O quadrilátero Interiorano – Um Olhar Missionário

A tarefa missionária nas cidades do interior do nordeste brasileiro necessita considerar uma realidade que se encontra em absolutamente todas as cidades nordestinas. Desconsiderá-las seria o que chamo de evangelização de importação urbana, ou seja, tratar as cidades do interior como se fossem a metrópole do estado. Não sendo a questão da mentalidade urbana o nosso foco e sim os fatores de socialização, o quadrilátero social interiorano composto pela rua, pela praça, pela feira e pela igreja Matriz precisam ser considerados, entendidos e na medida do possível, utilizados na tarefa missionária das cidades do interior.

Iniciando pela rua, é de especial significância desfazer a idéia de se concebê-la apenas como instrumento de deslocamentos. O nosso enfoque abraça a idéia de José Cantor Magnani, professor de antropologia da USP, o qual incorpora à rua o conceito de sociabilidade.1 O trabalho de Magnani apresenta a rua como fator de produção e ampliação da sociabilidade, pois quando as pessoas saem do seu espaço privado – a casa – e se encontram no público – a rua –, um processo de interação social se inicia. Em se tratando de cidades do interior, o “estar na rua” assume, com todas as letras, tal proposta. É na rua que os moradores se encontram para conversar. Ao final da tarde, os moradores das pequenas cidades ainda colocam suas cadeiras nas calçadas, cumprimentam os transeuntes que passam e são cumprimentados, sendo com freqüência, motivos de comentários.

Nas ruas das cidades pequenas do interior, as pessoas constroem a sua sociabilidade. Essa sociabilidade produz um conhecimento “familiar”, tornando possível perguntar onde alguém mora e, se morar, será logo identificado. Tal realidade não pode deixar de ser considerada no planejamento estratégico missionário que se propõe a evangelizar as pequenas cidades. No interior é preciso viver a rua. Mesmo discordando da proposta de planificação pastoral da autoridade e autonomia da igreja defendida por Wolfgang Simson,2 a qual destitui a igreja de qualquer supervisão, não temos como deixar de reconhecer o importante papel que a casa inserida na pequena cidade do interior exerce no processo de evangelização. Morando na cidade e saindo à rua, o missionário encontrará oportunidades de relacionamento e conseqüente facilitação para o anúncio da mensagem do evangelho.

Além da rua, destaca-se a praça como o segundo ângulo do quadrilátero. É a praça da cidade do interior que geralmente produz maior ação sociabilizadora continuada, é o ponto de encontro, justamente por ser a parte central da cidade pequena. Na maioria das pequenas cidades do interior nordestino, por razões econômicas, ainda não existe cinema, teatro, boates ou casas de show, opções normalmente disponíveis nos grandes centros. Tal fato transforma a praça numa espécie de local privilegiado de lazer e diversão, um verdadeiro encontro de pessoas e surgimento de novidades.

Em algumas cidades é comum encontrar na praça uma tela montada para projeção de filmes, e em vilarejos pobres, ainda é possível encontrar na praça uma pequena edificação que, no seu interior, guarda um aparelho de televisão que é ligado à noite.

Na praça, as pessoas se apresentam bem arrumadas. No vilarejo de Cumaru, a 110 km do Recife um grupo de jovens faziam uma pesquisa na cidade. As pesquisadoras decidiram usar roupas bem simples (Calça jeans, camisetas e sandálias havaianas) para irem à praça à noite, achando que este traje seria mais o adequado para uma cidade do interior. Para surpresa delas, elas passaram por “mal vestidas”, face à maneira como as pessoas do local se apresentavam ali.

Ao contrário das grandes cidades, podemos afirmar com segurança que nas pequenas cidades do interior, a praça é um importante fator socializador, constituindo-se, assim, um aspecto que não pode ser desconsiderado em hipótese alguma em uma proposta missionária.

Já no que diz respeito à feira da cidade pequena, o terceiro ânulo do quadrilátero, esse acontecimento semanal incorpora mais do que fatores sociais. Ele traz consigo um importante peso econômico para boa parte da população, que tem neste evento a oportunidade de conseguir o dinheiro para o seu sustento. Além do aspecto de abastecimento e sustento, a feira desempenha um papel quase que de festa.

Vivenciando essa realidade, estávamos em um dia de sábado observando a feira da cidade de Barreiros, 120 km ao sul do Recife. Mesmo considerando que se trata de uma cidade com cerca de 42.000 habitantes, a feira refletia o típico cenário do interior. Era um emaranhado de ações e constante fluxo de pessoas indo e vindo. Chamou-nos a atenção o formigueiro humano em torno das barracas e a grande variedade de mercadorias, geralmente grãos, frutas, verduras, carnes, aves, roupa, etc., às vezes com as mercadorias colocadas apenas sobre uma lona no chão. Não raro, nos deparávamos com senhoras bem vestidas, maquiadas à moda do interior, cabelos penteados, algumas com sapatos de salto alto, “pilotando” um carro de mão de construção para transportar as suas compras. Na feira das cidades do interior se vende quase de tudo, e não raro se pratica o escambo – sistema de troca de mercadorias sem o uso de dinheiro.

