Saúde & Meio-ambiente

A vida e as pausas necessárias

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Em tempos de excessos, onde o estresse e a agitação ganham proporções não bem digeridas pelo nosso organismo, necessitamos lembrar motivos para parar, pequenas pausas, um pouco de sossego.

A pausa na vida é importante, pois pode ser um espaço para repensar a vida, para sonhar e/ou lembrar dos sonhos e tomar um fôlego.

É interessante ver no início da Bíblia, o registro da criação. Deus cria, vê e acha bom. Completa sua criação com o ser humano e aí acha muito bom. Ao terminar, descansa, santifica e abençoa o sétimo dia. Ou seja, observarmos esse eixo é fundamental para nossa saúde e equilíbrio na existência: criação – contemplação – contentamento e celebração.

“A sabedoria, como uma herança, é coisa boa, e beneficia aqueles que veem o sol” (Ec 7.11).

Em geral, entendemos do muito fazer, gente esforçada, gente cansada. No entanto, qual nosso potencial inato? Quando refletimos sobre se o que fazemos tem a ver com nossa vocação? Temos vivido segundo nossas próprias vocações?

É comum compensarmos nossas frustrações, dores e inseguranças com ilusões, prazeres estéticos e acumulação ostentosa de bem materiais. Mas isso tudo se mostra incapaz de satisfazer nossas necessidades de introspecção e de amor. São muitos os que correm atrás do vento, se matam por aquilo que é efêmero.

Como responderíamos à pergunta “quais são seus grandes inimigos internos hoje?”. Do que tenho visto, cansaço e solidão são fortes candidatos a estarem no topo da lista de respostas. E ambos têm a ver com a falta de interrupção no ritmo alucinante. Falta de pausas – pausa para descansar e pausa para investir em relacionamentos.

Pausa para descansar incluir descobrir mais o sabor da vida. E a gente confunde saborear com gula.

Sabe refeições que a gente não desfruta, apenas engole? A gente faz isso com a alimento para o corpo, mas também faz isso com o alimento para a alma. Na vida tem “menu degustação” e tem um menu próprio que é uma espécie de rodízio, onde você tenta comer de tudo um pouco, se empanturra até passar mal e só sentiu um pouco de sabor no começo, de resto, foi só hábito de colocar comida para dentro. “Ah, já que estou pagando deixa eu aproveitar tudo” – isso é raciocínio de gente miserável, que desconfia que o mundo vai acabar com a falta de comida, então, tem que aproveitar tudo naquele momento. E aproveita? Não.

Vivemos uma vida adaptativa ou uma vida criativa?

Ao invés de repensarmos o mundo que vivemos, a maioria apenas adere e adapta-se ao vigente, preferindo apenas dar sua cota de sacrifício, considerando sublime perecer em troca de um enriquecimento que o credencia no rol dos poderosos, assim respeitáveis. Correr atrás do vento como estilo de vida. Lembremos novamente Eclesiastes: “Melhor é ter um punhado com tranquilidade do que dois punhados à custa de muito esforço e de correr atrás do vento” (Ec 4.6).

O trabalho para muitos é sobrevivência, para outros é dever, e ainda, desgosto. O mantra que empurra a muitos é: “o homem que não trabalha, ou que adia, não enche o seu celeiro”. E assim, vive-se a fase de frenético desenvolvimento material. Dessa maneira, seu mundo particular vê-se atormentado pelo pragmatismo onde tudo se transforma em business e lucros. Nesse contexto cresce também o número de profissionais que vivem ao sabor do desamparo do mercado. Trata-se de um cuide-se quem puder!

Cabe perguntar quais as mudanças sociais que você identifica? Não se trata de saber se você passou da classe C para a classe A; nem se em sua opinião a economia do Brasil melhorou ou piorou; mas, que efeitos as mudanças do século XXI atingem sutil ou escancaradamente seu viver? Como seu estilo de vida foi alterado? Sem pausas não nos damos conta, apenas assimilamos e implementamos em nosso jeito de funcionar.

As novas tecnologias da informática desestruturaram o tempo e o espaço das ações e relações humanas. E quando paramos para observar e entender melhor isso tudo?

Hoje somos todos um pouco ou mais escravos das máquinas. Não nos importamos? Qual o limite?

Já nem conseguimos nomear e enumerar os infinitos absurdos organizacionais que nos angustiam no trabalho.

