Por Jénerson Alves

 

Mesmo sem máquina do tempo,
Às vezes me dá vontade
De voltar para o passado,
Pr’os meus dez anos de idade.
Um período prazenteiro,
Que me faltava dinheiro
E sobrava felicidade.

Em uma simples cidade,
Numa humilde habitação.
Eu morava com meu pai,
Minha mãe e meu irmão.
A gente não tinha luxo,
Mas tinha pão para o bucho
E vivia em união.

Pra não ver televisão
Que exibia coisa vã,
Via a tela do horizonte
No espetáculo da manhã.
Meu cinema era um folheto,
E dum pedaço de graveto
Eu construía um Jiban.

Meus brinquedos eram pipa,
Bola, pião, baladeira…
Ao invés de McDonalds,
Eu comia macaxeira.
Não havia Coca-cola,
Porém suco de acerola
Tinha em nossa geladeira.

Lembro de uma Sexta-feira
Da ‘Semana da Paixão’,
Que meu pai, com muito amor
Com bastante devoção
Com carinho e com quilate,
Um ovo de chocolate
Deu pra mim e meu irmão.

Ao receber o presente,
Não parávamos de rir!
Envolto em papel brilhante
Com intenso reluzir,
Desenho, coelhinho e fita…
Uma coisa tão bonita
Que dava pena de abrir!

Minha mãe pra dividir
O doce tomou a frente.
Enquanto desembrulhava,
Nos dizia calmamente:
“Vão ganhar partes iguais,
Para não comer demais
Nem ficar com dor de dente”.

Foi dando o doce pra gente,
Que era este o seu encargo…
Mas depois foi estreitando
O nosso sorriso largo.
Todo o prazer durou pouco,
Porque o ovo era oco
E o chocolate era amargo.

Foi grande a decepção,
Acabaram meus encantos!
Meus desejos se frustraram,
Meus olhos verteram prantos,
Fiz muxoxo, murmurei,
Joguei o doce e fiquei
Amuado, pelos cantos…

Mamãe ficou com desgosto
Quando me viu desgostado,
O clima tornou-se tenso,
Papai ficou preocupado.
Meu irmão falou pra ele:
“Pai, dê uma surra nele,
Pr’ ele ser mais educado!”

(É porque naquele tempo
Menino ainda apanhava,
Era posto de castigo,
Corrigido quando errava.
Não que o pai fosse bruto,
Dava cascudo um minuto
E o dia inteiro beijava).

Na situação que eu estava,
Pai não ficou tresloucado.
Pediu calma pra mamãe,
Deixou meu mano calado,
Chegou em mim, no batente,
Bem devagar, simplesmente,
Ele sentou-se ao meu lado.

 
Falou para mim: “Meu filho,
Entendo seu aperreio!
Um ovo lindo por fora,
Mas por dentro muito feio.
Embrulho com formosura,
Mas miolo sem doçura,
Sem bombom e sem recheio…

Mas deixe eu dizer, meu filho,
Que a Páscoa não é coelhinhos,
Nem ovos de chocolate,
Nem peixes, nem pães, nem vinhos,
Mas é lembrar a história
Que Cristo nos dá vitória
Por Seu sangue entre os espinhos.

O homem trilhou caminhos
Distantes do Criador,
Por isto foi necessário
Que Jesus, o Salvador,
Viesse à Terra carente
Para ensinar toda a gente
Como viver em amor.

Nasceu da Virgem Maria,
Foi pelo Espírito gerado,
Fez o bem, desfez o mal,
Foi por João batizado,
Traçou os rumos exatos,
Mas por ordem de Pilatos
Foi morto e crucificado.

Na cova foi sepultado,
Porque José emprestou.
Guardas protegeram o túmulo,
Porque Roma os ordenou.
Porém, ao terceiro dia,
Como disse a profecia,
O Senhor ressuscitou”.

Então, meu pai me fitou,
Segurou na minha mão,
Me falou: “Filho, não chore,
Se levante deste chão!
Ovo oco é coisa pouca,
Pois de Cristo a cova oca
Mostra a nossa salvação”.

Após falar, abraçou-me,
E eu senti tão grande amor…
Esqueci minha tristeza,
E do ovo sem sabor,
Por meu pai fui instruído
Do verdadeiro sentido
Da Páscoa do Salvador.

Tantos anos se passaram
Que este fato aconteceu!
Meu pai não está comigo,
Pois há anos faleceu,
Mas não estou contristado.
Sou grato a Deus por ter dado
Um pai bom igual ao meu.

Eu hoje, vejo o comércio,
Com vis intenções grosseiras,
Falsas expressões pascais
Com projeções financeiras,
Na tradição há desvios,
E milhares de ovos vazios
Preenchendo as prateleiras.

Não que eu seja contra os doces
Que nos mercados estão,
Mas ao vê-los, me inquieto
Dentro do meu coração
Pergunto: “Que Páscoa é esta?
Qual o sentido da festa?
Qual é a celebração?”

Ao invés do chocolate,
Lembro o sangue no madeiro,
Em vez de um coelhinho branco
Lembro o Divino Cordeiro,
Que à Terra foi enviado
Para tirar o pecado
Que machuca o mundo inteiro.

Eu não me conformo às formas
Que há no secularismo
Exibindo vagas cenas
Na tela do consumismo,
Com variações imensas,
Distorcendo as santas crenças
Do puro cristianismo.

Viro as costas pra os palácios
De opacos apogeus.
Como meu pai me ensinou,
Eu ensino aos filhos meus
A história da missão,
Da vida, da encarnação,
Da morte e ressurreição
De Jesus, Filho de Deus.
 

Jénerson Alves é jornalista, membro da Igreja Batista Emanuel em Caruaru (PE) e presidente da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel (ACLC).

  1. Nilsa Alves de Melo

    Belíssimo!
    O Cordel encantado e evangelizando.
    Parabéns, Jénerson Alves!

  2. Patrícia Lima

    Achei fantástico!!! Excelente arte em forma de cordel.
    Passe para forma de vídeo. É o que faltou.
    Deus o abençoe.

  3. KAYO PATRICK ANDRADE LACERDA

    PARABÉNS JÉNERSON ALVES…TEXTO FANTÁSTICO!!!

    QUE DEUS CONTINUE TE ABENÇOANDO COM ESSE DOM DA ESCRITA…

    FELIZ PÁSCOA!!!

    GRANDE ABRAÇO

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