma, sempre surpreendente. Contudo, até a oração pode ser instrumento fundamental em meu jogo de cena na espetacularização da espiritualidade, uma maneira de esmolarmos atenção e reconhecimento, provocando sensações diversas em mim e no outro.

Jesus instrui seus discípulos dizendo: “mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está sem secreto” (Mt 6.6).

Nós vivemos num tempo onde a tentação é abrir a porta do quarto e nos mostrarmo-nos – exibicionismo de intimidade perdida. É muito contracultura o que Jesus nos pede. É estranho a nossa alma, afinal, vida privada é algo que está em desuso, intimidade é algo desconhecido e deturpado (novas construções vem por aí?), e discrição é cada vez mais difícil de se viver.

Fechar a porta é um trabalho árduo e que não nos chama a atenção por ir na contramão do que tem sido mais valorizado, nada glamoroso, então, quem vai atender a tal pedido e aprender essa nova forma de ser?

Buscamos compensar nossas inseguranças quanto ao nosso valor e identidade com frenesis espetaculares, fantasias grandiosas que denunciam a deficiência de valor e significado.

Não ser hipócrita, não enganar o outro e nem a si mesmo é deslocar-se do palco para a coxia, para os bastidores. Encarar a vida a partir de quem se é, não de quem se desejaria ser. É fechar as cortinas, olhar no espelho, arrancar máscaras e maquiagens e ver quem de fato somos. Não precisamos ter medo, pois Jesus nos lembra, temos um Pai que nos vê em secreto, ou seja, para Deus não será novidade, talvez, sejamos novidade apenas para nós mesmos (e, quem sabe, para alguns diante de quem ainda sustentamos máscaras e vivemos papéis decorados, conforme manda o script).

O Pai que nos vê como somos, conhece nossas reais necessidades (Mt 6.8),e cuidará de nós. Crer nisso pode ser o início de uma caminhada nova e profunda, num caminho estreito, é fato, onde poucos seguem. Mas abandonar tendências, fugir de tais tentações, não viver por meras sensações, exigem a coragem de fechar a porta do quarto e ser tratado num genuíno espaço de oração. Quem quer assim ser trabalhado?

Fé em ação

1

Como é triste sentir-se perseguido, perceber conspirações contra si, reconhecer inimigos tão perto, conviver com agressores, receber ataques, viver ameaçado.

Davi ao se ver nessa situação clama: “Levanta-te para ajudar-me; olha para a situação em que me encontro!” (Sl 59.4b). Ele suplica confiante em Deus: “Ó tu, minha força, por ti vou aguardar; tu, ó Deus, és o meu alto refúgio. O meu Deus fiel virá ao meu encontro.” (Sl 59. 9-10).

É bonito ler na Bíblia como alguém que se vê correndo tão séria e explicitamente risco de vida, rodeado de gente que rosna como cães bravos, é capaz de assegurar-se tão fortemente em Deus, convicto de que o amor de Deus é infalível e que aparece na hora certa o socorro.

É claro que ele deseja que seus inimigos desapareçam, mas, não antes de serem apanhados em seu orgulho, serem feridos pela própria língua malignas deles, serem derrubados pela justiça.

O olhar de Davi enxerga adversários insaciáveis, mas vê também e maior a fidelidade de Deus e sua força. E sabe que cantará e celebrará as façanhas de Deus – sempre presente em tempos ruins, estranhos e esgotantes.

Ao mesmo tempo que Davi vê o ódio de seus inimigos, vê também o amor de Deus, onde ele pode se abrigar, ficar seguro, e descansar. Ele diz: “Tu és o meu alto refúgio, abrigo seguro nos tempos difíceis. Ó minha força, canto louvores a ti; tu és, ó Deus, o meu alto refúgio, o Deus que me ama” (Sl 59.16-17).

A vida é reorientada e reconfortada a partir da fé em Deus. A esperança é renovada com essa fé. E a certeza e total segurança num Deus pessoal que o ama faz ele prosseguir e enfrentar os dias.

Thomas Merton afirma que “não somos perfeitamente livres enquanto não vivemos de pura esperança. Sem esperança, a nossa fé só nos dá distantes relações com Deus. Sem amor e esperança, a fé só O conhece como a um estranho. Pois a esperança é que nos joga nos braços da Sua misericórdia e da Sua providência. Se esperamos em Deus, não nos limitaremos a saber que Ele é bom, mas experimentaremos em nossa vida a Sua misericórdia”.

