Por Stephanie Lira

Não deixemos que esse trabalho, que exige tanto esforço, se torne apenas um passeio. É preciso investir, não só dinheiro, mas a alma naquilo que fazemos.

Comunidade Terra Preta, Amazonas, 2017 (Arquivo pessoal)

Para quem fazemos, por quem fazemos e porque fazemos. Essas são as três perguntas que devemos responder antes de nos envolvermos em missões. É fato de que o chamado de todo cristão é ser um missionário, seja na função de facilitador ou colocando a mão na massa. Mas é fato também que é muito fácil se perder nesse caminho, caso não tenhamos bem esclarecidas as respostas a essas três perguntas.

Estamos em uma época em que o trabalho missionário tem sido muito abençoado pelo desenvolvimento de novas tecnologias. Poucos anos atrás, 1960, por exemplo, a internet ainda não existia e muitos missionários precisavam (sem exceções) fazer longas viagens para que suas vozes fossem ouvidas. Hoje, a realidade é bem diferente. Mas não para todos.

O Amazonas possui um território com cerca de 1500 quilômetros quadrados (18,5% do território nacional). Existem nele várias áreas ainda não exploradas, outras que se tornaram reservas naturais. Por conta destas características, existem muitas regiões no Amazonas que nem sequer possuem energia elétrica, não possuem gerador e nenhum sistema de tratamento da água para o consumo.

Muitos homens e mulheres dedicam grande parte da sua vida para realizar um trabalho relevante, eficaz e consistente nessa região. Não é um serviço fácil. Requer comprometimento, amor e um entendimento verdadeiro do que precisa ser feito e qual a melhor forma de fazer. Não basta vontade, é preciso muito esforço.

Passei a conhecer melhor esta realidade quando ingressei no mundo de viagens missionárias, promovidas por organizações que trazem estrangeiros para comunidades ribeirinhas do interior do Amazonas, a fim de realizar trabalhos como: construção de escolas, atendimento odontológico, evangelismo, treinamentos e afins. Nas primeiras vezes eu estava tão emocionada em conhecer a realidade que não refleti muito a respeito do que estava acontecendo. Com o passar do tempo aquela experiência foi se tornando algo mais comum na minha vida, e, como tudo que se torna comum, deixou de ser extraordinário. Quando uma experiência passa de novidade para rotina, passamos a enxergar detalhes que, antes, no calor das emoções, passavam despercebidos.

Comecei a reconhecer padrões em algumas daquelas viagens. Tínhamos um itinerário pronto, sabíamos o que fazer ao descer do barco e ao voltar. Visitávamos várias comunidades e fazíamos, muitas das vezes, trabalhos rápidos, que não tinham chance de serem tão eficazes.

Algumas vezes tive a oportunidade de retornar a algumas comunidades. Sinceramente, não consegui enxergar frutos do trabalho feito anteriormente. É claro que, às vezes, o trabalho de Deus é sutil, é no coração do homem. Como uma semente que, talvez, demore um pouco a germinar. Eu não quero dizer que a metodologia é errada ou ineficaz. Tão pouco minhas palavras são voltadas para as organizações, que são geridas por pessoas que se dedicam há anos para algo extremamente complexo funcionar.

Na verdade, essas palavras são para mim e você – nós que vamos como visitantes, tradutores, médicos, professores de EDB. Estamos indo com a intenção de marcar vidas, plantar uma palavra verdadeira, mudar o caminhar de uma comunidade para que se volte em direção a Jesus? Será que conhecemos o povo com quem estamos lidando, e que, definitivamente, possui costumes muito diferentes dos da cidade grande? Será que entendemos os propósitos daquele por quem estamos fazendo? Será que sabemos o porquê que o nosso trabalho ali é tão importante?

Se não estivermos preparados com as respostas para as perguntas acima, uma viagem missionária pode se tornar apenas um passeio divertido em uma região exótica com gente diferente.

Muitos ribeirinhos estão tão acostumados com estas visitas que tudo o que eles esperam é receber uma escova de dentes antes de voltarmos para casa, satisfeitos por termos feito “a nossa parte”. Não deixemos que esse trabalho, que exige tanto esforço, em um lugar tão complicado, e, muitas vezes, desconhecido, se torne apenas um passeio. É preciso investir, não só dinheiro, mas a alma naquilo que fazemos. Estejamos preparados fisicamente e psicologicamente para o que falar e por onde andar. Existem pessoas reais com necessidades reais que, às vezes, estão cansadas de receber turistas. O que elas precisam é de uma mensagem de conforto. Vamos ser essa mensagem?

• Stephanie Mendonça de Lira, 23 anos, estudante de Letras, trabalha no Setor de Pós-graduação e Pesquisa da Reitoria da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), atua em um projeto de educação infantil pela organização Justiça e Misericórdia Amazonas (JMA) e participa de viagens missionárias como tradutora desde 2015.

  1. Antonia Leonora van der Meer

    Gostei muito da reflexão da Stephanie. É bom envolver-se em projetos missionários, mas com um compromisso sério com o Senhor, e uma busca constante de poder exercer uma influência além de uma alegria passageira para o povo que visitamos e uma emoção de realização pelo serviço feito e a aventura realizada pelos missionários de curto prazo. Que Deus nos dê compromisso, dependência dele, e amor para servir com humildade.

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