Uma jovem indígena que gosta muito de ler, escrever, viajar, conhecer pessoas e lugares novos, e, claro, passar tempo com os amigos e com a família. Inikiru Suruwahá tem vinte anos, é da etnia Suruwahá e um de seus maiores sonhos é estudar para ajudar o seu povo – ela é a segunda pessoa de sua etnia a concluir o ensino médio. Embora cheia de vontade de viver, Inikiru também é uma sobrevivente, cuja infância foi marcada por tristes acontecimentos, como ela mesma descreve:

Inikiru Suruwahá, 20 anos | Foto: Katya Volpato

“Vim de um povo muito bonito, cheio de cor e graça, que está isolado no sul do Amazonas, próximo ao rio Purus. Sou filha de Jadabu e Ibini. Infelizmente, não conheci meu pai e tive minha mãe apenas por cinco anos – os dois se suicidaram. Isso é uma coisa que, tristemente, acontece com frequência em minha comunidade. Depois que meus pais se foram, sofri bastante por muito tempo, até que com nove anos fui salva por minha tia Muwaji. Ela me trouxe para a cidade e isso me deu oportunidade de viver, ver o mundo, fazer escolhas e lutar para ser feliz.”

Tanto o pai como a mãe de Inikiru se mataram seguindo uma tradição do seu povo[1]. “Não conheci meu pai, mas minha avó me contou que ele se suicidou porque um amigo havia se suicidado e ele não suportou a tristeza. Minha mãe sempre foi muito cuidadosa e levava a gente para todo o canto. Um dia, estávamos pegando frutas no meio da mata quando chegou uma pessoa e avisou que alguém tinha tomado timbó. Minha mãe foi correndo na frente para ver o que tinha acontecido. Quando chegamos minha mãe já estava praticamente morta. Ela não aguentou a dor de ver que a amiga havia se matado, e se matou também. Neste mesmo dia, muitas outras pessoas se mataram, inclusive minha avó”, recorda Inikiru. Entre 1980 a 1995 foram registrados 38 óbitos por suicídio entre os Suruwahá[2]. A jovem acrescenta que a prática possivelmente acontece até hoje, mas como os Suruwahá vivem semi-isolados, ninguém sabe de nada.

Inikiru deixou sua aldeia aos nove anos de idade. No início, a principal dificuldade foi se adaptar a alimentação e se acostumar a usar muitas roupas. Há mais de dez anos vivendo na cidade, a jovem ainda sente a falta dos familiares e de quando brincava livre no rio. Atualmente ela vive em Cuiabá, Mato Grosso, com sua família não indígena. Em entrevista ao blog Paralelo 10, Inikiru Suruwahá fala sobre o seu encontro com Jesus, conta os desafios que os indígenas enfrentam vivendo na cidade, e, como mulher indígena, ela deixa um recado à sociedade brasileira.

Como era sua vida e seu dia-a-dia na aldeia?

Muwaji (tia) e Inikiru | Foto: Katya Volpato

Minhas lembranças são quando minha mãe já tinha partido. Ficamos sendo cuidados pela família. Sempre me davam comida, mesmo assim eu sentia muita fome porque para os órfãos nunca era o melhor, só davam mais as sobras. Ficava feliz por meu irmãozinho ser menino, pois assim ele tinha mais cuidados. Depois fui aprendendo a cuidar de mim, arrumar minha comida. Eu brincava também, criança sempre acha um jeito de brincar. Depois de um tempo minha irmã mais velha deixou a gente, não aguentava mais cuidar de nós. Quando isso aconteceu, eu sofri bastante. Como eu não tinha ninguém para me defender, as pessoas se achavam no direito de falar de um jeito muito feio comigo, com muito desrespeito. Eu também fui machucada no meu corpo de muitas formas. Muitas vezes sentia raiva por meus pais terem se suicidado, porque sei que se meus pais estivessem vivos, isso não aconteceria. Eu não entendia como eles podiam ter abandonado a gente. Quando leio que os antropólogos dizem que temos de ficar isolados, que não pode interferir em relação às mortes, que tudo isso é cultural, tudo é normal, fico inconformada. Não é normal, dói muito.

