Desde que os judeus entenderam que eram o povo escolhido no antigo testamento, eles quiseram construir um lugar onde Deus pudesse habitar aqui na terra.

No começo, como eram nômades no deserto, fizeram o Tabernáculo, que quer dizer Morada de Deus, eles colocaram arca da Aliança dentro, junto com outros objetos sagrados. Me lembro de ter tido aulas sobre o Tabernáculo, os detalhes são fantásticos, cada mínimo detalhe significava algo e, na nossa leitura cristã parecia apontar claramente para o Messias.

Deus aceita a construção feita por homens e desce para se manifestar e tabernacular com o seu povo naquela tenda.

Depois de algum tempo veio a monarquia e, uma tenda até que serviu no tempo do deserto, mas já não parecia ser um lugar bom, suficiente para Deus se manifestar, afinal de contas até o palácio do rei Davi dava de dez a zero na tal barraca de pano.

Por isso, decidiram construir um Templo, uma casa para Deus. Davi não poderia construir por ter a mão suja de sangue, mas seu filho Salomão construiu um mega templo, com madeiras importadas, muito ouro, mão de obra escrava, um Templo para ninguém botar defeito. E Deus mais uma vez aceita a construção de seu povo e se manifesta naquele lugar.

Continue lendo →

Que a Bíblia é a palavra de Deus, isso eu não discuto, mas que a interpretação (hermenêutica) que nós fazemos e a mensagem que nós pregamos a partir dela é mensagem de Deus, aí já não coloco a mão no fogo. Pois mesmo a Biblia sendo palavra de Deus, os princípios de interpretação que você tiver vão definir se o que você fala vem da parte de Deus ou de outras partes.

Ter uma hermenêutica errada seria como se você tivesse tomado uma picada de uma serpente venenosa e lhe restasse pouco tempo de vida e, agora você se encontra frente a dezenas de remédios do depósito da fazenda e na sua mão a receita do único remédio que pode te salvar, mas você não consegue interpretar o que está escrito no papel. E com isso, você arrisca, tomando o remédio que “acha” ser o que está escrito. O problema é que se você errar o chute, você vai morrer. Em se tratando de interpretação bíblica, não tem como basear a nossa vida em achismos.

Citar a bíblia para afirmar uma verdade sua não quer dizer nada demais. Gostaria de tirar como base alguns princípios que encontrei na hermenêutica usada por Satanás e por Cristo no episódio da tentação no deserto (Mt.4:1-11).

Quando Satanás tenta Jesus no alto do templo, falando para Ele provar que é filho de Deus pulando lá de cima, Satanás cita Salmo 91:1 e 2, rogando as promessas do cuidado de Deus para os Seus filhos.

Se até Satanás pode citar e interpretar a bíblia, a grande questão é: quais são os princípios que vamos usar na nossa interpretação para não serem os mesmos princípios de Satanás e sim de Jesus?

Algo que me chama atenção é que Satanás só cita a bíblia em uma ocasião das três tentações, só quando o texto parecia estar ao seu favor. Ele usa exatamente a introdução que Jesus já tinha feito na resposta da tentação de transformar pedra em pão: “pois está escrito”. Creio que esta seja a dica de diferença entre Jesus e Satanás, Jesus cita a Palavra de Deus nas três respostas. A questão é que não é só na tentação, Jesus respira palavra de Deus o tempo todo. O único na história que poderia ter livre docência ao ensinar e viver, decide viver a sua vida toda debaixo do que tinha sido revelado. Satanás, porém, já tinha a idéia pronta, o que queria fazer e viver e foi até a bíblia para encontrar apoio na sua verdade. E este é um dos princípios da hermenêutica de satanás: o texto como pretexto para o que quer afirmar.

O interessante é que, quando o querer do interprete é maior que a bíblia, ele usa as bênçãos para si e as recomendações para os outros. Como é interessante ver que as três vezes que Jesus cita a Bíblia para responder Satanás, Ele interpreta para Ele mesmo e não para atacar satanás. Ele afirma que não só de pão ele vive, mesmo estando 40 dias sem comer. Não tentarás o senhor teu Deus, mesmo sabendo que Deus responderia os desejos do seu coração, e que ele deveria adorar somente a Deus. Todas as citações foram de encontro com Ele mesmo e não diretamente a Satanás.

