O Brasil é o país com o maior número de defensoras e defensores de direitos humanos e ambientais assassinados em 2016. De acordo com levantamento da Global Witness, foram 49 mortes neste período – o que nos coloca no topo da lista entre os 24 países analisados. A maior parte dos crimes aconteceu na região Norte. Assista ao vídeo produzido pela Conectas Direitos Humanos.

 

Por Eli Leão Catachunga (Ticuna)

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O índio brasileiro é cidadão que tem anseios, carências e necessidades específicas, que precisam ser supridas. É um desafio que exige a visão clara de que as terras indígenas são vitais para a subsistência do povo, e que a gestão tradicional (sem utilizar plenamente seus recursos) já não supre as atuais demandas indígenas.

O impacto dessas mudanças é bem mais relevante nas etnias que apresentam longo contato com a sociedade envolvente. Muitos desses contatos resultaram na perda da capacidade de produção dos indígenas, pois passaram a depender do mercado para obter o consumo básico. Entre os grupos que compõem esta categoria estão aqueles cujas terras ficam localizadas nas proximidades dos centros urbanos, principalmente no nordeste, centro e sul do país. Eles não possuem, em seu entorno, recursos naturais com densidades suficientes para prover sua subsistência à maneira antiga.

Estas regiões apresentam altas densidades demográficas e elevadas demandas sociais de consumo. Assim, os recursos naturais que constituíam a base da subsistência dos povos indígenas, como a caça, a pesca e outros produtos da extração florestal, foram esgotados. Além disso, em alguns casos a área de cultivo é limitada, pois as terras tornaram-se improdutivas devido ao uso constante.

Continue lendo →

Foto: SBB

Dia primeiro de agosto, a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) realizará a primeira edição do Encontro de Pessoas com Deficiência Visual no município de Rio Branco (AC). Na ocasião, a SBB doará um exemplar da Bíblia em Braile, projeto pioneiro no País, lançado pela organização em 2002, para ampliar o acesso das pessoas com deficiência visual às Escrituras Sagradas. Dessa vez, a organização beneficiada é a Associação dos Deficientes Visuais do Acre (ADVI).

O evento acontecerá na sede da Associação e contará com a palestra “Gratidão”.

A iniciativa da SBB é realizada por meio do programa A Bíblia para Pessoas com Deficiência Visual e tem o objetivo de tornar a Bíblia Sagrada acessível a todas as pessoas e, por meio dela, promover a inclusão social, o desenvolvimento cultural e amparo espiritual a esse público.

Continue lendo →

O Estado de Roraima é o mais letal para mulheres no Brasil. Com 515 mil habitantes, tem a maior taxa feminina de homicídios, segundo o Atlas da Violência 2017. A publicação, organizada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e plo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), é uma coletânea dos dados oficiais mais atuais sobre segurança pública, com informações até o ano de 2015.

Enquanto a média brasileira de assassinatos ficou em 4,4 a cada 100 mil mulheres, em Roraima, 11,4 em cada 100 mil foram mortas em 2015 (20 mortes neste ano, o que representa aumento de 163% desde 2005). A ONG internacional Human Rights Watch (HRW), que defende e faz pesquisas sobre direitos humanos, visitou essa região no extremo Norte do país para entender o que leva a um número tão alto de homicídios de mulheres. Entre os motivos apontados estão a impunidade, o alto número de boletins de ocorrência sem investigação, as falhas no atendimento policial e a falta de resposta à violência doméstica.

Continue lendo →

Por Gladir Cabral

Autran Dourado, em sua obra “O Risco do Bordado”, propõe a escrita do romance como metáfora da bordadura. Refletindo sobre o mistério da memória e os caminhos e descaminhos da vida, já quase ao final da história, o narrador pondera: “Mas de um homem sempre alguma coisa fica, quando nada nas lembranças, esperando a ressurreição. Feito dizem: Deus é que sabe por inteiro o risco do bordado” (1981, p. 155). Utilizando essa mesma metáfora para entender a obra “Dois Irmãos”, pode-se dizer que Milton Hatoum, por meio de seu narrador, tece uma grande obra de urdidura.

Em sua delicada e complexa tapeçaria, Hatoum utiliza muitos fios de narrativas clássicas, bíblicas, como a história dos irmãos Esaú e Jacó (Yaqub), que me parece ser o arcabouço estruturante da obra. Nela estão presentes o conflito entre irmãos, as preferências dos pais, os efeitos da superproteção, as manipulações da mãe, a cumplicidade dos filhos, a contenda da mãe com as possíveis noras e o reverso da fortuna.