Esperar em Deus, contudo, não é sinônimo de passividade. Esse salmo que Davi escreve se dá no contexto em que Saul envia homens para vigiarem a casa de Davi a fim de matá-lo, pois, naquele mesmo dia, antes de anoitecer, ele já havia escapado por um triz de uma lança contra ele. Já em casa, é Mical, sua esposa, que o alerta: “Se você não fugir esta noite para salvar sua vida, amanhã estará morto” (I Sm 19.11). Ela, então, fez Davi descer por uma janela a fim de que fugisse. E enquanto ele fugia ela montou um esquema criativo para despistar os guardas e ganhar tempo a favor de Davi.

Acho interessante como a inteligência e perspicácia de Mical foi importante nesse episódio e como Davi reconhece isso tudo como ação do amor de Deus, que dele cuida em todo tempo. Sim, Deus cuida e o faz, muitas vezes, através de pessoas. E aproveita, utiliza-se da inteligência, sensibilidade e agudeza de espírito de pessoas que nos cercam.

Voltando a Merton, ele diz: “a esperança esvazia-nos as mãos para que possamos trabalhar com elas. (…) Se Deus é bom e se a minha inteligência é uma dádiva Sua, o meu dever é mostrar, pela inteligência, a minha confiança na Sua bondade. Devo deixar a fé elevar, curar e transformar a luz da minha mente”.

O amor de Deus não negligencia as dádivas, capacidades, características que ele mesmo nos deu. Podemos desenvolver-nos com esperança, fé e amor em Deus, participativos dos livramentos que Ele promove.

Saibamos ouvir, agir, repartir sobre o que Deus faz, reconhecendo-o em todos os nossos caminhos.

Coisas que eu nem sei

3

É impressionante nossa capacidade de achar que já entendemos o que tinha para ser entendido, e também, ignorar algumas coisas que estão tão perto de nós.

Num quarto de hospital a conversa se deu entre duas mulheres:

– Na igreja a gente fez a campanha da dracma perdida.

– O que é dracma?

– É tudo aquilo que a gente esquece de fazer.

O relato da parábola de Jesus que encontramos no registro do Evangelho de Lucas 15.8-10 é tão precioso, contando de algo valioso (especialmente para quem tem pouco) que foi perdido, mas também foi buscado, e ao ser achado a festa se dá. A dracma era uma moeda de prata equivalente a diária de um trabalhador braçal. E ela não precisa ser esquecida, tão pouco ser sinônimo de descuido. Lembrei-me da música de Danni Carlos (Coisas que eu sei) que diz: “Meu conhecimento é minha distração”.

Por esses dias a mídia noticiou o tesouro que um casal da Califórnia, já de meia-idade, passeando com o cachorro em sua propriedade rural, nas colinas de Gold Country, achou – US$ 10 milhões (R$23,5 milhões) em moedas de ouro raras. Eles já moravam há anos nesse lugar e não faziam ideia do tesouro bem debaixo de seus pés, ali o tempo todo. Que surpresa quando resolveram examinar o que parecia uma lata enferrujada que começava a sair da terra, em um caminho já conhecido de anos dentro da propriedade deles. Quantas vezes não caminharam por aquele trecho ignorando o tesouro?!

Jacó também foi surpreendido, ficou maravilhado e até teve medo diante da grandeza achada. No caminho entre Berseba e Harã parou para pernoitar, afinal, já estava escuro e seria difícil prosseguir. Pegou uma pedra, fez de travesseiro e pronto, foi o suficiente para pegar no sono e sonhar. O sonho era estranhamente bom, uma escada apoiada na terra, tinha o topo no céu, e nela anjos subiam e desciam. Ao lado estava Deus e este lhe dizia coisas maravilhosas, renovando a aliança que havia feito ao seu avô Abraão. Nesse sonho Jacó ouvia do Senhor: “Estou com você e cuidarei de você, onde quer que vá. Não o deixarei”. E então, quando Jacó acorda, simplesmente reconhece: “Sem dúvida, o Senhor está neste lugar, mas eu não sabia!” (Gn 28.16).

A vida é assim, ignorâncias e mal entendidos, que nos atrasam e confundem. Limitações e teimosias, medos e sustos, distrações e faltas nos fazem lembrar quem somos. Mas, a vida também é surpreendente, trazendo-nos alegrias, possibilitando achados e descobertas que são tesouros. Buscar, passear, viajar, rir, dormir, encontrar, são movimentos da vida, corriqueiros, porém, podem nos trazer maravilhas inesperadas, podem deixar nossa caminhada melhor, mais tranquila.