Nas batalhas espirituais daqueles que tem o princípio do reino de Cristo, a palavra sempre passa primeiro por aquele que interpreta, diferentemente do acusador, que as usa sempre para atacar o outro, independente do que a palavra fala para ele mesmo.

Pensando bem nos dias de hoje e neste texto, o que estava por trás dos desafios que satanás colocou a Jesus? Fico pensando que Jesus poderia transformar não só a pedra em pão como o próprio diabo em pão. Não pularia do templo e pediria para os anjos pegarem, ria da cara de Satanás e sairia voando. E na hora de que Satanás pedisse para ele se prostrar, com um dedo ele apontaria para Satanás e o fazia beijar seu pé naquela mesma hora. Esta é a reação de um Jesus todo poderoso! Não é?

Mas se ele reagisse dessa forma, com tudo o que ele tem “direito”, ele teria caído nas três tentações de Satanás: prazer, poder e fama. Teria interpretado as verdades do Reino com os princípios da hermenêutica de Satanás. Mas Jesus, ao vencer as tentações, mostra que seu reino não teria os princípios deste mundo, e sim, princípios de renúncia, serviço e humildade.

Esta é a grande diferença entre a hermenêutica de Satanás e a hermenêutica de Jesus, uma parte da prerrogativa do que dá prazer, poder e fama e a outra, da prerrogativa do amor: renúncia, serviço e humildade. Que Deus nos ajude a viver os princípios da hermenêutica de Cristo.

SOU UM ADMIRADOR de Gandhi. Cheguei mesmo a escrever um livro sobre ele. Estou planejando convocar os amigos para uma homenagem póstuma a esse grande líder pacifista e vegetariano. Pensei que uma boa maneira de homenageá-lo seria um evento numa churrascaria, todo mundo gosta de churrasco, um delicado rodízio com carnes variadas, picanhas, filés, costelas, cupins, fraldinhas, lingüiças, salsichas, paios, galetos e muito chope. O grande líder merece ser lembrado e festejado com muita comilança e barriga cheia!

Eu não fiquei doido. O que fiz foi usar de um artifício lógico chamado “reductio ad absurdum” que consiste no seguinte: para provar a verdade de uma proposição, eu mostro os absurdos que se seguiriam se o seu contrário, e não ela, fosse verdadeiro. Eu demonstrei o absurdo de se celebrar um líder vegetariano de hábitos frugais com um churrasco.

Uma homenagem tem de estar em harmonia com a pessoa homenageada para torná-la presente entre aqueles que a celebram. Uma refeição, sim. Mas pouca comida. Comer pouco é uma forma de demonstrar nosso respeito pela natureza. Alface, cenoura, azeitonas, pães e água.

Escrevo com antecedência, hoje, 27 de novembro, um mês antes, para que vocês celebrem direito. A celebração há de trazer de novo à memória o evento celebrado. É uma cena: numa estrebaria uma criancinha acaba de nascer. Sua mãe a colocou numa manjedoura, cocho onde se põe comida para os animais. As vacas mastigam sem parar, ruminando. Ouve-se um galo que canta e os violinos dos grilos, música suave… No meio dos animais tudo é tranqüilo. Os campos estão cobertos de vaga-lumes que piscam chamados de amor. E no céu brilha uma estrela diferente. Que estará ela anunciando com suas cores? O nascimento de um Deus?

É. O nascimento de um Deus. Deus é uma criança.

O nascimento do Deus criança só pode ser celebrado com coisas mansas. Mansas e pobres. Os pobres, no seu despojamento, devem poder celebrar. Não é preciso muito. Um poema que se lê. Alberto Caeiro escreveu um poema que faria José e Maria, os pais do menininho, rir de felicidade: “Num meio-dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia: “Vi Jesus Cristo descer a terra. Veio pela encosta do monte tornado outra vez menino. Tinha fugido do céu…” Longo, merece ser lido inteiro, bem devagar…

Uma canção que se canta. Das antigas. Tem de ser das antigas. Para convocar a saudade. É a saudade que traz para dentro da sala a cena que aconteceu longe. Sem saudade o milagre não acontece.

