Artigos com o marcador Música
O choro de Adão
27/12/08
Após a queda, Deus promete para Adão e Eva que Seu filho virá e pisará na cabeça da serpente. Adão vira para a serpente e desabafa: “Amanhã vai ser outro dia”. Esta semana, depois do natal, isso se tornou mais verdade.
Hoje você é quem manda, falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão. Viu?
Você que inventou esse Estado, inventou de inventar toda escuridão
Você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão.
Apesar de você amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia?
Como vai proibir quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando e a gente se amando sem parar.
Quando chegar o momento esse meu sofrimento, vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido, esse grito contido, esse samba no escuro.
Você que inventou a tristeza, ora tenha a fineza de “desinventar”.
Você vai pagar, e é dobrado, cada lágrima rolada nesse meu penar.
Apesar de você amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver o jardim florescer qual você não queria.
Você vai se amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença.
E eu vou morrer de rir e esse dia há de vir antes do que você pensa.
Apesar de você
Apesar de você amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia.
Como vai se explicar vendo o céu clarear, de repente, impunemente?
Como vai abafar nosso coro a cantar, na sua frente.
Apesar de você
Apesar de você amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal…
Chico Buarque “A pesar de você” (alusão negativa ao presidente Emílio Garrastazu Médici)
Quando Jorge Amado se encontra com a Casa de Davi
17/03/08

Como é bom perceber que Deus se revela a todos independente de quem sejam e de como estejam. Deixe-me explicar melhor.
Deus, na escritura, se revelou salvificamente mas, na criação, Deus revelou a todos quem ele era. Temos vários textos na escritura que mostram esta revelação, o Salmo 19 fala que “os céus proclamam a gloria de Deus, sem discurso nem palavra, não se ouve a sua voz. Mas a sua voz ressoa por toda a terra”. Como é bom saber que mesmo uma pessoa não conhecendo a Deus ou até sendo contra Ele, ainda sim Deus pode falar através dela. Falou através de uma mula, não falaria através de um ímpio?
É por isso que não divido a música em evangélicas e seculares, prefiro dividir em músicas boas e músicas ruins. Pois existem muitas músicas chamadas “gospels” que falam a palavra Jesus, mas não condizem com o evangelho e, outras músicas chamadas seculares que são mensagem de Deus para nós ou que refletem a sabedoria ou a beleza do amor e da vida.
Mesmo não ouvindo muitas as músicas deles, o Ministério Casa de Davi tem uma música que conta a história de uma mulher que se apaixona por um homem, mostrando que ela está encantada com ele e que a única coisa que deseja é este homem, que no fim dança com ela por causa do amor que ele lhe deu. Vale apena ler a poesia e ouvir a música:
O teu amor me alcançou
O teu olhar me conquistou
A tua voz me encheu de alegria
Com novo óleo me ungiu
Com linho puro me vestiu
Com jóias me cobriu, Senhor
Meu desejo é te abraçar, meu amado
Meu maior prazer é te beijar, Jesus
Meu coração, alegre,
Explode de tanta paixão,
E gera em mim uma nova canção,
E canto por causa do teu amor
Minha paixão, cresce
Quando em adoração,
Sinto o afago do teu coração,
E danço por causa do teu amor *1
É interessante que em milhares de igrejas esta música é cantada, mesmo vendo que se tirar o nome Jesus, que nem se encaixa muito na melodia, ela é uma bela música de uma mulher para um homem. É uma bela poesia romântica no estilo de cantares. E que as igrejas não condenam, pois descreve simbolicamente o encontro da noiva com o noivo, ou seja, da igreja com Jesus.
O que um dia me encantou e me fez ficar pasmo, foi quando vi que Deus já etava revelando para outros a maravilhosa história da Igreja e de Jesus.
Sempre contei que a Bíblia narra a história de amor entre um príncipe e uma prostituta, pois é assim que Deus descreve em Oséias. O príncipe vai até ela em forma de plebeu, mas o cafetão não o deixa levá-la. Foi quando, na briga entre os dois, o cafetão mata o príncipe. Mas ele ressuscita, mata o cafetão, pega a prostituta, dá roupas novas e a leva para o seu palácio. Lá eles se casam e no baile do casamento dançam a noite toda.
Nunca gostei das histórias de Jorge Amado e, dizem que o que ele viveu e creu não tinha nada haver com os evangélicos brasileiros.
Mas quando ouvi direito esta música que Djavan fez com a letra dele, pensei: Deus é maravilhoso, ele se revela a todos e mesmo as pedras podem clamar sua história.
Oh! que fizeste, sultão, de mim alegre menina?
