Por Héber Negrão

8º Conplei Nacional 2016 – Aldeia Córrego do Meio (MS)

Era um momento de festa e de muita alegria. Naquela noite de 2012, encerrava o 7º CONPLEI Nacional. Aquele evento, marcado pela diversidade, contou com a presença de 2.300 indígenas de mais de 80 etnias, de dentro e de fora do país. Foram dias de grandes comemorações: o casamento de um dos líderes do CONPLEI, a celebração dos 100 anos de evangelização do povo Terena, e a tão amada Ceia do Senhor. Na ocasião, participei pela primeira vez de uma Ceia contextualizada.

Muitos de vocês já devem ter visto ou ouvido notícias de que nossos irmãos indígenas têm celebrado a Ceia utilizando elementos de sua própria cultura, substituindo o pão pelo beiju de tapioca e o vinho pelo açaí. É possível que a primeira pergunta que venha à sua mente é: será que é certo trocarmos elementos tão explícitos nas Escrituras por algo de outra cultura? Para ajudar a responder essa questão quero apresentar nesse texto três princípios para a celebração de uma Ceia contextualizada.

Alimento Diário

“Dai-nos hoje o pão de cada dia” (Jesus)

8º Conplei Nacional 2016 – Aldeia Córrego do Meio (MS)

Não é novidade alguma que, em muitas culturas, o pão representa o principal alimento diário. Nos tempos de Jesus, era um item tão essencial que a expressão “comer pão” em hebraico significava literalmente “fazer uma refeição”, e Homero, em suas Ilíada e Odisseia refere-se ao homem como “comedor de pão”. [1]

Para Ronald Hanko, um dos motivos para o pão ser utilizado como um dos elementos da Ceia do Senhor é que ele representa as necessidades básicas da vida. Segundo ele a petição “o pão nosso de cada dia dai-nos hoje” na oração do Pai Nosso, inclui todas as necessidades terrenas da vida humana. Dessa forma, o pão, na Ceia do Senhor representa nossa total necessidade do sacrifício de Cristo para a nossa vida espiritual. “Assim como não podemos viver sem o ‘pão diário’, não podemos viver sem Cristo, o pão da vida.”[2].

Nas culturas indígenas do Brasil é difícil definir o valor da mandioca[3] e seus derivados para a alimentação diária do povo. Com a mandioca é feita a farinha que eles comem com a carne e peixe ou tomam em forma de chibé (um mingau de farinha com água). Com o caldo da mandioca prensada é feito o tucupi, que serve como tempero para muitos alimentos. E com a massa da mandioca deixada de molho é feita a tapioca, da qual eles preparam o beiju. Continue lendo →

Por Phelipe Reis

De manhã, ela abre a geladeira e pede: “Dá, dá…”. Eu pego a caixinha e retiro a embalagem; lavo e corto em pedaços aqueles morangos vermelhinhos. Ela come um e pede o segundo. Dois, três, quatro… devora quantos tiver. “Morango é fruta de rico”, lembro que era assim que eu pensava, quando eu era curumim. Via muitos e os desejava. Mas os via na tela da TV, na mesa das famílias das novelas globais. Às vezes, apareciam também nas prateleiras dos supermercados da cidade, mas quase nunca na geladeira de casa. Lá, no interior do Amazonas, custava cerca de dez reais pouco mais de uma dúzia de morangos. Hoje, no interior de Minas, consigo comprar a mesma quantidade por um preço mais barato que uma palma de banana.

À tarde, na hora da merenda, pego minha xícara com o café quentinho. Acabei de passar no coador, vi subir o vapor da água quente e senti o aroma do café mineiro. Acrescento açúcar e leite em pó. E mais leite em pó, para ficar com aquelas bolinhas. Faço assim também na hora de preparar o Nescau da cunhantã-viçosa. “Tá bom! Já colocou o suficiente”, assim dizia minha mãe quando estávamos à mesa de manhã cedo, antes de ir para a escola. O pacotinho do “Duleite” era caro. Se não economizássemos nas colheradas, o resto da semana teria só o café preto.

Com o café já pronto, passo a tapioca na peneira, esquento a frigideira para fazer o beiju. Depois passo manteiga e coloco algumas fatias de queijo. A cunhantã chega perto, choramingando, e pede também. Não a tapioca, quer só o queijo. Come de perder a conta, se a gente deixar. “Tá bom já. Passa só numa banda do pão. E não tem ‘quero mais’”, dizia a voz firme do papai, na hora da merenda. Parecia até que estava brabo. Mas não, estava apenas preocupado para que não acabássemos a manteiga em um só dia. Continue lendo →

Por Brunely Machado

1. Índio ou indígena, qual o termo correto?

Foto: Laycer Tomaz/ Câmara dos Deputados (28/05/2014)

Em 2015, no art. 4º, § único, o Código Civil inovou ao mencionar uma nova nomenclatura “indígena”, no lugar da antiga redação “índio”. É uma demonstração da dinâmica permitida na língua, que é viva. Aconteceu também esse mesmo processo com o que hoje chamamos de afrodescendente. Os novos termos vão se tornando politicamente corretos. Mas é algo muito recente ainda.

