“Pela linguagem somos. Pela linguagem damos sentido ao mundo. Na linguagem podemos nos ver da forma mais verdadeira: nossas crenças, nossos valores, nosso lugar no mundo”. Essas palavras do amazonense Sérgio Augusto Freire expressam muito bem o valor da linguagem para o ser humano. No Brasil, temos um universo vasto e rico de sotaques, gírias, vocábulos diferentes e regionalismos para descobrir.

No início de janeiro publicamos um artigo sobre a diversidade linguística do nordeste. Agora chegou a vez da região norte. Pelas bandas de lá, a miscigenação entre negro, ribeirinho, índio e nordestino criou uma linguagem tão rica e vasta quanto a flora e a fauna amazônica.

Embora essa diversidade linguística ainda não esteja vastamente registrada como no caso do nordeste, reunimos aqui duas fontes que podem ajudar quem quer conhecer um pouco mais a variedade linguística nortista. Confira:

Sérgio Augusto Freire de Souza, autor da obra Amazonês

Amazonês: Termos e expressões usadas no Amazonas

A obra é do amazonense Sérgio Augusto Freire de Souza, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre em Letras pela própria UFAM e Doutor em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). O livro é fruto de paixões misturadas: a paixão pela ciência, a paixão pela linguagem e a paixão pelo Amazonas. A paixão pela ciência se manifesta por meio da paixão pela linguagem. Pela linguagem somos. Pela linguagem damos sentido ao mundo. Na linguagem podemos nos ver da forma mais verdadeira: nossas crenças, nossos valores, nosso lugar no mundo, enfim. Somos o que aprendemos a ser durante nossa vida e aprendemos a ser via linguagem, no nosso caso a língua portuguesa.

Há vários portugueses espalhados no Brasil, todos bem diferentes do Português que aqui chegou, supostamente nas naus de Cabral. Depois que aqui aportou, seria impossível que o português de Portugal não sofresse influência das mais de trezentas línguas indígenas então existentes, bem como das línguas africanas e europeias que para cá também vieram, como registram a nossa história e os nossos estudos linguísticos. A língua portuguesa brasileira possui outra história e outra historicidade, diferentes das que embarcaram nas caravelas no séc. XVI. Por tantas diferenças, alguns linguistas já ousam chamá-la de língua brasileira. Se cada variante do português espalhada por esse país imenso tem sua nuance é porque também tem sua história particular. E a variante falada no Amazonas tem a sua. Os termos indígenas na linguagem da região são bem marcantes, como igarapé, igapó e bubuia. A linguagem dos soldados da borracha, nordestinos que para cá migraram no fim do século XIX, deixou sua marca, como catinga, abestado e de lascar. O chiado do português de Portugal se manteve nos final da pronúncia dos amazonenses. Por tudo isso, é bobagem disputar a naturalidade dos termos. O que podemos afirmar é que todos são termos do português brasileiro que, pelo capricho dos movimentos da história, resolveram aparecer e se fixar aqui ou ali. Assim, o dicionário de Amazonês vai certamente trazer marcas, por exemplo, de um cearês por conta do encontro linguístico dos tempos da borracha. Essas fronteiras lingüísticas são muito tênues e móveis. Estar neste pequeno dicionário não batiza a palavra como amazonense, mas a naturaliza como cidadã do maior estado do país porque ela faz sentido na linguagem dessa região.

Assista a seguir ao vídeo da música “Amazonês”, de Nícolas Júnior:

 

Dicionário Papa Xibé – Pará

No segundo maior estado da região norte, o Pará, “ééégua” é a vírgula usada entre mil de mil frases ditas; dizem “tu” ao invés de “você”; quando alguma coisa é muito boa, ela é “pai d’égua”; as crianças de lá não fazem travessuras e sim “estripulias”; não quebram os brinquedos e sim “esbandalham”; as meninas brincam de “macaca” ao invés de amarelinha, os meninos brincam de “peteca” ao invés de bola de gude. No blog Arte Papa Xibé você pode conhecer um pouco mais do paraês.

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