Caros amigos do Paralelo 10,

Comartilho com vocês um texto antigo escrito por Joyce Elizabeth W. Erery-Clayton. Uma missionária bastante conhecida dos nordestinos e que tem feito um belo trabalho ao longo dos anos que atua no Brasil. O texto foi escrito em 1998 por ocasião da comemoração dos 125 anos do protestantismo na região Nordeste do Brasil. Vale a pena relembrar!

Os cultos comemorativos realizados em outubro na Igreja Evangélica Pernambucana festejaram os 125 anos do protestantismo no Nordeste do Brasil.

Os primeiros protestantes eram ingleses. Cerca de 400 deles moravam em Recife. A empresa Wilson, Sons and Co. Ltd, juntamente com um tal de J.A. Fonseca, possuíam muitos dos navios de madeira que eram vistos no porto. Os ingleses construíram um templo na rua Visconde de Itaparica, no centro da cidade, em 1838. Chamava-se Holy Trinity Church, e os cultos eram em língua inglesa.

As primeiras Bíblias enviadas pelas recém-criadas sociedades bíblicas chegaram ao Nordeste no período de 1825-1830. Um dos colportores que vendiam Bíblias em Pernambuco era Antonio Marinho da Silva, membro da Igreja Evangélica Fluminense, fundada pelo missionário escocês Robert Reid Kalley.

Em 1868, o madeirense Manoel José da Silva Vianna, também membro da Igreja Evangélica Fluminense, passou 6 meses na região e vendeu muitos volumes das Sagradas Escrituras em Garanhuns, Canhotinho, Limoeiro, Pandalho, Nazaré, Jaboatão e no Estado de Alagoas. Apesar de não dispor de muito tempo para discipular os poucos crentes, fundou uma congregação protestante no Largo do Pilar, na casa simples de um empalhador de cadeiras chamado Valdevino.

Com a mudança definitiva de Viana e sua família para o Recife, em 1872, o trabalho tomou novo impulso e “seu lar humilde numa rua insignificante na área das docas se tornou um centro de atividade evangelística”. A família morava na parte da frente da casa e as reuniões eram realizadas nos fundos — sem dúvida para atrair menos a atenção dos ajuntamentos novos. O primeiro missionário presbiteriano, John Rockwell Smith, logo ao chegar da América em 1873, assistiu vários cultos ali na casa de Viana.

Surpreendentemente, na noite de 14 de março de 1873, o sub-delegado de Recife e alguns praças entraram no salão de cultos, dispersaram os assistentes, e, com palavras ultrajantes, mandaram suspender os ajuntamentos. Os cultos só foram reiniciados 4 meses depois, graças a Smith, que, ao solicitar ao presidente (do Estado) permissão para abrir seu trabalho na cidade, intercedeu também em favor do trabalho de Viana.

Para comemorar o reinício dos cultos, em setembro de 1873, Viana convidou o pastor da Igreja Evangélica da Corte, e sua esposa, Sarah Poulton Kalley. A agenda de Kalley foi cheíssima: além de pregar várias vezes, batizou doze pessoas, celebrou a Ceia do Senhor, oficiou o casamento de três casais e ainda fez uma conferência sobre Israel no Teatro, à qual compareceram entre 200 e 300 pessoas, inclusive o vice-presidente, o chefe de polícia, juízes e advogados.

Naquele mesmo período, os crentes julgaram prudente mudar os cultos para uma casa maior. Na primeira reunião, houve um desagradável tumulto. O sub-delegado não estava por dentro da lei do Império que autorizava o casamento acatólico e acusou o Dr. Kalley de realizar não um casamento, mas um ato de prostituição, juntando um homem e uma mulher. Quando acabou a reunião e o casal Kalley ia para casa, uma multidão de pelo menos 600 pessoas marchava atrás deles gritando, assobiando e jogando tijolos, pedras e lama. Os Kalley procuraram refúgio nas casas, mas as portas eram fechadas. Alguns crentes e amigos permaneceram nobre-mente ao lado dos missionários.

