Por Héber Negrão

Meninas indígenas do Norte do Brasil. Foto: MEIB.

Meninas indígenas do Norte do Brasil. Foto: MEIB.

Qual é a primeira imagem que vem a sua cabeça quando você pensa em povos indígenas? Tenha em mente essa imagem ao longo da leitura deste artigo. Desde cedo, em nossas escolas, temos recebido informações sobre aquelas pessoas que já habitavam este território antes dos europeus chegarem. Mais de 500 anos se passaram e nossa mentalidade ainda não mudou em relação a eles.

É imprescindível que a gente tenha uma visão correta (e mais atual) sobre os povos indígenas. Como missionário que trabalha entre indígenas, já ouvi muitas perguntas carregadas de uma mentalidade cinco séculos desatualizada. Meu objetivo com esse texto é que você evite cair em alguns erros (de vocabulário e de mentalidade) que a maioria dos brasileiros tem cometido.

Visão etnocêntrica
O etnocentrismo ocorre quando nós avaliamos os povos de outra cultura de acordo com o nosso padrão e valores. O antropólogo Everardo Rocha diz que o etnocentrismo “é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo, e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores e modelos1.” Não é muito difícil identificar o etnocentrismo em nossas falas. Alguma vez você já fez uma pergunta desse tipo: “como eles conseguem viver assim?”. Bem, isso é etnocentrismo.
E deste etnocentrismo nem os próprios indígenas escapam. Muitas tribos têm seus nomes carregados de conceitos etnocêntricos. “Tenetehara”2, por exemplo, significa “nós somos os seres humanos verdadeiros”. Os “parakanã” chamam a si mesmos de “Awaeté”: “gente de verdade”. Ao mesmo tempo, eles se referem aqueles que não fazem parte de sua sociedade utilizando termos pejorativos como “macacos”, “ovos de piolho” e “bárbaros”, possivelmente a alcunha mais conhecida para nós. O etnocentrismo é um mal inerente a todas as sociedades humanas.

O povo indígena sempre foi retratado nos livros didáticos a partir de uma visão etnocêntrica. Talvez você se identifique com alguma dessas visões. Everardo Rocha diz que a imagem do indígena foi alugada para aparecer na História do Brasil em três papéis diferentes: o primeiro papel é o de “selvagem” e “primitivo”. Ele foi dado na época da chegada dos portugueses para tornar estes superiores e civilizados em relação aos silvícolas que habitavam a então Ilha de Vera Cruz. O outro papel é o de “alma inocente” e “infantil” que precisava da proteção da religião portuguesa, sendo pretexto para a catequização3 pelos jesuítas. O terceiro papel é interessante porque já na nossa era o indígena passou a ser valorizado como uma das raças que compõe a identidade do brasileiro. Ora, ninguém quer se identificar com o “selvagem” ou com a “criança”; logo, ao indígena foi cunhado o papel de “corajoso” e “amante da liberdade”. Outra visão do indígena, que não foi mencionada por Rocha, também se espalhou pelos livros didáticos. Com certeza você já deve ter ouvido falar do “bom selvagem”. Este foi um termo emprestado de Jean Jacques Rousseau para ilustrar como o indígena é aquele ser perfeito e puro que vive em harmonia com a natureza.

O jornalista Leandro Narloch, em seu “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, tenta romper com a imagem do indígena que foi gerada pelos livros didáticos. Baseando-se em sérias pesquisas ele diz que “a colonização foi marcada também por escolhas e preferências dos índios […]. Muitos índios foram amigos dos brancos, aliados em guerras, vizinhos que se misturaram até virar a população brasileira de hoje. ‘Os índios transformaram-se mais do que foram transformados’”4.

Isaac Souza diz que o drama do indígena é de ser reconhecido como figura humana. “O índio não passa de um ser humano que participa de uma cultura diferente da nossa. Nem é perfeito e puro ‘selvagem’, nem é indivíduo mau e vingativo, nem bárbaro que deve ser salvo, nem obstáculo ao progresso e ao desenvolvimento”5. Acima de tudo, os indígenas devem ser vistos por nós como homens feitos à imagem e semelhança de Deus e, por isso, tão portadores de dignidade quanto qualquer outra pessoa.

Termos mais apropriados

Já perdi a conta do número de pessoas que têm me perguntado se o povo com quem trabalhamos é “civilizado”. Gostaria de esclarecer, de uma vez por todas, que não existe nenhuma sociedade no mundo que não seja civilizada. Entenda que “civilização” não é sinônimo de viver em uma cidade grande. O dicionário Michaelis conceitua civilização como “estado de adiantamento cultural”. Nada mais longe da verdade.

