Se você me perguntasse qual Super Herói de desenhos animados mais mexeu comigo nos últimos quinze anos, eu responderia, rapidamente, Wolverine. Sempre gostei da “fera indomável”, como diria o professor Xavier. Das garras que saem de sua mão, da sua estrutura de Adamantium indestrutível, e da sua audição e faro aguçado. Mas o super poder que o colocou como destaque dos X-Man e dos personagens da Marvel foi o seu poder de regeneração (fator de cura).

O cara não tem medo de quase nada, pois no final das contas, se ele se machucar, suas células vão se regenerar. Digo quase porque mesmo com a regeneração ele pode morrer.

Na vida real esta tem sido a busca mais ferrenha da ciência, conseguir inventar uma substância que acelere a regeneração celular, curando mais rápido e evitando a morte de muitos. Mas, não conseguimos nem inventar a cura das células cancerígenas, quanto mais uma regeneração rápida do corpo.

Na bíblia, eu me lembro de alguns episódios de regeneração celular que ficaram bem claras: quando Jesus ressuscitou Lázaro depois de três dias de putrefação. Jesus usa o milagre da regeneração com dezenas de leprosos e outros doentes. E o Pai o ressuscita no terceiro dia, o regenerando no corpo glorificado.

Realmente o poder dos dois personagens é parecido, mas qual seria a diferença entre os dois personagens no uso de seus poderes, tirando o fato muito relevante de que um, pela fé, é verdadeiro e o outro, temos certeza, é apenas um HQ?

Se “grandes habilidades requerem grandes responsabilidades”, a grande diferença da regeneração dos dois é o propósito final.

Enquanto os escritores de Wolverine o colocam como um cara descontrolado, que usa seu dom para atacar os seus inimigos e, é até legal nos filmes e desenhos, vemos na bíblia Cristo usando o dom do Espírito para regenerar o próximo.

Não tenho o poder de regeneração, acho até que demoro muito para estancar quando me corto, mas me questiono: caso tivesse, usaria para meus sonhos de aventura? Para me tornar indestrutível? Ou, usaria com os que estão enfermos?

Jesus nunca usou o dom de cura para seu benefício e isso o torna O mestre, pois o versículo é que o bom pastor dá sua vida pelas ovelhas, e não que as protege com um poder indestrutível. Quando Jesus morreu, foi o Pai que o ressuscitou, o glorificando.

Precisamos aprender a usar o dom que nos foi dado em benefício do próximo, pois, afinal, foi para isso que nos foi dado.

[Com Grandes Poderes Vem Grandes Responsabilidades é uma “série teen” de artigos que tem por objetivo fazer um paralelo entre os super-poderes dos heróis de HQ e os personagens bíblicos. Além de destacar o fato de que os poderes de uns são, pela fé ,verdadeiros e, dos outros são apenas poderes fictícios. Os textos também querem mostrar que, na bíblia, o que transforma uma pessoa em um herói não são os super-poderes e sim o evangelho do Reino de Deus.]


Lembro-me de um encontro de pastores e líderes da SEPAL onde um líder de uma igreja na Bahia me chamou no canto e pediu para eu orar por ele, pois há muito tempo não conseguia produzir uma peça nova. Contou-me que, quando entrou na igreja, sua mente era muito fértil, ele sempre criava algo novo na área de teatro e isso o deixava realizado no chamado que Deus tinha lhe dado. Ele só não sabia o porque tinha estagnado, algo havia paralisado a mente dele.

Naquela noite eu orei com ele, mas também expliquei rapidamente alguns problemas que o crente enfrenta no ambiente eclesiástico e que ele precisava identificá-los para poder superá-los.

Muita gente vem conversar comigo e até pedir oração, pois alegam que não conseguem criar algo novo, belo e impactante. Me pedem conselhos e técnicas para eles exercitarem e conseguirem no final escrever e produzir uma peça.

Não sei ao certo onde fica o limite entre a disciplina e a inspiração, mas é verdade que podemos treinar nossa mente para ser mais criativa quanto à criação de peças.

Um dos problemas é que existe uma idéia nas igrejas, explícitas ou implícitas, de que imaginar, fantasiar é pecado. Um bom crente não inventa moda na hora de falar uma verdade, pois a forma figurada é o ultimo passo para a idolatria.