Brennan Manning se examinava: “Será que passei a levar a vida muito a sério? Será que na confusão do dia a dia permiti que se dissipasse o meu senso pueril de maravilhosamento? Será que parei de atentar para pôr-do-sol e o arco-íris? Será que me perdi tanto em ensinar, escrever, viajar que já não ouço o som da chuva no telhado? Será que levar a vida a sério passou a significar levar uma vida de tristeza? Será que viver é apenas outra palavra para resistir?”.

Leveza e reflexão, alegria, atenção e nova compreensão podem deixar a vida mais saborosa. E o que pode haver de mais maravilhoso do que encontrar Deus?

Jesus nos convida para irmos até ele, sem enganos, o fardo existe, mas trata-se de algo leve (Mt 11.28-29). O que é certo é que encontrarão descanso. Muitos se perguntam onde está a leveza porque vivem com pesos quase insuportáveis e as forças se esgotam, contudo, o convite é válido ainda hoje. Com Jesus nos surpreendemos e nos maravilhamos porque nele há uma vida que ignorávamos, há novidade no viver que não fazíamos ideia ser real. Há movimentos que podem nos levar a ele, depende de nós, pois, sua misericórdia, compaixão e graça já temos.

Nossa história, nossos tempos, nossos movimentos

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Quem não conhece as palavras de Jesus: “No mundo tereis aflições” (Jo 16.33)? Quem não se angustia a ouvir e ler os jornais? Quem no momento não conhece alguém, mais de perto, que esteja passando por duras lutas?

Como isso nos afeta? Que efeitos traz para os de perto e os de longe? Qual o nível de tolerância de cada um? Quem persevera? Até quando, onde?

Lembro-me de Jules Michelet ao dizer: “O difícil não é subir; é, depois de ter subido, continuar sendo o mesmo”.

Tempos difíceis é da vida. Faz parte do que acontece na terra dos viventes. Mas o que fica, após um tempo onde as dificuldades parecem fortes demais, e ainda se multiplicam?

Uma das reações comuns é que começamos a lembrar e valorizar os tempos mais tranquilos, dias ensolarados, festivos, onde o riso vinha fácil, onde a saúde nem era lembrada por estar boa demais, onde a mesa era farta e as águas serenas. Mas, nem sempre.

É frequente nessa ocasião lembrarmo-nos do bom que havíamos esquecido, quase apagado. Porém, isso salienta negligências e ignorâncias do cotidiano. A dor tem o potencial de nos chamar atenção para coisas, pessoas, situações que antes não víamos, não reconhecíamos, é como se alimentássemo-nos de distrações.

Nossa alteridade é presente, apesar de nem sempre nomeada. Os altos e baixos fazem parte de nós, claro, em alguns mais, e em outros, menos. Mas, geralmente é preciso a dor chegar perto a fim de que abramos os olhos para algumas coisas.

Não precisamos aprender só na dor, não precisamos viver de esquecimentos, não necessitamos celebrar apenas em situações já esperadas. Mas, o acúmulo de tarefas, os desejos confusos, metas e compromissos nos levam, por vezes, a desligarmos a capacidade de observar e atentar a detalhes, e até mesmo para situações, gestos e falas que não era para serem atropeladas.

A reverência à vida vai sendo banalizada, nos entregamos as exterioridades, às imagens tão cultivadas, vitrines existenciais, corremos atrás do vento confundindo-o com miragens, obstinados por ilusões com cara de paraísos. O que se passa dentro de nós?

O Salmo 78 conta um pouco da história do povo de Israel, conta de altos e baixos, do que ora era lembrado, ora esquecido, de movimentos que são humanos, e que revelam realidades e perigos para nossa alma.

Saliento um verso (11) que diz: “Esqueceram o que Deus tinha feito, as maravilhas que lhes havia mostrado”. O contexto é que esqueceram do compromisso assumido com Deus, se acovardaram, se recusaram a caminhar pela Palavra de Deus e então, a consequência, foi perderem no baú de recordações o quanto Deus já tinha feito por eles e realizado neles.

A gratidão, não raro, vai minguando. Deixa-se, assim, de acessar memórias que celebravam a bondade de Deus, recordar as revelações de seus feitos maravilhosos. Afastamo-nos, com coração desleal, com espírito infiel, com rebeldias enraizadas. Sim, o texto relata que isso aconteceu, que é humanamente possível e provável quando não cultivamos espaços em que o silêncio e o descanso favorecem a atenção, onde estamos alertas, vendo com clareza onde depositamos nossa confiança, exercitamos a gratidão e o reconhecimento daquilo que Deus está fazendo.

