Por Gladir Cabral

Autran Dourado, em sua obra “O Risco do Bordado”, propõe a escrita do romance como metáfora da bordadura. Refletindo sobre o mistério da memória e os caminhos e descaminhos da vida, já quase ao final da história, o narrador pondera: “Mas de um homem sempre alguma coisa fica, quando nada nas lembranças, esperando a ressurreição. Feito dizem: Deus é que sabe por inteiro o risco do bordado” (1981, p. 155). Utilizando essa mesma metáfora para entender a obra “Dois Irmãos”, pode-se dizer que Milton Hatoum, por meio de seu narrador, tece uma grande obra de urdidura.

Em sua delicada e complexa tapeçaria, Hatoum utiliza muitos fios de narrativas clássicas, bíblicas, como a história dos irmãos Esaú e Jacó (Yaqub), que me parece ser o arcabouço estruturante da obra. Nela estão presentes o conflito entre irmãos, as preferências dos pais, os efeitos da superproteção, as manipulações da mãe, a cumplicidade dos filhos, a contenda da mãe com as possíveis noras e o reverso da fortuna.

A história da família de Halim se alinha com a história da cidade de Manaus e com a história do Brasil. No romance, uma comunidade de imigrantes libaneses convive, em plena Manaus do século 20, com as culturas locais, dos curumins, da floresta, das chuvas intermitentes, das frutas e peixes do Amazonas. Entretanto, mais do que literatura regional, “Dois Irmãos” lida com temas universais, como o amor e o perdão.

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Por José Carlos Brito

Flor do Mandacaru (Rogério Avelino)

Sou natural de São Paulo e há 10 anos moro no nordeste, onde desenvolvo projetos missionários e de desenvolvimento comunitário. Trabalho diretamente no sertão há 5 anos. Geralmente, quando recebemos equipes que vem nos apoiar a curto prazo ou quando viajo para divulgar o trabalho que estamos realizando, uma pergunta sempre surge nas rodas de conversa: “Em meio à seca severa, tanta pobreza e injustiça, existe esperança para o Sertão?”.

Sei que para os cristãos mais fervorosos, questionar isso seria uma prova de pouca fé. Claro que existe esperança, nosso Deus é o Deus do impossível! Mas para quem convive com a realidade das mazelas do semiárido, por vezes, a percepção que tenho é que o problema não é “Deus ser o Deus do impossível”, e sim, nossa justiça que é comparada a um trapo de imundice!

Comecemos com a realidade sertaneja que nos cerca hoje. De todos os 1.133 municípios que compõem o semiárido nordestino, nenhum tem a média nacional de IDHM1 brasileira, ou seja, todos os municípios do sertão estão abaixo da media nacional em relação ao desenvolvimento humano. Olhando de forma específica, o município onde moro, Betânia do Piauí, cerca de 80% da população está vulnerável à pobreza2, e cerca de 40% dos jovens acima de 18 anos são analfabetos3. Esse número não é tão alarmante quando constatamos que cerca de 50% dos analfabetos do Brasil estão no nordeste4.

Poderíamos levantar inúmeros dados constatando o abismo social que vive o sertão, mais como nosso assunto é esperança, a pergunta que fazemos é: o que está sendo feito para mudar esse quadro?

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Por Jénerson Alves

Machado de Assis (1839 – 1908)

Se estivesse vivo, o maior escritor brasileiro completaria 178 anos em junho. Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho de 1839, na cidade do Rio de Janeiro – que, na época, contava com cerca de 300 mil habitantes. Mais do que um hábil autor, Machado de Assis é exemplo de uma pessoa que deu a volta por cima. Filho de um pintor mulato e de uma lavadeira portuguesa, não realizou seus estudos regulares. Além das condições sociais, ele precisou enfrentar adversidades de ordem fisiológica, tendo em vista que era mulato, gago e epilético.

Porém, um dos fatos que mais chama a atenção em sua biografia é o amor vivenciado em seu matrimônio. Em 1869, casou-se com Carolina Xavier de Novais, com quem passou quase a vida inteira. Ela era portuguesa e quatro anos mais velha do que ele. O casal não teve filhos. Carolina faleceu em 1904, com 69 anos de idade. Devido à morte da esposa, Machado foi tomado por uma grande tristeza e saudade. Conta-se que ele manteve a casa do mesmo jeito que era quando ela estava viva. E fazia as refeições sempre com dois pratos à mesa. O escritor morreu em 1908, curiosamente também com 69 anos.

Do ponto de vista literário, Machado de Assis é a mais proeminente figura do Realismo – escola literária caracterizada pelo racionalismo e por uma análise descritiva dos problemas da vida. Uma das marcas do estilo de Machado é a ironia, entrecortada por um humor velado, como pode ser conferido em ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, publicado inicialmente em 1881. Ele consegue perscrutar a hipocrisia da elite carioca e, assim, adentra nos porões da existência humana, abordando assuntos intrínsecos a todos os homens.

Observando a vida e o legado do escritor, é possível fazer uma relação com um dos profetas menores do Antigo Testamento. No oitavo século antes de Cristo, o profeta Oseias apontava a hipocrisia do povo de Israel, que estava em declínio moral e espiritual. Ao contrário da sutileza dos textos machadianos, o livro bíblico apresenta um tom objetivo, em consonância com o fator profético da obra.