Pierre Clastres diz que um povo é civilizado quando consegue viver bem em sua civilização, em seu contexto social. Tenho certeza que, ao viver em uma comunidade indígena, você será bem menos civilizado do que seus anfitriões, afinal você não sabe caçar nem pescar. Você não sabe viver bem no contexto social que eles vivem. Por isso evite usar o termo “civilizado” como sinônimo de “urbanização”.

Aqui vão algumas dicas de termos aceitos pela academia e que você pode utilizar, sem problemas. Os indígenas são povos de “tradição oral” e “cultura simples”. Aqui a expressão “simples” não tem conotação de inferioridade, mas de simplicidade nas organizações sociais. Diferente dos povos de culturas complexas como a nossa. Caso você esteja interessado, pergunte se eles “mantêm forte sua identidade” cultural ou se já têm contato com a “sociedade envolvente”. Outra pergunta apropriada seria: “de qual etnia você faz parte?” Isso é bem menos agressivo do que perguntar se são civilizados. Acredite!

Toda cultura é dinâmica. Isso quer dizer que ela está em constante mudança. A cultura brasileira não é a mesma de 50 anos atrás, basta olhar para os seus pais (ou seus filhos) para perceber essa diferença. “A dinâmica cultural é um dado fundamental para toda sociedade e um sinal de que a cultura está viva e gozando de plena saúde”6.. O mesmo acontece com a linguagem. Ela está em constante transformação. É por este motivo que, no português, a palavra “índio” ao longo dos anos deixou de ser uma identificação étnica para tornar-se um termo pejorativo. Hoje em dia o termo mais aceito para se referir a eles é “indígena”. E ainda assim é muito generalizado, pois não podemos ignorar que cada um dos 340 povos indígenas do Brasil tem sua cultura e costumes específicos. Nesse caso já não existem indígenas, mas sim “Tembé”, “Guajajara”, “Kayapó”, “Kanela”.

Faça um esforço para lembrar-se de usar esses termos quando você estiver em contato com missionários ou irmãos indígenas ou participando de algum evento missionário.
Notas:
1. ROCHA, Everardo. O que é Etnocentrismo. Editora Brasiliense, p.7.
2. Consideram-se “Tentehara” os povos Guajajara e Tembé.
3. Para um estudo mais aprofundado entre a diferença de ‘catequese’ e ‘evangelização’ leia a Introdução do livro A Questão Indígena, Uma Luta Desigual, Editora Ultimato.
4. NARLOCH, Leandro. “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. Editora Leya, p.33.
5. SOUZA, Isaac. De Todas as Tribos. Editora Ultimato, p. 27
6. SOUZA, Isaac; LIDÓRIO, Ronaldo (org). A Questão Indígena. Editora Ultimato, p.12.

 

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Héber Negrão é paraense, tem 30 anos, mestre em Etnomusicologia e casado com Sophia. Ambos são missionários da Missão Evangélica aos Índios do Brasil (MEIB), com sede em Belém, PA.

  1. Um excelente artigo que demonstra que ainda resta em nós um olhar ultrapassado sobre os povos indígenas, em vez de olharmos como um semelhante que possui uma cultura diferente da nossa, pessoas são diferente e um povo com sua própria história sempre terá uma cultura, experiências e uma história diferente da nossa, mas na história de construção desse país eles caminham junto conosco. Recomendo a leitura desse artigo!

  2. Artigo muito esclarecedor, Héber. Montaigne já afimava que cada um considera bárbaro aquilo que não se pratica na sua própria terra. Na verdade, o etnocentrismo tem se tornado um princípio que tem regido o homem em relação à sociedade; não é uma prerrogativa do homem europeu, ou do não-cristão, como se costumava pensar. Somos cristãos e o postulado que deve nos reger em relação às relações humanas é o pregado pelo apóstolo Paulo: “cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Fp. 2.3).

  3. 4. NARLOCH, Leandro. “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. Editora Leya, p.33.

    Muito boa a leitura de Narloch. Agora, continue lendo e pesquisa sobre o que o Leandro tem mais a dizer sobre a questão indígena. Certamente ele não concordará com voce. Está ao seu alcance, basta um googlada e vc encontrará.

  4. Muito joia Heber!
    Muitos precisam conhecer realmente, sem ter um olhar de preconceito indiferença seja qual povo, raça e etnia for…
    Parabens pelo artigo… Deus abençoe e o use atraves das palavras.


  5. Eduardo:

    4. NARLOCH, Leandro. “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. Editora Leya, p.33.
    Muito boa a leitura de Narloch. Agora, continue lendo e pesquisa sobre o que o Leandro tem mais a dizer sobre a questão indígena. Certamente ele não concordará com voce. Está ao seu alcance, basta um googlada e vc encontrará.

    Creio que Hebert, como missionário da missão indígena, tenha conhecimento de causa de igual ou superior cacife que Leonardo. Nesse caso, os dois podem concordar e discordar em alguns pontos, mas o conteúdo deste artigo continua sendo válido e verídico.

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