2. Há casos comprovados de infanticídio no Brasil ou é invenção de missionários?

Não é invenção de missionários, tampouco de antropólogos. É algo que existe em algumas etnias indígenas no Brasil por diversos fatores culturais. Geralmente se dá pelo fato de a criança nascer com alguma síndrome, necessidade especial, ou até mesmo por ser gêmeo. Faz fundamental mencionar que o modo como se enxerga o início da vida é diferente, ou seja, alguns povos acreditam que a vida começa ao segurar a criança, já outros, ao dar um nome. (Saiba mais) Continue lendo →

Aquele pensamento que vê o missionário como um “detentor da verdade” que vai a algum lugar apenas para ensinar, parece cada vez mais não ter muito sentido. Quem vai para qualquer campo missionário com esta postura, na verdade tem muito a aprender. Hoje, dia 3 de maio, quando comemoramos o Dia do Sertanejo, publicamos breves testemunhos de missionários com experiência no sertão nordestino que aprenderam e aprendem muitas lições convivendo e servindo entre esse povo.

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O sertanejo valoriza a encarnação da gente e convive com ele

O sertanejo é um grande exemplo para mim. Ele se adapta a qualquer circunstância difícil e não perde a sua fé em Deus, mesmo ele não sendo crente. Sua tradição religiosa, muitas vezes impedimento para receber o evangelho da graça, é também uma demonstração de firmeza e fidelidade. Tornando-se seguidor de Cristo, ele se firma com a mesma convicção na nova fé. Ele vive no calor, sem água, com outras carências, pela fé. Com eles, aprendi a viver no calor, na poeira, sem água, sem conforto, etc.

Aprendi da sua hospitalidade, sempre portas abertas, sempre oferecendo comida, sempre tendo tempo para os seus visitantes. Ele fica super contente com a visita que vem das cidades, das metropolitanas, do exterior. Ele se sente honrado e disponibiliza tudo para receber os visitantes da melhor forma possível. Nós vivemos sem tempo, mas com um tanto de dinheiro. Ele vive com pouco dinheiro, mas com muito tempo que ele partilha com familiares, vizinhos e visitantes e constrói relacionamentos.

Beat Roggensinger, 1959, suíço, deste 1990 servindo no nordeste do Brasil

Quero aprender cada vez mais com eles, investindo tempo em relacionamentos, como Jesus também nos demonstrou. Dinheiro é frio e problemático. Relacionamentos, através de tempo investido, nos enriquece de qualidade. E pessoas aceitam também o evangelho muito mais quando investimos tempo em suas vidas.

Aprendi ter perseverança e descobri que o sertanejo valoriza a encarnação da gente e convive com ele. A leitura do evangelho ele faz por nossa vida. Ele escuta dia após dia “evangelhos”. Mas o que marca a vida e chama atenção dele e desperta mais curiosidade é nossa vivência no meio deles.

Aprendi também que quando eu não for pra determinados povoados, pode ser que ainda demore por anos que este povo querido e sofrido tenha a oportunidade para ouvir o evangelho.

• Beat Roggensinger, 1959, suíço, deste 1990 servindo no nordeste do Brasil. Atualmente morando no estado do Piaui, em Demerval Lobão – www.ranchodalua.org. É fundador da PróSERTÃO, junto com outros missionários e pastores. Fundador de várias igrejas e escolas evangélicas; professor e por muitos anos diretor de um seminário sertanejo que formou pastores e missionários sertanejos

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Vindo a chuva ou a seca, o sertanejo acredita que Deus está no controle

Tenho certeza que Deus me agraciou em permitir morar e servir o povo sertanejo. Na verdade, me sinto muito mais servido por eles do que o contrario. Com o sertanejo aprendi a ser receptivo, a sempre ter a porta aberta para uma visita, respeitar e honrar meus pais e seja vindo a chuva ou a seca, acreditar que Deus esta no controle de tudo.

 • José Carlos Brito Filho vive há cinco anos em Betânia (PI), onde trabalha com plantação de igreja e com a ONG Novo Sertão.

 

Eles cantam os momentos difíceis como forma de superação, mas também cantam a fé e a vida

Vivendo entre eles [sertanejos] há quatro anos, aprendemos que o sertanejo é tão feliz quanto ou mais que alguém em qualquer lugar do mundo. O que para mim parecia triste e insuperável, nos sequentes anos de perca na lavoura, vi que o homem sertanejo é forte, resistente e esperançoso, cheio de fé em Deus e na vida. Todos os anos ele não deixa de plantar com essa fé. Um povo de um canto próprio e alegre. Um canto cheio de rimas e versos que não se repete a cada toque da viola. Uma poesia nova. Eles cantam os momentos difíceis como forma de superação, mas também cantam a fé e a vida. Com esse canto forte contraditam o fenômeno da seca do sertão e as circunstâncias de suas vidas. O sertão, para mim, é o lugar melhor e mais feliz do mundo, pois aqui apreendi e vivi o amor de Deus ao sertanejo. E eu os amo também.