Palácio real lhe dei, um trono de pedraria
Sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis
Ametista para os dedos, vestidos de diamantes
Escravas para serví-la, um lugar no meu dossel
E a chamei de rainha, e a chamei de rainha
Oh! que fizeste, sultão, de minha alegre menina?
Só desejava campina, colher as flores do mato
Só desejava um espelho de vidro prá se mirar
Só desejava o sol calor para bem viver
Só desejava o luar de prata prá repousar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
Só desejava o amor dos homens prá bem amar
No baile real levei a tua alegre menina
Vestida de realeza, com princesas conversou
Com doutores praticou, dançou a dança faceira
Bebeu o vinho mais caro, mordeu fruta estrangeira
Entrou nos braços do rei, rainha mas verdadeira
Entrou nos braços do rei, rainha mas verdadeira. *2
Não tem como negar, o que Deus faz com a igreja é o mesmo que um sultão faz com a prostituta. Foi exatamente esta a história que Salomão escreveu em Cantares.
Obrigado, Senhor, por nos resgatar em nossos pecados, nos vestir com roupas do palácio e dançar conosco, a tua noiva.
*1 – Casa de Davi – Composição: Davi Silva e Mike Shea
*2 – Djavan -Composição: Jorge Amado e Dorival Caymmi
A massificação Babilônica da música gospel
12/02/08

O principal objetivo deste trabalho é comparar três textos de fontes distintas, mas que tratam do mesmo assunto.
No livro de Daniel, capítulo três, mostra que o rei Nabucodonosor fez uma estátua magnífica da altura de um prédio de 7 andares, toda revestida de ouro. Não se via e, não se vê hoje, uma estátua desse tamanho revestida de ouro.
Mas o rei não estava satisfeito com isso, contratou músicos e instrumentos de toda a espécie. Instrumentos como o som da buzina, da flauta, da harpa, da sambuca, do saltério, da gaita de foles, algo de aparência ímpar.
Se em pleno século XXI é difícil encontramos uma orquestra em uma praça tocando para todos, com tão variados instrumentos, quanto mais naquela época juntar todos estes instrumentos e colocá-los em uma praça para todo o povo. Vale lembrar que alguns instrumentos eram privilégios de apenas para os reis e a corte.
A forma estética da estátua de ouro, juntamente com a maravilhosa orquestra são o palco de uma estratégia para alcançar todos os que estão na Babilônia. Não tem como passar pela cidade e não se maravilhar com uma estátua de ouro daquele tamanho e não parar para ouvir e apreciar a orquestra tão rara e bela que o rei colocou para introdução de seu próprio culto. Mexendo com as emoções através das músicas, fica mais fácil concluir que só um deus poderia proporcionar tão bela estética para um povo simples e desprovido deste privilégio em seu cotidiano.
Mas por que o rei Nabucodonosor colocou aquela banda toda na rua antes do grande ato de adoração de sua imagem? A estátua gigante de ouro não era suficiente? Não.
Eu gostaria de fazer um paralelo deste acontecimento com uma reportagem que li em um site que trás as “noticias Super Gospeis” falando do mega show que juntou, segundo eles, mais de um milhão de pessoas: “Seis anos depois de seu primeiro CD gravado ao vivo, o Ministério de Louvor … grava mais um CD, mas como todos os outros, não foi apenas um show. Mais de um milhão de adoradores se reuniram ali no Centro Administrativo da Bahia para proclamar que só o Senhor é Deus! Um coral de 4.500 vozes de igrejas da Bahia estava presente naquela maravilhosa noite.”
A reportagem continua falando das músicas e dezenas de dançarinos e músicos que estavam naquele mega show, fala de um palco gigante construído apenas para o evento e da cidade que se mobilizou toda em volta do evento.
Não é apenas um louvor, nem apenas um show, como diz o repórter, é O evento de adoração. Onde se reúne toda espécie de músicos, instrumentos, show de luzes, telões e até um coral de 4500 vozes. A multidão vai ao delírio com as músicas e o show. O espetáculo sonoro e estético é algo não visto antes pela grande parte daquelas pessoas que estavam ali presentes.
Não é à toa que os CDs e DVDs de grupos como estes estão entre os mais vendidos do Brasil. São grupos que alcançaram a multidão com suas músicas e seus mega shows.
Qual o paralelo que quero fazer entre um mega show idólatra e profano de Nabucodonosor e o Mega show de adoração das bandas atuais, como este show na Bahia? O argumento em que Marx Weber se baseia e usa ao definir a estética no livro “Os Pensadores, Ensaios de Sociologia” na pagina 257 é que:
“Na realidade empírica, histórica, esta afinidade psicológica entre arte e religião levou a alianças sempre renovadas, bastante significativas para a evolução da arte… Quanto mais desejavam ser religiões universalistas de massa, tanto mais sistemáticas eram as suas alianças com a arte.”
