P10_08_07_15_Paletó_gravata_PQUma das questões que tanto o pastor como a Igreja que servem à cidade precisam considerar é quanto ao estilo de vida. Se adotarmos como postura teologicamente verdadeira que o Deus que pregamos é o Deus dos pobres e que Jesus é o Messias dos pobres, então a Igreja e, por conseguinte, seus pastores, devem existir em função dos pobres. Constitui um escândalo o fato de a Igreja não ser a festa dos pobres na celebração da salvação em Jesus Cristo e na superação da pobreza, fruto de injustiça e opressão.

A imagem do pastor é representada pelo uso de paletó e gravata, vestes que indicam uma série de identificações e uma alienação teológica. Ao vestir o paletó (numa cidade quente como Maceió), o pastor está adotando um estilo de roupa estrangeira, que o identifica com uma cultura estranha. Trata-se também de uma roupa cara, o que o identifica com a classe dominante, e uma roupa distintiva, o que o identifica com uma teologia clerical.

Esse costume é tão arraigado em nossas igrejas que muitas são duramente criticadas por seus pastores deixarem de usar paletó e gravata. Porém a quebra desse símbolo constitui uma verdadeira libertação para muitos pastores, principalmente nas cidades quentes do Nordeste.

O ato de tirar o paletó e a gravata é uma tarefa que conduz a uma progressiva identificação da Igreja com a cidade e com seu povo, especialmente com os mais pobres. Esse processo, que teologicamente chamamos de encarnação, processa-se primeiro interiormente, mas deve ser exteriorizado para se tornar cada vez mais eficaz. Em outras palavras, a identificação deve ocorrer prioritariamente no ser, mas com desdobramentos inevitáveis no agir e no ter.

Nessa linha de reflexão, é bom lembrar que a pobreza não é um bem. Ao contrário, ela é um mal, e ao tomar o partido do pobre, Deus está lutando contra a pobreza, suas causas e consequências. A fartura, a opulência, o luxo e o excesso, só constituem escândalo diante da pobreza, da miséria e da escassez. Isso coloca além da questão do ter, as questões do tenho para que ou para quem.

A identificação com os pobres através da adoção de um estilo de vida mais simples não significa a busca pela pobreza, mas a busca da missão e da solidariedade. Sobre isto, vejamos as palavras de Júlio de Santa Ana, aplicadas a determinados cristãos:

Não foram pessoas que buscaram a pobreza material porque nela houvesse características de virtude, mas também não se sentiram grandes ou elevados espiritualmente. Foram, antes, pobres dispostos a partilhar com outros o pouco que tinham (e, portanto, estavam prontos ao exercício da caridade fraterna), não tornando motivo de orgulho sua condição humilde, mas também não sendo ávidos de riquezas. Na realidade, sua pobreza era correlativa a uma esperança total e absoluta em Deus e se manifestava numa disponibilidade sem limites diante do Senhor[1].

Ao buscar uma identificação com os pobres colocando-se a favor deles, a Igreja inicia um diálogo inevitável com os movimentos populares. Ali, onde se busca a justiça de forma organizada e insistente, se faz necessária a presença cristã como sal e luz.

*Trecho retirado do livro Um jumentinho na avenida – a missão da igreja e as cidades, de Marcos Monteiro (p. 21).

Imagem: freeimages.com/browse.phtml?f=download&id=861513

Nota:
[1] BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja com a cidade. Londrina, PR: Descoberta, 2000.

  1. Paulo Henrique

    Igreja é para os pecadores. A salvação que a igreja tem que pregar é para os pecadores, ou seja, para todos. Não importa a qual classe social pertençam. Por que esta mania de querer criar setores de aplicação do Evangelho? O Evangelho é para que o pecador se achegue a Deus.

  2. Desculpe-me a franqueza, mas discordo. Julgar uma pessoa pelo vestir?! Então quer dizer que um pastor filho de uma classe média, não pode ser pastor, ou caso seja, deve se vestir como suas ovelhas pra dizer que é pobre? Penso que você não tem que se vestir como pobre para ser solidário com a luta do pobre.

  3. Antonia Leonora van der Meer

    Devemos ser acessíveis como foi Jesus, nem os leprosos, nem os “pecadores”, nem as crianças tinham dificuldade em ir até ele, lhe tocar e ser tocados. Que possamos imitar suas atitudes!
    Tonica

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