Algo para se comer. O que é que José e Maria teriam comido naquela noite? Um pedaço de queijo, nozes, vinho, pão velho, uma caneca de leite tirado na hora. E deram graças a Deus.

E é preciso que se fale em voz baixa. Para não acordar a criança.

Naquela mesma noite, havia uma outra celebração no palácio de Herodes, o cruel. Ele tinha medo das crianças e mataria todas se assim o desejasse. A mesa do banquete estava posta: leitões assados, lingüiças, bolos e muito vinho… Os músicos tocavam, as dançarinas rodopiavam. Grande era a orgia.

É. Cada um celebra o que escolhe. Acho que vou fazer uma sopa de fubá que tomarei com pimenta e torradas. E lerei poemas e ouvirei música. E farei silêncio quando chegar a meia-noite e, quem sabe, rezarei?”

Reflexão interessante do Rubem Alves publicada na Folha de São Paulo, 27/11 sobre o Natal, celebração de festa e, porque não, silêncio?

Alguns pastores e pregadores confundem a responsabilidade de “expor a bíblia com seriedade” e “expor a bíblia sério” e alegam que o humor é uma forma inapropriada para uma pessoa falar de Deus e do Seu Reino, concluindo que seria desrespeitoso ou até blasfemador comunicar o evangelho de uma forma humorada.

Este argumento seria incoerente com o método que Jesus às vezes optou usar para falar do céu e do seu reino. O que estou querendo dizer é que Jesus usava muito humor para pregar.

Mas por que muitos de nós não vemos de cara o humor de Jesus?

Tirando o caso dos cearenses, o humor nunca foi algo fácil de passar para frente, principalmente em forma escrita. Esta foi a dificuldade dos escritores dos evangelhos ao ouvirem as histórias de Jesus, tiveram que escrevê-las.

Já deve ter acontecido com você alguma situação muito engraçada, onde você passou mal de rir, mas pouco tempo depois, quando você foi contar para alguém, não teve nenhuma graça e a pessoa não riu um décimo do que você riu na hora do fato.

Outra dificuldade é a barreira da cultura e do tempo. Canso de ver filmes de “humor” da Europa, EUA ou Japão e não consigo ver graça nenhuma, mesmo sabendo que foram filmes de sucesso em seus países. Ou, até com alguns filmes nacionais um pouco mais antigos, sinto um humor muito ingênuo. Em se tratando do texto bíblico, houve um afastamento que dificultou a percepção do humor nas histórias de Jesus. Mas, se repararmos, veremos uma forma de humor muito clara e descontraída nas parábolas de Cristo.

Quando Jesus ia contar uma história, mesmo que o assunto fosse delicado e tenso, vemos que as histórias dele não seguem a lógica normal, sempre tem um absurdo que o ouvinte, naquela época, tomaria um susto e provavelmente daria risada. Um humorista famoso definiu o humor como algo inesperado ou inusitado que acontece no nosso dia, e nas histórias de Jesus isso estava presente o tempo todo.

Uma história humorada, geralmente, usa o recurso de exagerar as coisas ou não seguir a lógica. Assim como a piada do homem na estrada com seu carro e leu na placa: cuidado curva perigosa a esquerda! E ao vê-la ficou com medo e decidiu evitar a curva virando para a direita. É claro que nas parábolas de Jesus a intenção final não era rir, pois suas histórias não eram piadas e isso eu queria deixar bem claro, mas Ele usava o humor em praticamente todas as historias que contava para mostrar os valores do Reino.