Sem esse tempo sagrado, quer dias tranquilos, quer dias difíceis, nos distraímos e obedecemos ao império particular de desejos selvagens, ou, o desespero aumenta e a murmuração encontra-se a um passo da amargura.

Nossa trajetória e as histórias acumuladas nela podem nos ensinar, nos lembrar, nos tratar em questões fundamentais. A dor e a alegria nos habitam, faltas e apetite pela plenitude também, mas o reconhecimento e a memória da bondade divina podem ser um espaço de preservação do sabor da vida, do exercício da fé e da esperança, onde o amor é cultivado.

O Rabi Nachman de Breslav dizia: “Todo mundo diz que as histórias são um remédio para o sono. Eu, porém, digo que elas têm o poder de despertar as pessoas de sua sonolência”. Visitemos, pois, nossas histórias, acordemos para a gratidão.

Viagem das férias

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Janeiro é um mês de férias, ao menos, para a maioria. No calendário escolar o ano letivo ainda não se iniciou. Portanto, é tempo de aproveitar.

Como, em nossos dias, aproveitamos bem o tempo? Que significado isso traz? O que se entende por férias? Inquietos e supostamente pensantes, não queremos mais perguntas, queremos é sossego. Pois bem, e o que faz sossegar nossa alma? Ops, escapou…

Essas férias de janeiro, em geral, as famílias, amigos pensam em viajar. Viajar pode ser uma grande aventura, pode ser divertido, pode ser tanta coisa. Parece que em nosso tempo de exibicionismos sem fim, o que vale é você mostrar para onde foi, postar fotos lindas, onde se tenta convencer o outro que você realmente está aproveitando a vida. Ali a intensidade lhe pede licença, os sorrisos ainda são tímidos perto de tudo o que está sentindo e desfrutando, e se você imprimir a boa imagem de um sujeito relaxado e de bem com a vida, se dá por satisfeito por uns instantes.

Estranho, mas aumenta a sensação de que as férias tem se tornado uma grande competição onde os que se sentem atrás, perdendo, forçam ou inventam histórias e criam montagens para também poder esnobar como vitoriosos.

Frei Betto assim coloca: “Por que a ambição de uma viagem ao exterior não se reflete também no desejo de viajar para dentro de si mesmo? Mundo desconhecido, esse que trazemos no espírito. Recolher-se ao silêncio interior é sempre um excelente ponto de partida. Para quem nunca fez essa viagem, a partida assusta, porque não nos é dado o roteiro, e a passagem exterior tenta-nos a abandonar o trem. Se controlarmos ‘a louca da casa’, a imaginação, logo o silêncio interior se faz voz. Então, somos apresentados ao nosso verdadeiro eu”. Ou, em outras palavras mais sucintas, Pascal já dizia: “A causa única da infelicidade do homem está no fato de ele não saber ficar tranquilo em seu quarto”.

Não sou contra viagens, ao contrário, tento apreciá-las melhor cada vez que embarco numa, por mais simples que possa ser. Viajar nos enriquece, ao menos, potencialmente, em termos de cultura. E você não precisa sair do país para isso, aliás, nem mesmo de seu estado, e, às vezes, nem se quer da cidade onde reside.

Viagens, sem dúvida, podem ser um excelente investimento, podem nos acrescentar conhecimentos, belezas, novas referências, e muito mais. Viagens podem ser curtas, singelas, mas valiosas. Elas podem nos marcar positivamente, nos unir, nos ajudar a sair da rotina e ter um descanso diferenciado. Entretanto, por que desprezar, ignorar, ou mesmo, fugir da viagem para dentro? Por que evitar tanto a quietude, o silêncio? É sábio esquivar-se de autoconhecimento, poupar a ampliação da consciência de quem se é? Fernando Pessoa, num de seus versos, faz uma triste constatação: “não sou para mim mais que um vizinho”.

Nem todos menosprezam, evitam ou fogem desesperadamente dos encontros mais profundos consigo mesmo, nem necessariamente, ignoram viagens para dentro de si. Alguns são estimulados através da meditação, de terapias, ou de leituras preciosas. São caminhos diferentes, recursos variados, mas, para mim, nada nos conduz melhor e mais profundamente a isso do que o evangelho de Jesus Cristo.