Quais lembranças você guarda dos seus pais?

Como eu disse, não conheci meu pai. Da minha mãe tenho muitas lembranças. Ela sempre foi muito carinhosa, cuidadosa, bonita e forte. Na aldeia como em muitos lugares as mulheres não são valorizadas, depois que meu pai morreu foi difícil para minha mãe. Ela não ganhava caça e peixe de outras famílias, ela mesma tinha que lutar para que a gente tivesse alimentos. Penso nessas coisas todas e já choro. Guardo uma foto dela comigo.

Há quase onze anos vivendo na cidade, longe do seu povo, como você faz para manter viva sua cultura e sua identidade indígena?

Guardo minhas memórias e falo sobre elas. Sempre que tenho oportunidade falo sobre a comida da aldeia, nossos enfeites e, às vezes, pinto minha pele com urucum vermelhinho. Falo na minha língua com minha tia e primos para não esquecer as palavras, e o que elas falam da nossa história e costumes. Fiquei muito feliz em participar do filme A Margem do Universo, em 2015. O filme não é de contexto indígena. Na trama, dois seres alienígenas desembarcam na Terra e o que seria uma rotineira investigação arqueológica em um planeta com população extinta, se torna a descoberta do maior tesouro da Galáxia. Eu traduzi todos os diálogos entre os alienígenas para o suruwahá e ensinei os atores as falas. Foi um trabalho minucioso e complexo, que exigiu muito tempo e revisões. O fato de eles falarem uma língua indígena, sendo alienígenas, é uma critica social, pois nós, indígenas, somos vistos, muitas vezes, como seres de outro planeta, e falamos o que ninguém entende ou quer ouvir.

Você pensa em voltar para sua aldeia algum dia?

Inikiru e sua família não indígena

Quero muito voltar para visitar minha família! Mas tenho alguns medos, foram anos muito difíceis após a morte dos meus pais, me sinto muito frágil. Estou me tornando uma pessoa mais forte e trabalhando minhas emoções para ter condições de voltar lá, rever a todos e ainda me manter firme.

Como foi seu encontro com Jesus?

Eu já tinha ouvido falar sobre Jesus muitas vezes e ficava me perguntando: “Como as pessoas podem acreditar em uma coisa que não podem ver? Eu teria vergonha!” Mas um dia, Ele mesmo se mostrou para mim. Não consigo explicar exatamente como foi, mas senti algo como nunca tinha sentido na minha vida. Eu só conseguia chorar, mas era um choro de alívio. Na hora, Jesus me trouxe a lembrança de um dia que eu estava na floresta com meus tios e me perdi deles. Fiquei sozinha e com muito medo, podia aparecer uma onça, uma cobra, sei lá. Mas enquanto eu ia me lembrando desse momento, Jesus falou muito claro dentro de mim, que nem mesmo naquele dia eu estive sozinha – Ele estava lá comigo. Lembro-me de ir seguindo o rio até achar meus tios. Era Ele me guiando. Meu coração se encheu de uma paz, igual quando estamos longe de casa muito tempo e voltamos. Depois disso, Ele sempre me conforta e ensina.

Conhecer a Deus e sua Palavra mudou algo na sua visão com relação ao seu povo e à sua identidade indígena?

Na verdade, conhecer Deus fez eu me sentir mais feliz em ser indígena. Agora sei que Ele criou cada povo de um jeito especial e que temos muito valor! Hoje, acredito que podemos viver uma vida melhor, mantendo nossos costumes, língua, danças e música, e aprender muito sobre as outras culturas. Deus não quer transformar a gente em não indígenas. Ele deseja que não tenhamos sofrimentos. A dor de muitas mortes em minha comunidade poderiam ser evitadas por meio de informação e mais perspectiva de um amanhã!

 Você já sofreu preconceito por ser indígena?