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Os grupos focais são usados para descobrir o que um determinado grupo de pessoas pensa sobre uma questão. Uma discussão de grupo focal é realizada com um pequeno grupo de pessoas (geralmente cerca de 10-20). Ela é liderada por um facilitador.

Por que realizar uma discussão de grupo focal?

Alguns usos das discussões de grupo focal são:

  • Ajudar uma comunidade a identificar suas necessidades no início de um projeto;
  • Pesquisar uma questão específica – por exemplo, por que as meninas de uma determinada área estão deixando de ir à escola;
  • Ajudar a monitorar, revisar e avaliar nosso trabalho, permitindo-nos saber como está sendo a experiência da comunidade com ele.
  • As discussões de grupo focal podem ser úteis para obter as opiniões das crianças ou pessoas com baixos níveis de alfabetização, as quais teriam dificuldade para fazer comentários por escrito.

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A realidade das comunidades ribeirinhas amazônicas é bem precária no que se refere a serviços públicos de saúde. Uma comunidade próxima a Pauiní (sul do Amazonas), às margens do Rio Purus, recebeu uma única visita médica no período de quatro anos. Essa triste realidade foi constatada pelo jovem casal de missionários, Eduardo e Donária Magrin, que vivem na região há cerca de um ano.

Eduardo e Donária Magrin

Visitando as comunidades e conversando com os ribeirinhos, o casal sentiu a necessidade de fazer algo para ajudar os moradores. Assim surgiu o projeto Rio de Esperança que, além de focar na plantação de igrejas autóctones, pretende montar uma farmácia itinerante em um barco, para atender os ribeirinhos com medicamentos, serviços básicos e educação preventiva, ampliando as ações que o casal já vem desenvolvendo desde que e mudaram para a região.

Durante o Vocare 2017, que ocorreu de 21 a 23 de abril em Maringá (PR), o Rio de Esperança foi escolhido entre vários para projetos para receber um prêmio de 25 mil reais. O valor será destinado para equipar o barco com a estrutura e medicamentos necessários para beneficiar mais pessoas.

Em entrevista concedida ao Paralelo10, o casal conta em mais detalhes como deixaram seus estados, Tocantins e Paraíba, para viver no interior do Amazonas e como conseguiram gravar o vídeo e se inscrever no VocTalk faltando menos de uma hora para o encerramento das inscrições. É como eles dizem: “Só pode ter sido coisa de Deus”. Continue lendo →

Poesia fotográfica, por Zenilda Lua e e John Medcraft

Estenda o teu olhar nas minhas quermesses
prenda tua alma na forquilha de meus sublimes
“que Eu te guiarei continuamente
serás como um jardim regado por um manancial
cujas águas nunca faltam.”

Zenilda Lua

Foto: John Medcraft

• Zenilda Lua, nascida em Patos (PB), reside atualmente em São José dos Campos(SP). Atua como Assistente Social, escreveu livros de poemas e é mãe de Brisa.

• John Philip Medcraft, nascido em Londres, naturalizado brasileiro, mora em Patos (PB) há 45 anos. É pastor presidente da ACEV (Ação Evangélica) com compromisso com missão integral nos sertões nordestinos. Apaixonado por Jesus, Betinha, Caatinga e QPR (idealmente nesta ordem).

ACONTECEU COMIGO – MEU ENCONTRO COM JESUS

“Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério.” 1 Tm 1.12

Lindelvan Costa, indígena da etnia Baré e missionário da WEC Amazônia/Projeto Amanajé (Foto: arquivo pessoal)

Quando paro para meditar nesse texto do apóstolo Paulo a Timóteo, o que me vem à memória lendo é a minha trajetória de vida. Esse versículo me traz a certeza e a plena convicção do chamado de Deus na minha vida, nos versos de 12 a 17 Paulo conta em resumo a sua história de vida antes de sua conversão, isso me faz lembrar do estado em que me encontrava quando conheci o evangelho de Cristo, em 2006.

Primeiramente irei me apresentar. Meu nome é Lindelvan, sou indígena da etnia Baré, nasci em uma comunidade indígena no interior de São Gabriel da Cachoeira, município do Amazonas, região do Alto Rio Negro. Vivi nessa comunidade até os meus oito anos de idade. Foi então que meu pai decidiu nos trazer, eu e meus irmãos, para a cidade; com o objetivo de nos dar uma condição de vida melhor, nos capacitar, nos dando uma boa educação escolar, pois não tínhamos esse privilégio de uma boa condição de estudo na comunidade indígena.

Passei a maior parte de minha vida na cidade de São Gabriel da Cachoeira, por isso perdi um pouco de minha identidade cultural, pois passei a vida mais no contexto do não indígena do que do indígena. Fiz o ensino médio e comecei a trabalhar, infelizmente tive a infelicidade de cair no vício do alcoolismo e isso me trouxe muita dor e frustração. Quando criança sonhava em estudar e ser alguém importante na vida, mas, esses planos foram destruídos e o instrumento dessa destruição foi a dependência química, que acabou com a minha vida. Acho lindo um texto que Jesus diz; o ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; “eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.

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