Discípulos peregrinos no processo aprendem a silenciar-se mais, ouvir melhor. Dedicam-se mais atenciosamente ao que acontece nele e ao seu redor. Interações com a sociedade e com o Reino de Deus. Aprofundam compreensões, sobretudo, vivências. Experimentam uma vida que passa a ser abundante, não porque lhe sobram coisas, tempo, não porque não haja faltas, mas, porque a referência é outra, vem de dentro, de quem lhe habita.

Se a leitura é um recurso importante nas viagens para dentro, a leitura da Bíblia é primordial. A leitura pode ser um instrumento bastante útil na transformação e organização da vida. A leitura bíblica pode ser regeneradora por se tratar de uma palavra-semente viva. A leitura pode ir muito além do que um lazer passivo, trazer sentidos, valores, compreensões que contribuem para novas leituras da realidade, com implicações sociais significativas. A leitura bíblica pode converter nosso coração a Deus, e consequentemente ao próximo, e isso, concomitante ao conhecimento do nosso próprio coração, em sua fragilidade e vulnerabilidades, tesouros e marcas.

Aproveitar a vida, o tempo, as viagens pode ter tudo a ver com a disposição para leitura, ainda mais, com o compromisso saboroso da leitura das Escrituras Sagradas.

Coragem e boa viagem!

Lotação e estrebaria no século XXI

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A cidade estava lotada devido o primeiro recenseamento do período em que Quirino era governador da Síria. Sim, em Belém, José enquanto tenta cumprir suas obrigações vê sua noiva grávida começar com as contrações. Embora não saibamos quanto tempo isso levou, sabemos que foi uma situação delicada, sendo preciso cuidados redobrados, pois, só lhes restou a manjedoura de uma estrebaria (Lc 2.7).

Ali onde se colocava comida para os animais é onde Jesus é colocado. Lugar não muito convidativo para um recém-nascido. Ali foi o lugar dado a Jesus – o menino Salvador. Mas, espere um pouco, deixe que as perguntas cheguem: Um rei não é digno de lugar nobre? O Messias não merecia algo melhor?

Jesus nasceu, cresceu, ensinou, se deu. Ele morreu e ressuscitou. Segundo o ensino bíblico ele vive agora, pelo seu Espírito, no coração daqueles que nele creem. Contudo, olhando para meu coração, não vejo que melhorou algo daquela velha estrabaria para cá.

Que acomodação dentro em mim ofereço? Aqui há “sujeiras” de todos os tipos. Animais se alimentam nesse lugar, há selvagerias, há bichos que nem consigo nomear, outros que ainda desconheço.

Posso tentar ajeitar, porém, meu esforço é inútil. Foge do controle, é mais forte do que eu, me solidarizo com o apóstolo Paulo que bem sabia disso: “nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e, sim, o que detesto” (Rm 7.15).

Não há em mim um botão autolimpante, desses que a tecnologia colocou hoje em tantos aparelhos domésticos, por exemplo. Eu queria oferecer algo melhor a Jesus, entretanto, não posso nem disfarçar, seria em vão. Ele sabe, reconhece bem.

A manjedoura foi consequência de uma superlotação na cidade. Hoje, minha manjedoura particular é consequência de minha natureza (Sl 51.5), que tanto se apega e constrói uma superlotação interior – tudo cheio.

Esse período onde comemoramos, segundo o calendário vigente em nossa cultura, o Natal é um período onde somos tentados o tempo todo a nos enchermos mais, especialmente de ilusões, do que não precisamos, do que nos faz mais mal do que bem. Nossa estrebaria supõe-se “enriquecida” de supérfluos, a manjedoura fica apertada, mais bagunça, sujeira e confusão.

Em sua misericórdia amorosa Jesus não se importa, não se impõe, quer apenas fazer morada. Contudo, uma vez dentro, ele revela-se o Messias, e ele faz o que não posso, não consigo e o que geralmente resisto – ele purifica-me. O primo de Jesus, João Batista, descobriu isso e anunciou com todo fôlego: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). E no processo de sua vida, João tinha claro que convinha que Jesus crescesse e ele diminuísse (Jo 3.30). O apóstolo Paulo chegou a poder afirmar: “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20).

Nesse Natal minha oração é de gratidão pelo Rei que aceita uma singela, suja e bagunçada manjedoura; minha prece é para que ele ganhe mais espaço em mim, me ajude a abandonar tanta coisa, que ele faça o que ele sabe que está por fazer, e que é melhor do que possa eu imaginar.

Aproveite com alegria o Natal – Cristo em nós!

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