• Francisco Reis Aquino Filho, casado com Noélia de Sousa Rodrigues Aquino. Atuam como missionários há quatro anos servindo no povoado EMA, zona rural do município de José de Freitas (PI). Têm dois filhos, gêmeos: Levi e Davi.

Aprendi que os sertanejos, além de viverem em situação de exclusão social, são também excluídos espirituais e por isso carentes da pregação do Evangelho, que não dispensa os seus ouvintes no final da tarde, mas também distribui pão e peixe, tal qual vemos em Lucas 9:12-13. 

Marcos André Fernandes, Garanhuns (PE), há 22 anos atuando no sertão nordestino, nos últimos anos aos pequenos aglomerados rurais, sítios, distritos, povoados, assentamentos. É membro da Quarta Igreja Presbiteriana de Garanhuns e integrante da Missão Sal da Terra.

 

Por Jénerson Alves

Eu agradeço demais
Que a vida não me atrasa,
Por viver na mesma casa
Onde moraram meus pais.
Não tenho fogão a gás,
É de lenha o meu fogão,
E as chamas na brasa dão
À comida mais sabor
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.
 

Sou grato a Deus por falar
Nordestinês genuíno,
Que pixote é pequeninno,
Dar pra frente é desarnar,
Dar massada é demorar,
Repreender, dar carão,
Palavras que não estão
Na gramática do doutor
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.
Eu sou grato o tempo inteiro
Por conhecer uma matuta
Que para provar da ‘fruta’
Tive de casar primeiro.
É todo ano um herdeiro
Que vem desta relação,
Não penso em separação,
Pois só aumenta o amor.
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

Eu ainda me derreto
Ouvindo som de viola,
Ao invés de Coca-cola
Tomo chá ou café preto.
Meu cinema é um folheto
De João Grilo ou do Pavão,
Sem anime do Japão
Nem filme de Vingador.
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

Eu sei que a ciência trouxe
Cura, remédio e vacina,
Mas prefiro a medicina
Que na natura formou-se.
Eu tomo chá de erva doce
Que faz bem à digestão,
E o de folha de mamão
Elimina até tumor!
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

Sou grato pela igrejinha
Com quatro bancos mofados
E os irmãos desafinados
Cantavam a noite todinha.
Aquela igreja não tinha
Programa em televisão,
Mas quem pregasse um sermão
Falava no Salvador
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

Glorifico o Pai Eterno
Com cordel e com cantiga,
Mas quando a seca castiga
E eu quase me desgoverno,
Do Céu, Deus manda o inverno
E as nuvens, cor de algodão,
Curam as feridas do chão
E a minha fé no Senhor.
Agradeço ao Criador
Porque nasci no Sertão.

De TV nunca fui fã,
Celular nem notebook,
Não ligo pra Facebook,
WhatsApp ou Instagram.
Mas vejo o Sol da manhã
Raiando na imensidão
E a selfie da perfeição
No desabrochar da flor.
Agradeço ao Criador
Por ser filho do Sertão.

 

• Jénerson Alves é jornalista, membro da Igreja Batista Emanuel em Caruaru (PE) e presidente da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel (ACLC).

Solo ressecado próximo ao rio Nilo Branco, em Cartum, Sudão. Foto: Banco Mundial/Arne Hoel

No dia 22 de abril, considerado como o Dia Internacional da Mãe Terra, a ONU Meio Ambiente lançou o prêmio “Jovens Campeões da Terra”, iniciativa que visa a apoiar projetos de defesa do meio ambiente desenvolvidos por jovens entre 18 e 30 anos. As inscrições podem ser feitas até 18 de junho.

A plataforma permite que jovens divulguem invenções tecnológicas e modelos de negócio inovadores para melhorar a saúde do planeta. A iniciativa pretende conter o discurso negativo sobre o meio ambiente e inspirar a próxima geração de líderes ambientais. O prêmio é patrocinado pela empresa Covestro.

A cada ano, seis jovens — um de cada região global da ONU Meio Ambiente — será nomeado Jovem Campeão da Terra. Os vencedores receberão cada um 15 mil dólares em financiamento, assim como treinamento intensivo para ajudá-los a dar andamento às suas ideias. Continue lendo →

Por Priscila Mesquita
Viagem pelo rio Negro apresentará iniciativas missionárias entre ribeirinhos e indígenas

Uma viagem de 12 dias pelo rio Negro para conhecer iniciativas missionárias existentes entre ribeirinhos e indígenas do Norte do País. Essa é a proposta da “Expedição Transcultural”, lançada neste mês por um grupo de participantes do próximo encontro regional do Conselho de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas (Conplei).

A próxima edição será realizada na cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas (a 850 quilômetros de Manaus), de 20 a 24 de julho de 2017. Os organizadores aguardam um público estimado em 3 mil participantes de diversas etnias existentes no Norte do Brasil, que terão a oportunidade de trocar experiências e aperfeiçoar sua liderança.

De acordo com o pastor Alcedir Sentalin, que há 23 anos lidera iniciativas missionárias entre os ribeirinhos e indígenas do Estado, a proposta da Expedição Transcultural é reunir um grupo de 20 pessoas interessadas em conhecer mais sobre o trabalho missionário na região. Continue lendo →