Nosso modelo de trabalho acaba centrado na idolatria e competitividade ao invés de ser exercício de vocação e serviço. E pouco nos incomodamos. Mais uma vez Eclesiastes: “Descobri que não há nada melhor para o ser humano do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive”, o que também nos remete para Efésios: “Somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos” (Ef 2.10). Como seres vocacionados para o bem vivem no automático das funções com pouco ou nenhum sentido?

Seria possível passarmos de um ser frenético para um ser humano? Lembremos: hiperatividade adoece. A vida frenética nos coloca numa rota mortífera. Pausas podem nos ajudar a ouvir o alarme soar, enxergar a placa de perigo.

Você faz mais coisas com as mãos ou com o cérebro? Se vocês responde que é com o cérebro, então, precisa descansar, aliviar o cérebro, pois, ele pode não te deixar dormir bem enquanto estiver sobrecarregado. Ou apagão ou desmedida pressão – de qualquer forma você é detonado quando anda acima do limite por muito tempo. Não abuse, apenas use. Use criativamente. Mas quem de nós cultiva o ócio criativo?

Temos investido em inovação existencial? Não se trata da novidade pela novidade, tem gente que muda o superficial, mas carrega sempre o velho dentro de si. Permanece sem renovação. A pergunta seria: onde você reconhece criatividade em sua vida? Ou mesmo, quanto de seu trabalho esculpe sua identidade?

O trabalho se tornou tão central que a vida se adaptou a ele e não o trabalho à vida. A programação do ano, as férias, as compras, os compromissos, tudo depende do trabalho. Não há um certo exagero? Por que demos todo esse espaço a ele? Enfim, seu trabalho harmoniza com seu sentido da vida?

O trabalho para muitos é um tédio necessário. E muitos se acomodam nisso. Thomas Merton diz que “se Deus é bom e se a minha inteligência é uma dádiva Sua, o meu dever é mostrar, pela inteligência, a minha confiança na Sua bondade. Devo deixar a fé elevar, curar e transformar a luz da minha mente”.

Considerar o princípio sabático é uma maneira de refletir sobre nossa atitude diante da vida. Averiguarmos quanto e como se é afetado por tudo que nos circunda. Refletirmos sobre o que adoça a vida ou afoga a angústia. Afinal, de que adianta ter tudo e não saber quem se é?

Tem gente que funciona, mas não sabe quem se é. Entende do fazer, mas não do ser. Hoje, cabe a pergunta: o que nos é mais familiar do que o fazer compulsivo?

Nós temos desejos e não gostamos da espera. Cada dia mais impacientes. E a pausa, silenciosa pausa, pode nos ensinar sobre esperar, sobre ter esperança, sobre nutrir paciência.

Nós que vivemos na era do descartável, vivemos com respostas prontas: Deu problema? Troca por outro. É assim com funcionários, amigos, namoradas, maridos e esposas. Somos seduzidos pela reposição instantânea. E desse jeito, vamos perdendo, cada vez ficamos mais distantes das noções de construção, processo, trabalho de elaboração.

Há alguma expectativa de vida que não seja apenas mais longa, mas também mais sadia? Novamente Eclesiastes: “Afaste do coração a ansiedade e acabe com o sofrimento do seu corpo, pois a juventude e o vigor são passageiros” (Ec 11.10).

O ato criativo precisa de pausas. A vida criativa exige quebras de rotina. A vida com Deus exige silêncio.

Tendemos mais a reproduzir e repetir, do que pensar e criar. Onde tudo é muito ligeiro, aumenta a probabilidade de ser tudo rasteiro.

Precisamos de lugar de introspecção. Precisamos de espaço interior para elaborar a existência. Pequenas pausas no dia, que seja, já ajudam. E precisamos de um dia de descanso, uma pausa maior na semana. Eis aí um bom ritmo.

Sem conscientes pausas nós confundimos lixo com luxo. Vamos ficando cada vez mais sem filtros. Perigoso, pois, há um espetáculo hipnotizante de coisas, engenhocas tecnológicas, engodos autodestrutivos que vão se alastrando, ganhando espaços e tempo nosso como se isso fosse vida. Quando não passa de ilusão alienante.

Sinta-se convocado a perceber-se responsável pela administração de seu tempo. Chega de ser engolido. A vida é mais do que entretenimento.

Seres vocacionados não precisam desperdiçar a vida com o vento.

Pausas ajudam a não vivermos divididos entre pertencer a Deus e pertencer a coisas.