Sim! As pessoas no Brasil ainda têm [preconceito]. Às vezes é meio escondido, mas existe. As pessoas confundem gentileza com ignorância. Muitas vezes, as pessoas vêm falar comigo fazendo mímica e falando alto, como se eu não pudesse simplesmente compreender. Era para ser engraçado, mas não é, porque mostra que as pessoas não sabem nada sobre nós e nossa capacidade. Além disso, ainda tem o pensamento terrível de que somos inferiores no aprender. Uma vez, na escola, uma professora de inglês apontou para mim na frente de todos os alunos, e disse: “Acredita que conheci um índio que fala inglês melhor que eu?”. Todo mundo ficou me olhando, me senti estranha, mas só depois percebi que estava sofrendo preconceito. Tem gente que me vê estudando, planejando o futuro, usando a internet e dizem coisas como: “Ah, ela nem é mais tão índia. Já fala português, usa roupa, internet…”. Não falamos para um americano que aprende português: “Olha, ele não é mais tão americano assim…”

Você acha que o indígena que vem para a cidade buscar seus objetivos tem mais dificuldades para conquistá-los do que uma pessoa não indígena?

Claro! Não adianta falar em igualdade se não admitir que os indígenas estão em desvantagem. Os não indígenas nascem nesta cultura, nesta língua. O tipo de educação formal, que eles recebem aqui, não temos na aldeia. Então, temos que lutar muito mais. Para nós, existem muitos muros a derrubar.

Com quais desafios e dificuldades os indígenas que vivem na cidade, como você, precisam lidar?

Como eu disse, a gente está em outro universo, batalhando para prender tudo, desde a língua até como as pessoas sentem e pensam. Isso, geralmente, faz um abismo muito grande. Além disso, tem a falta de informação e preparo da sociedade não indígena sobre nós, que mantem o preconceito. É difícil viver e estudar em uma sociedade onde ou te tratam como inferior ou esperam sempre o pior de você.

Como mulher indígena, que recado você gostaria de deixar para a sociedade brasileira?

Eu pensava que só em minha comunidade a mulher não tivesse valor igual ao do homem. Sei que existem diferenças, mas o valor tinha que ser o mesmo. Aqui eu percebi que não. Todas as culturas já feriram as mulheres, não protegeram ou cuidaram, proibiram de fazer coisas que elas têm capacidade só por serem mulheres. É triste, mas muitos cristãos também acabam tendo atitudes que colocam a mulher em um lugar inferior, nunca vi Jesus fazer isso na Bíblia. Meu recado é: Deixe a mulher falar, ela tem uma voz; Deixe a mulher fazer, ela tem capacidade; Deixe a mulher sonhar, ela pode realizar; E deixe a mulher ser amada e respeitada, você consegue, se tentar de verdade. Jesus te mostra como fazer.

*****

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Notas:
[1] Os Suruwahá também são conhecidos como “povo vermelho”, por causa do costume de pintarem o corpo dos pés à cabeça com urucum, ou como “povo do veneno”, devido à tradição de cometerem suicídio ingerindo o timbó, uma raiz venenosa usada para matar peixes.
[2] https://brasil.antropos.org.uk/ethnic-profiles/profiles-s/245-258-suruwaha.html
  1. Elizangela Fontenelle

    Bênção. Que nosso Deus cada dia mais e mais com todas as suas bênçãos

  2. Madriz zittel

    Muito bom essas verdades escrita de uma indígena que luta e é uma voz da realidade das mulheres em cause todas as cultura….Amanha é comemorado o dia da Mulher…Essa entrevista é um presente pra nós mulheres… .Que mais vozes se levantem

  3. Genivaldo Sampaio

    Muito bom Inikiru, foi uma satisfação ter te conhecido e ter aprendido um um pouco da sua língua. A proposta do filme de usar sua língua foi realmente uma grande idéia do Tiago Esmeraldo para de alguma forma ajudar a eternizar sua cultura. Parabéns pela matéria.
    Genivaldo Sampaio

  4. Tathiana Oliveira de Andrade

    Que história linda. Obrigada por compartilhá-la, Ultimato!!! 🙂

  5. Priscila Jodas

    Amei a história! Que Deus te abençoe, te use e te leve a lugares altos!

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