Apesar da perseguição feroz e contínua, o protestantismo cresceu muito na década de 80. A Igreja Evangélica Pernambucana tinha casas de oração em Olinda, Água Fria, Espinheiro e Madalena. No ano de 1887 foram vendidas 2.646 Bíblias e partes das Escrituras. O trabalho presbiteriano crescia, bem como o batista, que teve início em 1886, e o metodista. A divulgação do evangelho no interior do Estado muito deveu ao colportor Viana e a Manoel de Souza Andrade.

Em 1874, Viana passou 40 dias percorrendo o Nordeste e vendeu 21 Bíblias, 48 Novos Testamentos e 197 porções, num valor superior a 10 libras. As vendas eram pequenas por causa da indiferença do povo. Além disso, a falta de dinheiro nas províncias do norte do Império era cada vez mais marcante. Em alguns lugares, Viana tinha de enfrentar aqueles que diziam que ele vendia Bíblias falsas. Alguns dos livros e das porções vendidas eram depois queimados. Viana faleceu em maio de 1880.

Outro herói da evangelização do Nordeste foi Manoel de Souza Andrade. Ele ouviu Kalley pela primeira vez na reunião pública realizada no Teatro. Na época, o jovem português trabalhava atrás dos bastidores do Teatro Santo Antonio. Impressionado com o que ouviu, Andrade procurou informar-se acerca dos cultos que Viana liderava, converteu-se e comprou uma Bíblia. Por anos foi presbítero, professor, dirigente da Escola Dominical, pregador leigo e substituto do pastor. Mais tarde tornou-se membro da diretoria da primeira sociedade missionária criada para estimular missões a partir do Brasil. Uma vez aposentado, fixou residência em Caruaru, onde dirigiu a Igreja por longo período, além de dar assistência a pequenas congregações. Andrade pregou o evangelho ao cangaceiro Antonio Silvino quando este se encontrava nas proximidades de Caruaru e depois, quando cumpria pena de prisão perpétua em Recife.

Fica patente que trata-se da inserção de uma igreja humilde, que se administrava, se sustentava e se disciplinava. Além do mais, os próprios membros eram os evangelistas que levavam a mensagem a outros, na cidade e no interior. Os únicos subsídios enviados do Rio de Janeiro por Kalley eram as lições bíblicas para estudo na Escola dominical e umas pequenas quantias de dinheiro para o sustento de Viana. A Sociedade Bíblica Britânica e a Sociedade Bíblica Americana forneciam literatura, cujas contas deveriam ser acertadas com regularidade.

Como seria de se esperar, numa época de militância política, de guerras jornalísticas e de tensões dentro do próprio catolicismo romano, não foi uma inserção fácil. Mas, graças à operosidade de Viana, de Andrade e de muitos pernambucanos simples, houve crescimento e permanência.

Joyce Elizabeth W. Every-Clayton é missionária irlandesa no Nordeste do Brasil há 38 anos. É professora de Antigo Testamento e História Eclesiástica no Seminário Congregacional e no Seminário Batista, ambos em Recife. Acaba de publicar Um grão de mostarda, um livro de 136 páginas que conta a história completa da Igreja Evangélica Pernambucana.


  1. Gostei imensamente do que li e como congregacional fico entusiasmado com os fatos aqui narrados. Quando a fé brotava nos que ouviam o evangelho, nada os impedia de manifestarem a sua fé. Muito bem profª Joyce!

  2. A história de Pernambuco é riquíssima e ainda tem umas pérolas de alto valor que enaltece ainda mais esse Estado. São essas narradas por Joyce Elizabeth que descreveu como Deus entrou e agiu no meio pernambucano. Que àqueles que hoje são frutos dessa evangelização possas acrescentar mais pérolas, diamantes e outra preciosidades nessa história.

  3. Sou membro da referida Igreja Evangélica Congregacional Pernambucana a Missionária Joyce voltou para o Reino Unido por conta da sua aposentadoria, mas aqui na Igreja temos o livro para venda por favor mande solicitação para o email indicado, quem se interessar.
    gibagonca@yahoo.com.br
    Nos orgulhamos todos em Cristo pelos estimados irmãos que começaram um tão lindo trabalho.

  4. Jonas Torres dos Santos

    Gilberto, também da mesma autora Joyce Elizabeth vocês têm o livro que descreve a passagem sobre os 100 anos de fundação d Igreja Congregacional de Caruaru, que aconteceu em 2007?
    Agraço
    Jonas Torres

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