Imagine um camponês ouvindo Jesus contar que um semeador saiu jogando semente para tudo quanto é lado, algumas caíram na estrada, outras nos espinhos, e assim vai! E logo um gritaria lá de trás da multidão: Este semeador é doido, qualquer um sabe que tem que preparar a terra e colocar a semente com cuidado na vala preparada, pois a semente é cara. Ou, um pastor de ovelha ouvir que um pastor largou noventa e nove no deserto para ir atrás de uma, e um patrão que paga o mesmo tanto para alguém que trabalha um dia ou um hora! E assim vai: a mulher que da uma festa por achar uma moeda, o filho que pede da herança do pai vivo, o leproso (Lazaro) que vai pro céu e o rico (judeu) que vai para o inferno, um reino comparado com um grão de mostarda…

No mínimo, uma risada e a atenção, Jesus conquistava do publico, pois o humor de Jesus deixava a história muito mais interessante. Está certo que alguns, principalmente os fariseus, ao entender a profundidade da história, seu sorriso se tornava raiva, mas devemos entender que, à primeira vista, os absurdos das parábolas de Jesus eram engraçados.

Não acredito que Jesus usava o humor apenas para chamar a atenção do publico, ou para a turma rir um pouco mais, ou para tornar mais interessantes suas histórias. Jesus coloca o humor de forma especial no seu ministério de ensino. Acredito que Ele usava o humor em suas histórias de uma maneira profética, a fim de mostrar os valores do reino e apontar os valores invertidos dos religiosos que o perseguiam.

O humor das parábolas de Jesus pode ser a chave hermenêutica (de interpretação) para o começo da compreensão da lição de cada uma de suas histórias. Se entrarmos na história de Jesus pelo humor desconexo aos valores que temos, fica mais fácil entender que o semeador do evangelho não precisa se preocupar com o solo (coração) que vai receber a semente, pois a tarefa dele é apenas semear independente do solo que ele “acha” que é bom, ou que o pastor do Reino é aquele que entende que cada perdido vale o todo (os 100%) no reino de Deus.

Faça o exercício de ouvir as histórias de Jesus com mais humor, e logo perceberá que as parábolas farão mais sentido, não com a realidade, mas com os valores do reino.
Precisamos levar a sério a bíblia, levar a sério a sua interpretação e com isso levar mais a sério o humor.


Texto feito para o Blog “marcos botelho do JV”

Acredito que a maioria dos jovens, principalmente namorados, não entende direito o versículo “façam aos outros o que vocês querem que lhes façam”(Mt 7.12), pois eles entendem este versículo literalmente, e não o espírito da lei e dos profetas.

Vou explicar melhor, quando vejo as brigas de namorados, reparo que na maioria das vezes eles estão praticando o versículo literalmente, e isso ao invés de unir, tem os separado cada vez mais.

Uma das grandes crises dos casais é que eles estão tratando os outros da maneira com que querem ser tratados, e é este pensamento que tem criado as grandes divergências nos relacionamentos, pois o texto, mesmo não parecendo, fala exatamente o contrário.

Não sei se é a regra, mas geralmente quando algum rapaz vem se queixar de seu namoro, eles se queixam que a namorada não dá espaço para ele, não deixa sair com os amigos e ter seu próprio tempo sozinho. Do outro lado, quando elas vem falar comigo, vejo que a grande reclamação é contrária, que eles não dão atenção para elas, não ligam para as sua vidas e não querem passar muito tempo com elas.

A grande crise que eu tinha é que ao perguntar como um deles tratava o outro, eles respondiam que gostavam muito um do outro, e que faziam para o outro o que gostariam que o outro fizesse para eles.

Hoje, para o espanto deles, eu falo que o que eles estão fazendo não é Bíblico e sim uma atitude egoísta, pois para entendermos o versículo não podemos interpretá-lo literalmente, e sim o espírito da lei.


Quando tratamos o outro da maneira que gostaríamos de ser tratado, partimos da premissa que todos são iguais e querem ser tratados do mesmo jeito, e isso não é verdade. Somos diferentes um dos outros, principalmente o homem da mulher. O versículo não esta falando da maneira, e sim do principio do tratamento, o amor.

Cada um sente (ou sabe) em si mesmo o que falta para ser completo pelo outro. Que não adianta chegar muito perto do outro, sendo que o outro precisa é de espaço, ou me afastar, já que o que a outra pessoa precisa é de proximidade.

Temos que tratar os outros de maneira a completá-los, assim como gostaríamos de ser completos pelo outro.