No que se refere ao aspecto missiológico da feira, parece que as igrejas desconsideram o seu uso como estratégia, fato que não ocorria no passado com os missionários pioneiros no interior, indo às feiras para distribuir e vender literatura bíblica e pregar o evangelho. Merece registro o que presenciamos na cidade de São Pedro-PE:

Em um domingo pela manhã do verão nordestino. Eu e Jamile, minha esposa, voltávamos de Garanhuns onde havíamos passado uma semana ministrando para os alunos do Instituto Bíblico do Norte-IBN. Ao passarmos pela cidade de São Pedro, diminuindo a velocidade por causa dos quebra-molas, me deparei com algo que chamo de tradição descontualizada. Do lado direito ouvi o canto de um hino que me era bem conhecido, vindo de um pequeno templo à beira da rodovia. Coincidência ou não, era de uma Igreja Presbiteriana. Diminuí tanto a velocidade que quase parei o carro no acostamento. Vi na igreja umas 15, no máximo 20, pessoas ali, inclusive algumas de paletó e gravata. O calor estava de matar! Ao olhar para o outro lado da rodovia fui tomado pelo espanto. Elas estavam ali, bem ali, na frente da igreja. Pensei tão alto que gritei: “Estão ali!” O casal de estudantes do IBN, que estava no banco de trás viajando conosco, assustado, perguntou: “Quem pastor? Quem?”. Ri um pouco e mostrei como a feira parecia um verdadeiro formigueiro em alvoroço. Pessoas fervilhavam de um lado para outro, mas o relógio marcava 9:45h, era hora da escola dominical, quem imaginaria a Igreja poder estar na feira naquele horário? Para a maioria dos evangélicos, 9 horas do domingo é hora sagrada e inegociável. Pergunto: Quanto poderia ser feito naquela feira em prol do Evangelho? Quantas pessoas não poderiam ser duplamente atendidas?3

O quarto e último ângulo do quadrilátero interiorano é a igreja matriz, templo católico que invariavelmente ocupa o lugar de destaque na praça da cidade. A matriz é o templo da primeira igreja católica, e geralmente foi construído na cidade por seus fundadores ou pelo estado. Em torno da matriz, todas as cidades do interior nordestino fizeram o seu desenvolvimento. Não é estranho, nem incomum, haver uma desproporcionalidade entre o porte da edificação da matriz e das demais construções da cidade. Em Casinhas, cidade a 210 km a oeste do Recife, com 13.345 habitantes, 1.425 moradores na área urbana e com apenas 2,2% de evangélicos, a matriz se apresenta imponente com suas torres na praça, enquanto a maioria das casas segue o modelo simples de construção conjugada (a parede lateral da casa é a própria divisória entre a casa vizinha). Desconsiderando a o uso do dinheiro estatal financiador da igreja no passado, Eduardo Hoornear faz a sua leitura social ao alegar que “As igrejas [católicas] luxuosas contrastavam com as residências paupérrimas em redor delas: é que elas exprimiam os anseios de dignidade, valorização e respeito do povo que preferiu `doar` tudo para a igreja, símbolo do grupo social, a viver numa separação individualista.”4 Em termos antropológicos, consideramos a igreja matriz como a representação física da fortíssima influência do catolicismo Romano na formação da rede sócio-religiosa do homem do interior do Nordeste.

Seria infantilidade missiológica desconsiderar a herança católica que existe nos habitantes do interior. Já ouvi muitos evangelistas dizerem que ela é “um atrapalho”, porém eu prefiro a atitude dos colportores pioneiros (evangelistas que vendiam Bíblias para se manterem). Aqueles homens foram treinados para utilizar a religiosidade católica nordestina como plataforma para anunciar o evangelho. Apenas para deixar claro, reconto a ação de um colportor em Caruaru que ao chegar na casa de uma senhora, dela ouviu: “Se é crente, eu digo logo que eu já tenho o sagrado coração de Maria.”, mostrando um quadro. O colportor calmamente respondeu: “E a senhora sabe o que fez o coração de Maria chorar?”. A mulher ficou interessada e o colportor encontrou uma oportunidade para contar a história da crucificação de Jesus.

A rua, a praça, a feira e a matriz, quatro ângulos da mesma cidade que marcam e caracterizam a realidade povo do interior do nordeste brasileiro e que não podem ficar esquecidos nem mesmo desconsiderados em qualquer planejamento ou ação missionária.

Sérgio Paulo Lyra é coordenador do Consórcio Presbiteriano para Ações Missionárias no Interior, missiólogo e professor do Seminário Presbiteriano em Recife

Notas:

1 José Guilherme Cantor Magnani. Rua e a Evolução da Sociabilidade. Revista Digital de Antropologia Urbana. Disponível em <www.aguaforte.com/antropologia/rua.html>.

2 Wolfgang defende que a igreja deveria ter uma um estrutura plana e não verticalizada. Ela deveria se espraiar como a água corre no solo. Ver Wolfgang Simson, Casas que Transformam o MundoIgrejas nos Lares. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2001.

3 Sérgio Paulo Ribeiro Lyra, “Missões nas Cidades do Interior” em Anunciai entre as Nações a Sua Glória. Bárbara Helen Burns, ed. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2004, p 218-219.

4 Hoorneart, Eduardo e Azzi, Riolando e outros. História da Igreja no Brasil – Ensaio de interpretação a Partir do Povo. Petrópolis: Editora Vozes, 1979, p. 387.

  1. Uma perfeita descrição das nossas cidades nordestinas! Alagoas não é diferente! Realmente precisamos abrir os olhos para estas características de nossa região!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>