Mas quando voltamos à bíblia percebemos que as figuras, principalmente no antigo testamento, e a imaginação são soltas na linguagem poética, contos e textos apocalípticos. O próprio Jesus não era a favor de ir direto ao assunto, sempre imaginava e contava uma historia para ilustrar uma verdade.

Usando uma figura para os criadores de peças, diria que a bíblia é o quadro mais lindo que existe, um quadro de contornos em preto e branco, mas cada intérprete o colori de acordo com sua realidade ou seu sentimento no momento. Intencionalmente ou não, quando expomos este quadro ele é apresentado com as cores que nós colocamos, podendo ser algo acinzentado ou bem colorido, de acordo com o intérprete.

Assim, quando colocamos a nossa imaginação para reinterpretar algo do cotidiano ou bíblico, devemos colorir os detalhes, as lacunas em branco sem passar por cima dos traços principais da pintura, pois não devemos esquecer que a cor que colocamos sem tirar o contorno pode apenas ressaltar os traços ou borrá-los.

Não é pecado imaginar, não é pecado ter fantasias, as crianças podem nos ensinar isso muito bem, elas são PhD’s na arte de fantasiar. Temos que nos tornar mais crianças se quisermos trabalhar na criação de peças. Não estou falando em peças para crianças (apenas), estou falando de peças que usam a fantasia e a imaginação para todas as idades.

Não tenha medo de imaginar as histórias bíblicas, de remontar os detalhes e de ir além. Não apenas falar o que não foi registrado pelos personagens, falar o que os objetos falariam se pudessem falar, porque, na verdade, eles podem através da fantasia, através de você.

O seu limite é a graça de Deus, é o amor ao próximo, pois você está colocando a arte e a imaginação a serviço dEle e apontando para Ele.

Cada vez está acontecendo mais cedo entre os jovens, já chegou na fase da adolescência: O dia do acerto de contas com Deus!

Vai haver um dia, ou todos os dias, que você do nada sente falta de alguém que não conheceu, sente falta de uma namorada, ou no caso das meninas um namorado, sente falta de estar com alguém. Você olha para sua vida vê que tem até certo ponto se cuidado, está levando a vida a sério e até já ora pelo assunto namoro e casamento, e nada, nada de Deus te dar um namoro.

Ai, pela graça de Deus, você chega na presença Dele e fala: Pai tenho feito tudo para te servir, eu mereço estar namorando! Por que Você está fazendo isso comigo?
Para responder este questionamento, peço licença para usar uma experiência na minha vida onde fiz esta exigência para Deus e ele me respondeu de uma forma que jamais esquecerei.

Já tinha me formado do seminário e estava no ministério, com um namoro com mais de três anos nas costas, com planos de casar e tal. Foi quando nesses furacões da vida acabou tudo, sem chance de voltar.

Estava arrasado, muito mal mesmo, estava vendo-a se dando bem com outro cara e eu aqui sem nada, foi quando decidi ir conversar com um dos meus mentores, afinal de conta pastor é pra isso, não é?

Cheguei para esse mentor e amigo de ministério para me abrir com ele. Estava contando sobre minha vida e como tinha me dedicado nos últimos anos para Deus, colocando Ele em primeiro lugar na minha vida, fazendo tudo o que é certo, e como minha vida tinha caído por terra naqueles últimos meses por causa daquele fim de namoro. Entramos na madrugada naquela noite, e ele foi ouvindo todo o meu desabafo e tudo que eu precisava falar. Foi quando estávamos chegando no fim daquele aconselhamento e já estava esperando as famosas palavras que os pastores costumam dizer nesta hora. Você sabe quais são né? Não se preocupe meu jovem, Deus tem reservado alguém especial para você!

Mas aquele meu mentor, não era igual a maioria dos pastores. Como eu gostaria naquela hora que ele fosse igual e me dissesse estas palavras mágicas, mas ele não era. Ele virou para o meu lado, olhou nos meus olhos e perguntou: Você já entregou sua vida por completa a Jesus Cristo?

Não entendi o porque ele estava perguntando aquilo aquela hora, será que ele não tinha ouvido tudo que eu tinha falado até então, de todo o meu ministério e o tanto que estava dedicando minha vida ao Senhor? Mas ele me explicou. Marcos, tenho ouvido você falar o tanto que você esta fazendo para Deus, mas a única coisa que ele te pede é que você entregue a sua vida toda para ele. Você já entregou o seu direito de se casar para Deus.