Em um primeiro momento, vamos fazer não o que nos queremos e sim o que o outro quer e precisa. Isso requer muita humildade e abstinência de sua vontade. Mas, em um segundo momento, com o tempo, você começa a colher o fruto de uma pessoa que está completa em você e que abre mão de sua vontade para satisfazê-lo(a) da maneira que você espera.

O homem e a mulher não pensam e se comportam de maneira igual e é por isso que quando ele a trata da maneira que ele gostaria de ser tratado e não da maneira que ela gostaria, ela vai se abrir com uma amiga que a apóia, porque elas pensam de forma igual. E da mesma maneira acontece com os homens.

Muitas vezes amar é abrir mão da sua vontade, para fazer o outro feliz. Tem uma música do Djavan que fala “vem me fazer feliz porque eu te amo…”. Como diria minha namorada: este cara não sabe direito o que é o amor, pois se soubesse falaria “vou te fazer feliz porque eu te amo!” Então o que é o espírito de fazer ao próximo o que você gostaria que fizesse com você: Amar o próximo de tal forma que a pessoa se sinta completa assim como você quer ser completado.

Texto feito para o Blog “marcos botelho do JV” 22/11/07

Ao longo do ministério com jovens pude perceber como era difícil expor a bíblia para os jovens de uma maneira que eles entendessem bem e que os motivassem a continuar a leitura do texto quando voltassem para casa.

Os seminários geralmente nos ensinam que logo após estudarmos um texto bíblico devemos sistematizá-lo para depois expô-lo em um estudo ou pregação. Com isso, cresci acostumado a ouvir dos pregadores, depois de uma breve introdução, uma mensagem cheias de pontos, passos e tópicos.

Um dos resultados de uma mensagem muito sistematizada é que pode fazer com que o público não entenda o texto, mas sim o resultado, a conclusão, a sistematização do texto. Desta forma, o público não aprende a pensar no texto, mas apenas a digerir o que foi colocado.

Corremos o risco de o grande foco ficar nos pontos e não no texto em si e, o interesse com a palavra pode cada vez mais diminuir, pois o texto fica tão distante da nossa realidade e, apenas na cabeça do pregador é que ela faz sentido com o nosso cotidiano.

Certa vez, conversando com um amigo e mestre, Ariovaldo Ramos, ele falou para mim que “o grande problema de interpretação da bíblia é que os intérpretes não entendem que a Biblia é um texto zipado”. E essa frase ficou na minha cabeça por anos até eu entender, desenvolver melhor a idéia e começar a aplicar nas palestras.

Uma definição particular de “Zip” é que ele é um programa de computador que compacta de tal forma outros programas, fazendo com que eles fiquem mais leves e caibam em lugares onde não caberiam normalmente.

É interessante pensar que a mensagem de Deus, como João falou no fim do seu evangelho, não poderia caber nem em sonhos dentro de um só livro, pois não haveria livros suficientes no mundo para escrever tudo que Ele fez e falou.

Por isso, o Espírito Santo, através dos escritores, fez uma seleção e “zipou” dentro de uma coleção de livros chamado bíblia. É muito importante lembrar que quando se “zipa” um texto, ele continua completo e com tudo do original, apenas fica compactado para caber em um recipiente.

Se apenas jogamos o texto com um pouco de contexto, e logo entramos nos tópicos, o público compreende o que pregador mandou fazer, mas não entende o que, de fato, aconteceu na passagem. Com isso, o mais importante não é o texto e sim o pregador.

Precisamos, como intérpretes da bíblia, aprender a “dezipar” o texto bíblico em nossas leituras bíblicas ou mensagens para que possamos entender o que realmente está acontecendo no texto.

A grande pergunta neste ponto do pensamento é: como podemos “dezipar” o texto bíblico? Qual ferramenta usar para isso? Eu diria: a sua imaginação! C. S. Lewis falou que a razão leva a verdade e a imaginação ao sentido de um texto.

Muitos textos bíblicos, como o evangelho, por exemplo, se preocupam em narrar os fatos, mas por estarem limitados na forma de texto (letra), não conseguem expressar por completo os sentimentos, os detalhes, o que causou certas reações. Isso cabe ao leitor. E ele só consegue remontar os fatos e dar sentido usando sua imaginação.