Nisso, Weber interpretou com maestria a grande aliança entre a arte e a religião. A arte não é só uma ferramenta para a expansão e aceitação de uma religião para um povo, mas é o elemento básico de massificação de uma nova religião. No movimento Gospel brasileiro a intenção de alcançar as massas é o que nutre a grande aliança entre a arte e a religião.
Foi assim com Nabucodonosor e é, principalmente, nos dias de hoje, no movimento gospel Brasileiro. Não devemos negar a arte, como os que querem purificar a religião protestante, mas devemos entender a posição que ela ocupa nos nossos dias.
O uso da arte é para a massificação da religião gospel, este é o objetivo final, é o valor maior. E a adesão legitima qualquer forma de arte, ainda mais uma arte mágica, um show mágico, onde qualquer desvio bíblico fica em segundo plano.
É lógico que não usamos os termos que Weber usava, usamos os termos evangélicos: a arte mágica ganhou o nome de canções cheias de unção e a massificação ganhou o nome bonito de evangelização.
Marcos Botelho
Abre a janela Deus!
19/09/07
No ano de 1979 em uma terça de carnaval meu pai estava pregando no Acampamento Jovens da Verdade e minha mãe estava sendo levada para um hospital de São Bernado dos Campos para eu nascer, pois a bolsa dela já tinha estourado.
Desde então nunca mais saí do Jovens da Verdade e minha vida sempre ficou misturada com esta vida de acampamento.
Já se passaram alguns anos do meu nascimento, mas ao conversar com um companheiro de ministério fizemos as contas e percebi que nos últimos 5 anos participei de mais de 100 acampamentos, parece que Deus já tava me avisando no meu nascimento que eu não iria sair mais desta vida.
Nestes anos percebi que existem coisas que andam junto com acampamento, como: pastas de dente em quem dorme primeiro, jogar alguém na água no último dia e uma boa serenata no último dia para as meninas. O Jantar de Gala e a serenata não podiam faltar nos acampamentos que participei quando adolescente. Ainda tenho claramente na memória as serenatas inesquecíveis da década de 90 que fazíamos no JV.
Nas serenatas que participei sempre começávamos a escrever os bilhetinhos e ensaiar as musicas umas 3 horas antes de sair do quarto, e me lembro que nessa hora sempre tinha um grande impasse entre os acampantes e monitores. Que tipo de musicas iríamos cantar?
Nós os acampantes queríamos cantar musicas românticas, pois na maioria das vezes estávamos querendo conquistar alguma gatinha que conhecemos no acampamento. Porque a final das contas, serenata é para isso, não é?
Mas os monitores falavam que não podíamos cantar Tim Maia, Roupa Nova, Barão Vermelho pois eram musicas do mundo e continham um conteúdo erotizado nas letras, onde podia levar os que cantam ou quem estavam ouvindo ao pensamento mais impuro (sexual).
Quero lembrar que há 12 anos atrás as letras das musicas eram bem mais comportadas que as que temos hoje.
Até hoje me lembro de uma serenata que fiz aos 13 anos que nos obrigaram a cantar musicas que não eram do “mundo”, musicas de louvor. Me senti, naquela madrugada, como se tivesse em um culto da fogueira, mas é claro sem a fogueira.
Mais o que me deixa mais intrigado, é que freqüentando os acampamentos hoje, não vejo mais esse tipo de embate entre acampantes e monitores. Esse tipo de discussão ficou no passado.
Mas não ficou no passado porque os acampantes aceitaram a idéia que a musica romântica do “mundo” não era para ser cantada nas serenatas dos nossos acampamentos e nem tão pouco por achar que os líderes estão mais de mente aberta quanto aos compositores não cristãos.
Deve ter ficado no passado porque hoje o adolescente pode chegar na janela do dormitório feminino, dedilhar o violão e cantar que o maior desejo é te abraçar, te beijar, se envolver nos teus braços, até sentar no seu colo, sem si quer o monitor poder recrimina-lo pois ele esta cumprindo com a velha regra, ele esta cantando músicas da igreja.
Eu já não vejo mais a diferença das musicas que eu queria cantar para as meninas que estava paquerando com algumas musicas que cantamos em nossos cultos hoje.
Para mim que trabalho com acampamentos, um grande dilema e responsabilidade foi tirado das minhas costas, pois não preciso mais ficar tão preocupado com que tipo de música os adolescentes vão cantar nas serenatas do último dia! Esta discussão ficou no passado, graças a Deus, ou não!
Marcos Botelho
(Escrito em 5/6/07 para BibliaWorld)




Comentários