Lembremos que a oração, um tempo devocional, e até mesmo um bom encontro em grupos pequenos, podem contribuir para pausas estratégicas no viver. Claro, incluir atividades físicas também é importante, assim como, pausar para ver a natureza, ouvir uma música com calma, etc.

Nós precisamos de pausas que quebram a rotina, suspendem a agitação. Necessitamos de pausas a fim de pensar o que se traz, o que se leva e o que se carrega (exercícios de reconhecimento); pausas para partilhar e confessar, a fim de encontrar suporte tão necessário ao existir.

A pausa pode ser um espaço de rever o sentido, de olhar para a criação e contemplar, saborear o que foi criado; enfim, adorar o Criador e agradecer a criatividade que nos é dada. Aproveite.

Espiritualidade e Natureza

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Em meio ao caos e profunda angústia, um aflito ora, lembrando quem é esse Deus a quem clama: “No princípio firmaste os fundamentos da terra e os céus são obras das tuas mãos” (Sl 102.25).

Um Deus criador e uma criatura que vai se tornando cada vez mais perigosa pelas escolhas que faz. Ao que tudo indica não temos sido muito responsáveis, tão pouco bons cuidadores da criação. Temos visto o efeito das mudanças climáticas sobre a agricultura, a saúde, os ecossistemas, os recursos hídricos e os meios de subsistência. Estudiosos também afirmam ver sinais precoces de que o sistema de recifes de corais e o sistema ártico estão passando por modificações irreversíveis. Como reagimos a isso tudo?

Na tentativa de satisfazer impulsos interiores e atender a demandas criadas pelo mercado e suas ditaduras, onde na maior parte do tempo nos sujeitamos sem quase refletir, vemos então uma iníqua injustiça ecológica, uma exploração repetida por gerações, que agora beira o limite. Nossa voracidade consumista devorou recursos até quase esgotá-los. A exploração excedeu-se a tal ponto que devastamos ecossistemas inteiros, contaminando solos, as águas, os ares e os alimentos. Onde estava a ética, as considerações sociais e sanitárias? Comprometemos as futuras gerações?

Em triste e preocupante situação que criamos não podemos seguir ignorando a realidade que nos cerca. Nossa irresponsabilidade traz consequências ameaçadoras, que complicam cada dia mais rotinas simples, dos grandes centros aos sertões praticamente desconhecidos.

Sendo a oração um diálogo, tendo um Deus criador para conversar e ouvir, como a fé cristã pode ajudar-nos? Bem, acredito que as implicações são inúmeras, que espaços devem ser ampliados para se estudar e conversar melhor a respeito, contudo, hoje poderíamos pensar na singeleza e força transformadora que a oração pode ser.

A oração pode conduzir-nos a novas perspectivas, mudar nossa postura a partir do centro, uma interioridade resgatada apesar do exterior confuso. Quanto pode a oração?

Henri Nouwen destaca dois efeitos da oração na vida de Thomas Merton que foram facilmente crescendo: um estilo de vida diferente (cujos hábitos se tornaram mais austeros) e a receptividade crescente frente à beleza da natureza. Ou seja, resultados visíveis da oração em nós podem ser: uma vida mais disciplinada e simples, além de uma atenção mais sensível ao nosso ambiente.

Para usar as palavras de Nouwen, descrevendo as mudanças no Merton: “está menos tenso, menos agitado, menos desamparado, menos inquieto e a natureza que o cerca, antes despercebida, desabrocha agora numa beleza nunca dantes notada. É impressionante constatar como a oração abre os olhos de muita gente para a natureza. A oração torna o homem contemplativo e atento. O homem deixa de manipular, passando a ser mais receptivo diante do mundo. Não agarra as coisas, mas as acaricia, não as agride, mas beija, não as esquadrinha, mas admira-as. Para quem assim age, a natureza pode mostrar-se completamente renovada. Ao invés de ser um obstáculo, torna-se um caminho; em vez de ser escudo impenetrável, passa a ser um véu que descortina horizontes desconhecidos”.

A oração também educa a alma, faz-nos mais sensíveis com uma qualidade na atenção antes perdida, regenera olhos adoecidos. Assim diz Davi, num de seus salmos: “Bom e justo é o Senhor; por isso mostra o caminho aos pecadores… Todos os caminhos do Senhor são amor e fidelidade” (Sl 25.8 e 10). A oração é um espaço onde caminhos são mostrados, pecados são assumidos e pecadores são transformados. Crer num Deus cujos caminhos são amor e fidelidade me encoraja a ter conversas francas, a perseverar no caminho e ter a esperança renovada.

