Por Edgard Matsuki, da Agência Brasil

Estavam no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das cabras arruinado e também deserto, a casa do vaqueiro fechada, tudo anunciava abandono. Certamente o gado se finara e os moradores tinham fugido.

Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil

Em um município no qual até órgãos públicos sofrem com a escassez de água, a população de Boa Viagem (CE) é a principal atingida pela seca. Moradora de uma comunidade rural chamada Riacho dos Porcos, a produtora Francisca Rodrigues Amorim, 39 anos, teve que mudar a previsão de plantação por causa da falta de chuvas. “Quando chove a gente planta milho e feijão. Mas como está na seca, a gente acaba plantando coisas menores como acerola”, diz.

Ela vive com mais sete pessoas e a casa é abastecida semanalmente com água de caminhões-pipa. “Eles enchem a cisterna que foi colocada pelo governo e a gente tem que poupar água. Banho é só na garrafa”, ilustra. Mesmo poupando, nem sempre a água dá para a semana toda. “Agora, por exemplo, estamos há 15 dias sem receber água. Aí o jeito é pedir para os vizinhos”, afirma.

Mesmo considerando a situação de falta de água ruim, ela acredita que na cidade – onde vivem 32 mil dos 52 mil habitantes – é pior. “Lá as pessoas não têm cisternas para serem abastecidas. Aí são obrigadas e ir com o balde pegar água no chafariz. Elas carregam o que podem, mas de vez em quando dá briga”, diz.

A produtora é uma das brasileiras que vivem em um cenário de “seca excepcional” ou S4, como define a Agência Nacional de Águas (ANA), por intermédio de um sistema chamado Monitor das Secas. A excepcionalidade é caracterizada pela situação de emergência na cidade, falta de água sistemática em reservatórios, córregos e poços, perdas de plantações e seca generalizadas nas pastagens. Palavras e siglas não conseguem dar a real dimensão do sofrimento causado pela seca, mas são importantes no alerta para políticas públicas e necessidades de providências.

O diagnóstico é realizado desde 2014 pelo projeto Monitor das Secas, coordenado pela ANA. Mensalmente, um mapa é publicado mostrando quais áreas da Região Nordeste do país estão em algum nível de seca. Os estágios são S0 (Seca Fraca), S1 (Seca Moderada), S2 (Seca Grave), S3 (Seca Extrema) e S4 (Seca Excepcional) — do índice mais fraco ao mais forte, respectivamente.

Classificação das secas

S0 – Seca Fraca: Entrando em seca: veranico de curto prazo diminuindo plantio, crescimento de culturas ou pastagem. Saindo de seca: alguns déficits hídricos prolongados, pastagens ou culturas não completamente recuperadas.

S1 – Seca Moderada: Alguns danos às culturas, pastagens; córregos, reservatórios ou poços com níveis baixos, algumas faltas de água em desenvolvimento ou iminentes; restrições voluntárias de uso de água solicitadas.

S2 – Seca Grave: Perdas de cultura ou pastagens prováveis; escassez de água comuns; restrições de água impostas.

S3 – Seca Extrema: Grandes perdas de culturas / pastagem; escassez de água generalizada ou restrições

S4 – Seca Excepcional: Perdas de cultura / pastagem excepcionais e generalizadas; escassez de água nos reservatórios, córregos e poços de água, criando situações de emergência.

Foto: Prefeitura de Boa Viagem

Segundo os últimos dados disponíveis, referentes a novembro de 2017, partes dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco e da Bahia encontravam-se em situação de seca excepcional, a mais grave das classificações.

A principal função do Monitor das Secas é justamente alertar sobre quais são as regiões que estão passando por dificuldades com estiagens. “O nosso levantamento permite a obtenção de um retrato fiel das condições de secas para que ações governamentais sejam tomadas nas regiões para mitigar os efeitos”, explica Raul Fritz, supervisor da unidade de Tempo e Clima da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), e um dos responsáveis pela validação de dados do projeto.

Fritz conta que o monitoramento tem a participação de várias instituições do Nordeste e não envolve um número simples. Segundo ele, há uma rede de pluviômetros que medem o nível de chuvas e observadores voluntários que fazem a mensuração em 500 locais do Nordeste. Com esses valores, são cruzados dados de imagens de satélites para formar o mapa Monitor das Secas. “Por fim, fazemos uma reunião mensal entre os estados e coordenador da ANA para validar o mapa final”, explica o supervisor.

Dentre os estados monitorados pelo projeto, o Ceará é um dos que mais sofrem com a estiagem na região: durante a maior parte do ano, 100% de seu território registram algum estágio de seca. Em outubro de 2017, 24% do estado estavam em estágio de seca excepcional (S4). De acordo com a Funceme, uma das cidades que mais sofrem com a estiagem é Boa Viagem, a cerca de 200 quilômetros de Fortaleza.

Nota: Trecho extraído da reportagem especial “Seca excepcional – O retrato do sofrimento pela falta de água” publicado no site da Agência Brasil. Clique aqui e leia a reportagem na íntegra.

  1. Pela misericórdia de Deus aqui no RN trem chovido bem. Os reservatório captaram águas de chuva. Já se observa o verde nas terras dos agricultores.

  2. Que bênção, Jean!
    Que o Senhor continue derramando chuva aí e nos lugares que ainda precisam.

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