A história da família de Halim se alinha com a história da cidade de Manaus e com a história do Brasil. No romance, uma comunidade de imigrantes libaneses convive, em plena Manaus do século 20, com as culturas locais, dos curumins, da floresta, das chuvas intermitentes, das frutas e peixes do Amazonas. Entretanto, mais do que literatura regional, “Dois Irmãos” lida com temas universais, como o amor e o perdão.

Continue lendo →

Por José Carlos Brito

Flor do Mandacaru (Rogério Avelino)

Sou natural de São Paulo e há 10 anos moro no nordeste, onde desenvolvo projetos missionários e de desenvolvimento comunitário. Trabalho diretamente no sertão há 5 anos. Geralmente, quando recebemos equipes que vem nos apoiar a curto prazo ou quando viajo para divulgar o trabalho que estamos realizando, uma pergunta sempre surge nas rodas de conversa: “Em meio à seca severa, tanta pobreza e injustiça, existe esperança para o Sertão?”.

Sei que para os cristãos mais fervorosos, questionar isso seria uma prova de pouca fé. Claro que existe esperança, nosso Deus é o Deus do impossível! Mas para quem convive com a realidade das mazelas do semiárido, por vezes, a percepção que tenho é que o problema não é “Deus ser o Deus do impossível”, e sim, nossa justiça que é comparada a um trapo de imundice!

Comecemos com a realidade sertaneja que nos cerca hoje. De todos os 1.133 municípios que compõem o semiárido nordestino, nenhum tem a média nacional de IDHM1 brasileira, ou seja, todos os municípios do sertão estão abaixo da media nacional em relação ao desenvolvimento humano. Olhando de forma específica, o município onde moro, Betânia do Piauí, cerca de 80% da população está vulnerável à pobreza2, e cerca de 40% dos jovens acima de 18 anos são analfabetos3. Esse número não é tão alarmante quando constatamos que cerca de 50% dos analfabetos do Brasil estão no nordeste4.

Poderíamos levantar inúmeros dados constatando o abismo social que vive o sertão, mais como nosso assunto é esperança, a pergunta que fazemos é: o que está sendo feito para mudar esse quadro?

Continue lendo →

Por Jénerson Alves

Machado de Assis (1839 – 1908)

Se estivesse vivo, o maior escritor brasileiro completaria 178 anos em junho. Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho de 1839, na cidade do Rio de Janeiro – que, na época, contava com cerca de 300 mil habitantes. Mais do que um hábil autor, Machado de Assis é exemplo de uma pessoa que deu a volta por cima. Filho de um pintor mulato e de uma lavadeira portuguesa, não realizou seus estudos regulares. Além das condições sociais, ele precisou enfrentar adversidades de ordem fisiológica, tendo em vista que era mulato, gago e epilético.

Porém, um dos fatos que mais chama a atenção em sua biografia é o amor vivenciado em seu matrimônio. Em 1869, casou-se com Carolina Xavier de Novais, com quem passou quase a vida inteira. Ela era portuguesa e quatro anos mais velha do que ele. O casal não teve filhos. Carolina faleceu em 1904, com 69 anos de idade. Devido à morte da esposa, Machado foi tomado por uma grande tristeza e saudade. Conta-se que ele manteve a casa do mesmo jeito que era quando ela estava viva. E fazia as refeições sempre com dois pratos à mesa. O escritor morreu em 1908, curiosamente também com 69 anos.

Do ponto de vista literário, Machado de Assis é a mais proeminente figura do Realismo – escola literária caracterizada pelo racionalismo e por uma análise descritiva dos problemas da vida. Uma das marcas do estilo de Machado é a ironia, entrecortada por um humor velado, como pode ser conferido em ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, publicado inicialmente em 1881. Ele consegue perscrutar a hipocrisia da elite carioca e, assim, adentra nos porões da existência humana, abordando assuntos intrínsecos a todos os homens.

Observando a vida e o legado do escritor, é possível fazer uma relação com um dos profetas menores do Antigo Testamento. No oitavo século antes de Cristo, o profeta Oseias apontava a hipocrisia do povo de Israel, que estava em declínio moral e espiritual. Ao contrário da sutileza dos textos machadianos, o livro bíblico apresenta um tom objetivo, em consonância com o fator profético da obra.

Continue lendo →