Sigamos descobrindo e desfrutando mais das orações.

Frustração – uma guerra interior

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Frustração é o estado que fico quando não tenho o que gostaria, quando me deparo com um obstáculo, externo ou interno, que me priva de satisfazer um desejo acalentado.

Frustro-me quando mergulho na ilusão, enganando-me com a expectativa, defraudando meus próprios castelos de areia.

Não gosto da frustração, pois ela me remete às falhas que nego ou tento esconder. Engasgo com o desgosto, ao ver que as coisas não saíram como eu pretendia, e o resultado é algo aquém dos meus sonhos, quase sempre infantis.

Lidar com a frustração é encarar uma guerra, de quem pretende ser onipotente, mas perde. Perder é amargar uma derrota do orgulho, é ferida narcísica, é manha de ser um ser mimado que não quer deixar esse lugar.

Pensar na frustração é ter que rever minhas idealizações. Trata-se de enfrentar o espinhoso trabalho de desidealizar, desmascarar a ingenuidade preguiçosa e covarde a que me apeguei, e ter que lidar com a realidade dura, por vezes cruel. Aí não há espaço para nutrir perfeccionismos doentios, alimentado pelo autoengano do “eu consigo”, “só os fracos desistem” torna-se o mantra da infeliz teimosia.

Apesar de eu evitar com toda minha força a colisão com o muro das ilusões, ela acontece, e aí sobram ruínas. E aí, tomo fôlego pra construir novos muros parecidos? Mais do mesmo?

“Pretensiosos e arrogantes vestem-se com os insultos da última moda. Mimados e fartos, enfeitam-se com as tiaras da tolice” (Sl 73.6-7 – A Mensagem). Quem sou eu de fato? Por detrás de dispositivos internalizados, disfarces e ataduras, o que sobra?

Desejo olhar, mas desejo também um olhar misericordioso. Quero a coragem de não fechar os olhos, mas também a audácia de não me acomodar na autocontemplação vaidosa. Que a compaixão e a sabedoria me guiem, afinal, como dizia Martin Buber, “existe uma autocontemplação estéril, que não leva a lugar nenhum, somente à tortura de si mesmo”.

A pressa é inimiga da audição

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Para ouvir bem, é preciso tempo. Para ouvir com qualidade é preciso silêncio. Mas, tempo e silêncio são dois tesouros que se tornaram relíquias em nossos dias.

O que nossa incapacidade contemporânea de silenciar diz a nosso respeito? Será que já fomos contaminados por uma certa epidemia, quase discreta, que alastra uma infecção social em nossos ouvidos? Será que eles encontram-se tão deformados que já não cumprem sua função?

Quando conversamos ou lemos (em tese, um potencial diálogo com o autor), em geral, o fazemos com pressa, e então, perdemos. Perdemos tempo porque não apreendemos, perdemos o respeito, porque não oferecemos uma escuta de qualidade. Como já disse Rubem Alves: “É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: ‘Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.’ Segunda: ‘Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou’. Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: ‘Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.’”

Desconfio que nossa inabilidade em ouvir seja apenas sintoma, afinal, não nos faltam modelos de egocentrismo, onde não se dá a mínima para que o outro pode dizer e sentir e só aspira a seu próprio bem-estar. Vamos, desavergonhadamente, assumindo cada vez mais nossa fala compulsiva, viva a verborragia! E assim, o barulho aumenta. Doentes vaidosos, só queremos ouvir nossa voz, poderosa, ecoando aos quatro ventos, inclusive os virtuais. Ledo engano, ninguém mais quer ouvir ninguém. Fingidores da audição, porém, verdadeiros falastrões.

Pouco atentamos a experiência do salmista: “Acalmei e tranquilizei a minha alma. Sou como uma criança recém-amamentada por sua mãe; a minha alma é como essa criança” (Sl 131.2). Cultivar um coração tranquilo, estar interiormente como uma criança segura no aconchego da mãe, pode ter bastante a ver com diminuir o ritmo e silenciar mais. Atentar para a agitação externa que contamina e recusar aderir ao frenesi da nossa época.

O respeito ao próximo passa por aprender a ouvir, e quando esse respeito se manifesta na qualidade com que se ouve pode nascer uma amizade. Menos palavras podem ajudar a ter uma melhor relação. Ouvir mais pode contribuir para aprofundar os relacionamentos. O silêncio reverente pode aproximar mais e melhor, e trazer um pouco da calmaria tão desejada – tranquilidade para a alma, que encontra sossego e satisfação no exercício do bem ouvir, filtro importante para o espírito apressado/agitado de nosso tempo.