É necessário usar a imaginação, o que é diferente de viajar em idéias que não estão no texto, pois só estamos “dezipando” o que está contido na bíblia. E, principalmente, como em tudo na vida, temos que lembrar que a orientação do Espírito Santo é fundamental para não cometermos erros.

Podemos até entender em nossas mentes uma poesia de salmos sistematizada, mas só faz sentido e cai no nosso coração se ela for declamada, cantada. Se o começo do Salmo 23 não se tornar um campo aberto bem verde cortado por um rio de águas tranqüilas, com um senhor sentado em uma pedra, bem atento com um cajado na mão, posso até entender que Deus cuida de mim, mas não terei a consciência da beleza com que o salmista descreve o cuidado deste pastor.

No século XX o bom pregador era alguém que sistematizava bem os textos bíblicos, mas no século XXI o desafio é diferente. Um bom intérprete é um contador de histórias, alguém que expõe o texto colocando os detalhes e, assim, dando vida para que o público entenda o evangelho, a História.

Se aprendermos a “dezipar” o texto, iremos além de ensinar os princípios bíblicos para vida, daremos mais vida ao texto e com isso conseguiremos restaurar o amor pela leitura bíblica.

Texto feito para o Blog “marcos botelho do JV” 01/11/07

Por volta dos meus 10 anos de idade, quando ia jogar bola na escola, sempre tinha alguém mais novo que queria jogar, mas não era compatível com os outros meninos. Tenho que admitir que eu já fui um desses também. Para os times não ficarem desiguais, a gente colocava aquele menino a mais no time e fala que ele era café com leite.

Não sei de onde veio esta expressão, mas, neste caso, significava que para ele as regras não eram válidas, não importa o que ele fizesse, pois no final das contas ele e nada era a mesma coisa.

Muito tempo depois, fui para o seminário e, nas discussões cristológicas, encontrei uma turma com uma opinião acerca de Jesus diferente da que eu tinha.

Eles viam Jesus como um Super Homem e eu via Jesus com um homem e como Deus na mesma pessoa. Deixa-me explicar melhor: eles acreditavam que Jesus era o melhor em tudo, se ele fosse um cientista seria o melhor de todos os tempos, se ele fosse um corredor seria o mais rápido, se ele fosse um empresário venderia muitos livros, pois seria sempre o melhor.

Eu nunca vi Jesus desta maneira, nem li em nenhum lugar que as peças que ele fez como carpinteiro eram tão perfeitas que valiam ouro. O Jesus que li na Bíblia nunca se destacaria nestas áreas, pois era um homem normal, ele se destacou em coisas que o mundo empresarial não valoriza muito: no amor, na compaixão, na santidade, nestas áreas Jesus era o melhor e não, por exemplo, em matemática. E pelas parábolas da ovelha e da dracma, realmente matemática e economia não eram seu forte.

Mas o grande problema que percebo nesta visão do “Jesus super homem” é o efeito contrário que ele gera no final, pois se Jesus era mesmo um Super Homem, e tudo Ele podia fazer, então tudo que Ele fez não pode servir de exemplo para nós, pois não somos super humanos.

É como se eu falasse que temos que ser corajosos como o verdadeiro “Super Man” e enfrentarmos os bandidos armados de peito aberto. Você logo me responderia: Pera ai, não vale me comparar com o “Super Man”, ele é de aço, assim até eu!

Lembro-me de estar confrontando um amigo e ele me perguntou se praticamente todo mundo pecaria nisso que ele havia feito e eu respondi que não, Jesus não pecou. E para o meu espanto ele me respondeu, mas Jesus é Jesus!

No final das contas este amigo pensava igual aquela turma. O que ele quis dizer é que Jesus é Deus, é Super Homem e, desta forma, Jesus Cristo seria café com leite.

O fato é que a maneira com a qual vemos Jesus reflete direto no nosso comportamento. E se vemos a figura de Jesus como um super herói, cheio de super poderes, o efeito da nossa intenção em “exaltá-lo” se inverte e logo chegaremos à conclusão de que Jesus não vale como paradigma de vida, pois ele é café com leite.

Texto feito para o Blog “marcos botelho do JV” 24/10/07