Por Jénerson Alves

Confesso que tenho profunda afeição pelas palavras. Até porque, sei como é não conseguir manejá-las bem. Nasci com a língua presa, tive de fazer cirurgias quando criança para conseguir falar. Mesmo assim, ainda apresentei algumas sequelas na fala e me submeti a várias sessões de fonoaudiologia. Neste período, não eram poucos os apelidos que recebia dos colegas em sala de aula, pois eles nem sempre entendiam o que eu desejava verbalizar. Somente com muito esforço consegui controlar minha fala e tornar meus discursos mais inteligíveis.

Aprendi a ler sozinho, aos quatro anos de idade. Livros, cadernos, cordéis e revistas em quadrinhos fazem parte das mais diversas cenas da minha infância e adolescência. A escrita foi se tornando a melhor maneira de me comunicar. Já nos primeiros anos do Ensino Fundamental, destacava-me nas produções escritas, recebendo elogios de professores e estudantes. Isso aumentou ainda mais após eu despertar para a poesia. Escrevendo cordéis, constatei que era possível deixar fragmentos da minha alma em pedaços de papel.

Desta feita, desde cedo eu decidira que deveria cursar Jornalismo. E foi nas cadeiras da faculdade, logo nas primeiras aulas, que aprendi que “comunicar é tornar comum”. Assim, mesmo após formado, meu desafio através das matérias sempre foi narrar, esclarecer e analisar os fatos, buscando tornar a compreensão dos mesmos acessível às mais distintas camadas da sociedade. Não foram raras as vezes que utilizei de um recurso denominado “didatismo”, de modo que os textos assumiam um tom praticamente professoral, com pontos de intersecção entre o jornalismo e o ensino. O mesmo pode ser dito sobre os cordéis. A rima e a métrica da literatura popular, para mim, são elementos que auxiliam na compreensão de temas, que podem ser abordados tanto dentro quanto fora da sala de aula, onde o chão da existência agiganta-se como mestre.

Se formos observar ao pé da letra, “ler” não é simplesmente a habilidade de percorrer com os olhos o que está escrito, reconhecendo as palavras. O ato da leitura vai além das letras e perpassa sensações, cenários, sentimentos e pessoas. Etimologicamente, a palavra “ler” tem origem no latim e o significado é advindo da agricultura, sendo incorporado a outras dimensões da existência. O vocábulo que deu origem à palavra é “legere”, cujo significado é “colher, escolher, recolher”. A imagem que se constrói é a do agricultor selecionando os melhores frutos durante o processo de colheita. Não por acaso, é essa a analogia que o Senhor Jesus Cristo faz sobre o Evangelho – o qual, após semeado em boa terra, é capaz de frutificar com perseverança (Lc. 8:15).

A partir dessa comparação, percebe-se que, biblicamente, a palavra não possui um valor “per se”, mas ele se consolida na existência. Esse fenômeno sempre chamou a minha atenção. Desde que me entendo por gente, acho linda a doutrina cristã de que a Bíblia é a Palavra de Deus. Percebo que a Trindade decide comunicar-se com o ser humano mediante um livro, repleto de poesias, narrativas, provérbios e parábolas. É como um pai que deixa um bilhete para um filho, ou um noivo que manda uma carta de amor para a noiva.

As palavras apresentam um papel importante na narrativa bíblica. No princípio, a Trindade cria todas as coisas por meio da Palavra. No percurso da história, o Verbo se encarna e vive entre a humanidade. No Apocalipse, é por meio de palavras que Aquele que dá testemunho garante que o triunfo no conflito cósmico (Ap. 21:20).

Seguindo essa perspectiva, é possível enxergar lampejos da apoteose da bondade, embora só venha a se manifestar plenamente com a volta de Cristo. Esses insights aparecem na vida de milhares e milhares de pessoas que se permitem serem feitas mensagem do Amor Divino. Pessoas que são mais do que informações de DNA. São linguagens de Deus diante de um mundo caótico. Palavras feitas de carne e osso.

É gente que carrega a Bíblia não somente nas mãos ou nos lábios, mas a tem diluída em todas as dimensões da existência, revestida de ternura e afeto. É gente que come do fruto que advém da língua (Prov. 18:20-21). É gente que conhece um Deus Poeta, que com amor escreveu a história da Criação e, não obstante, tornou-se Ele próprio a mensagem a ser transmitida.

Quanto a mim, quedo-me em oração diante do Eterno Autor. Minha súplica é tornar-me a mensagem a ser proclamada ao mundo, em carne e osso, e, inclusive, com palavras.

• Jénerson Alves é jornalista, membro da Igreja Batista Emanuel em Caruaru (PE) e presidente da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel (ACLC).

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