Quais são suas perguntas nessa estação?

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Quanto mais imaturos emocionalmente, mais a ansiedade tende a ganhar espaços. Logo, imaturidade é uma fase (ao menos, espera-se que seja só uma fase), onde se tem muitas perguntas e pouca paciência para respostas longas e complexas. Assim, o desejo pelas respostas prontas não costuma ser um bom indício para a maturidade emocional.
Um sinal interessante de transição rumo à maturidade é perceber que mais do que respostas, é importante atentar para quais perguntas estamos fazendo. Privilegiar determinadas perguntas pode ser mais sábio, mais estratégico, enfim, mais saudável para a vida.
E o tempo de cessar as perguntas, quando chega? Tendo a pensar que chega quando a vida acaba. Contudo, o que tenho visto na vida de gente madura que me inspira é que as perguntas diminuem em quantidade, mas, crescem em profundidade. Vão rareando, mas trazem raízes de uma vida. Descortinam dilemas assustadores, porém, amansados pelo tempo. Um apaziguamento de quem não precisou se agarrar às culpas para amenizar questões ainda mais comprometedoras.
Não é mais mera curiosidade ingênua, nem gula da alma, pois essa já entrou na dieta existencial. É querer menos, entretanto, saborear mais. É a dinâmica de quem não mais cai nas ciladas fáceis de ilusões baratas, na ânsia do comércio de bajulações, bijuterias de conhecimento, nas cifras do suposto saber, no consumismo da prateleira das ideias em promoção.
A maturidade é acompanhada da sabedoria em como usar o tempo cada vez mais precioso. Deixou de ser banal, não mais um bem descartável, nada de desperdícios.
O aproveitamento do tempo pode se manifestar com singeleza. Nada extraordinário aos olhos, provavelmente, da maioria, mas de uma riqueza singular para quem foi enriquecido com a maturidade. Pode ser uma simples e descontraída conversa, porém, o olhar que se dá não se encontra em qualquer lugar. É um colo oferecido que ganha dimensões de eternidade. Gestos delicados que comunicam mais do que longos diálogos. Onde o silêncio já não mais incomoda, antes, torna-se espaço de contemplação e acolhimento. E as pausas fazem parte da harmonia melódica da vida.
Há uma fase da vida onde tudo o que se quer é crescer, há outra onde o que se deseja é amadurecer. Nela o menos é mais. Aí o burburinho vai sumindo e o som denso do surdo (tambor) vai ditando novo ritmo. Há suavidade, apesar da firmeza. Há nitidez – ruídos desfalecem. Aí uma só voz é ouvida e os antigos gemidos cessam.
Ah! Com eu quero chegar lá!

PARA ONDE VOCÊ VAI?

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Tomar decisões tem sido algo aflitivo para a maioria das pessoas. Por conseguinte, geradora de enorme ansiedade.
Sem dúvida, o excesso de opções não facilita o processo. Há a angústia de ter de abrir mão, de dizer “não” para opções interessantes, atraentes, sedutoras. Diante de tantas possibilidades ficar apenas com uma não é tranquilo. A gula de nossos dias é crescente. A sensação de estar perdendo algo se amplia e tende a dominar. E não é à toa que a frustração ganhe espaço interior cada vez maior. Isso sem contar o medo paralisante de errar. Há um temor quase fatal que gera mal-estar comum – “e se eu errar em minha escolha?”. Tal situação pode, inclusive, jogar expectativas excessivamente altas e idealizadas na tomada de decisão.
Percebe-se, então, que além disso tudo, é preciso considerar o que se entende por fracasso e como lidamos com ele. Essa é uma reflexão necessária para nossa saúde, porém, antes, o convite é para pensarmos o quanto sabemos a respeito de nossos desejos. O que realmente queremos?
Vejamos uma situação comum que encontramos no mercado de trabalho. Hélio Bruck Rotenberg, 48 anos, engenheiro civil de formação, presidente da Positivo Informática, assumiu recentemente, o comando geral do Grupo Positivo. Em entrevista à revista HSM Management (maio-junho de 2012), disse: “O sujeito está preparado para virar a noite sempre que for preciso ou quer sair às seis horas em ponto todos os dias? Eu me lembro bem de um jovem engenheiro muito bom que trabalhou conosco e eu adorava. Um dia, ele chegou para mim e anunciou: ‘Vou sair, fazer concurso público e trabalhar num tribunal’. Pego de surpresa, perguntei: ‘Você está maluco? Vai ganhar quanto?’. Ele respondeu: ‘Três quartos do que eu ganho aqui’. Eu argumentei que era bobagem e que ele tinha futuro aqui, mas ele foi sincero: ‘Eu não aguento essa loucura, preciso poder sair às seis e meia da tarde todo dia’. Lamentei, mas respeitei sua decisão, porque ele foi fiel a sua personalidade, como se deve ser. Nós somos uma organização nervosa que precisa de profissionais aguerridos. Algumas áreas demandam profissionais mais criativos, outras, gente mais cumpridora, mas todos têm de ser muito aguerridos, gincaneiros”. Pois é, na gincana da vida, esses são desafios corriqueiros. Ao entrarmos num emprego precisamos saber não apenas o que ele oferece, mas suas demandas. E aí, no processo decisório, ponderar o que de fato buscamos.
Esse exercício requer uma visita prolongada aos nossos valores. Perguntas simples em situações profissionais como essa: queremos dinheiro, fartos e generosos benefícios, além de conveniência no currículo, ou, insistiremos corajosamente que o mais importante é ter um tempo para cuidar de si e das pessoas amadas? A “loucura” a que se refere o sensato e coerente engenheiro do exemplo nos atrai mais? Muitos alegam que a realidade do mercado de trabalho é cruel e louca mesmo, e que trata-se apenas de uma fase, que não será uma escolha para a vida. Contudo, o que mais vejo, é que o desgaste vence final. Quando decidem sair, geralmente, é tarde demais diante dos estragos já feitos na vida do sujeito. O que sobra são trapos de gente.
Irreversível? Não. Enquanto há vida, há oportunidade de escolhas responsáveis e mais saudáveis a longo prazo. Mas quem quer aprofundar no que realmente acredita e deseja para si? Deixar a inocência existencial não se dá sem dor. É preciso perder para ganhar, mas não suportamos o peso da palavra perda.
O que lhe garante proteção? Para onde você caminha? Dize-me quais são suas escolhas e eu lhe direi quem és. Ou, como diria o teólogo A. W. Tozer: “Na caminhada cristã, o importante não é a velocidade com que andamos, nem a distância percorrida, mas sim a direção que tomamos”.

Tempo

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Mais um ano está terminando e a sensação de que o tempo está passando mais rápido só cresce. Por que será? Parece que uma pista é observarmos quanta informação recebemos, quantas coisas fazemos ao mesmo tempo, quantos compromissos acumulamos, e como lidamos com a sensação e a realidade de não sermos suficientes.
Uma consideração simples, mas, pertinente, é que o jornalista Marcelo Coelho faz: “Cada celular é um roedor de tempo, e o cidadão, para estar acessível e ser acessado em todos os lugares, paga o preço de viver espremido”. E muitos chegam ao fim de ano bem espremidos e angustiados com a falta de tempo e as pendências na vida.
Uma psicanalista, chamada Luciana Chauí Berlinck, me ajudou quando disse que “a consciência do tempo está articulada aos ritmos da percepção, de interrupção e conexão com o mundo exterior”. Então, isso indica que podemos estar mais conscientes do tempo conforme a escolhas que fazemos, o estilo de vida que nutrimos e as vivências que priorizamos.
Se não estivermos atentos, por exemplo, podemos desperdiçar um tempo especial, não reconhecê-lo, e, portanto, não aproveitá-lo em toda sua dimensão.
Mesmo os mais desatentos tem ouvido e visto as alterações climáticas que temos vivido. Efeitos que já tem feito estrago e que exigem mudanças radicais de nossa parte. Contudo, parece que nosso estilo de vida também tem bagunçado, catastroficamente, as estações da vida. Não só porque a adolescência se estende facilmente até aos 35 anos, ou muitos de 60 querem viver como se tivessem 30, negando realidades e não compreendendo seu tempo, mas também aquelas estações existenciais das quais falam o livro de Eclesiastes… “tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de juntá-las, tempo de abraçar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de jogar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de calar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz” (Ec 3.2-8).
É importante discernir as épocas que se vive e aproveitar e respeitar os tempos oportunos. Inclusive, quem não consegue reconhecer e respeitar seu próprio tempo, dificilmente o fará com o seu próximo. Parar, descobrir e assumir é sabedoria. Isso tudo contribui para a saúde.
Cuidem-se no tempo e o espaço ficará melhor.

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