Eu respondi depressa e com ironia: você me conhece, se Ele fosse pedir isso não me faria tão hetero como sou. Rimos um pouco e ele me explicou, se alguém que já se deparou com Cristo na cruz ainda achar que tem algum direito a exigir dele, não se converteu, não entregou a sua vida na cruz de Cristo.

A paulada foi tão grande que eu não dormi naquela noite, pois descobri que era o filho mais velho da parábola do filho prodigo, fazia tudo para Deus para ganhar as bênçãos que achava que tinha direito.

Se aquele amigo tivesse falado as palavras mágicas dos pastores eu teria ido dormir bem naquela noite, e acordaria com o coração bem confortado longe de Deus.
Hoje entendo um pouco sobre os planos de Deus e creio que ele faz coisas maravilhosas para os que os amam. Mas sei que se Deus der o que merecemos por direito, Deus nos daria a cruz e a morte! Graças a Jesus que não ganho o que eu mereço, e sim o que não mereço: a salvação.

Por isso, quando chegar o dia do acerto de contas com Deus sobre o seu namoro que não chega, não vem me procurar para se aconselhar, procura aqueles pastores que vão falar: Não se preocupe, Deus tem preparado alguém especial para você! Porque, a final de contas, na maioria das vezes Deus tem mesmo, não é?

Desde que os judeus entenderam que eram o povo escolhido no antigo testamento, eles quiseram construir um lugar onde Deus pudesse habitar aqui na terra.

No começo, como eram nômades no deserto, fizeram o Tabernáculo, que quer dizer Morada de Deus, eles colocaram arca da Aliança dentro, junto com outros objetos sagrados. Me lembro de ter tido aulas sobre o Tabernáculo, os detalhes são fantásticos, cada mínimo detalhe significava algo e, na nossa leitura cristã parecia apontar claramente para o Messias.

Deus aceita a construção feita por homens e desce para se manifestar e tabernacular com o seu povo naquela tenda.

Depois de algum tempo veio a monarquia e, uma tenda até que serviu no tempo do deserto, mas já não parecia ser um lugar bom, suficiente para Deus se manifestar, afinal de contas até o palácio do rei Davi dava de dez a zero na tal barraca de pano.

Por isso, decidiram construir um Templo, uma casa para Deus. Davi não poderia construir por ter a mão suja de sangue, mas seu filho Salomão construiu um mega templo, com madeiras importadas, muito ouro, mão de obra escrava, um Templo para ninguém botar defeito. E Deus mais uma vez aceita a construção de seu povo e se manifesta naquele lugar.

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Que a Bíblia é a palavra de Deus, isso eu não discuto, mas que a interpretação (hermenêutica) que nós fazemos e a mensagem que nós pregamos a partir dela é mensagem de Deus, aí já não coloco a mão no fogo. Pois mesmo a Biblia sendo palavra de Deus, os princípios de interpretação que você tiver vão definir se o que você fala vem da parte de Deus ou de outras partes.

Ter uma hermenêutica errada seria como se você tivesse tomado uma picada de uma serpente venenosa e lhe restasse pouco tempo de vida e, agora você se encontra frente a dezenas de remédios do depósito da fazenda e na sua mão a receita do único remédio que pode te salvar, mas você não consegue interpretar o que está escrito no papel. E com isso, você arrisca, tomando o remédio que “acha” ser o que está escrito. O problema é que se você errar o chute, você vai morrer. Em se tratando de interpretação bíblica, não tem como basear a nossa vida em achismos.

Citar a bíblia para afirmar uma verdade sua não quer dizer nada demais. Gostaria de tirar como base alguns princípios que encontrei na hermenêutica usada por Satanás e por Cristo no episódio da tentação no deserto (Mt.4:1-11).

Quando Satanás tenta Jesus no alto do templo, falando para Ele provar que é filho de Deus pulando lá de cima, Satanás cita Salmo 91:1 e 2, rogando as promessas do cuidado de Deus para os Seus filhos.

Se até Satanás pode citar e interpretar a bíblia, a grande questão é: quais são os princípios que vamos usar na nossa interpretação para não serem os mesmos princípios de Satanás e sim de Jesus?

Algo que me chama atenção é que Satanás só cita a bíblia em uma ocasião das três tentações, só quando o texto parecia estar ao seu favor. Ele usa exatamente a introdução que Jesus já tinha feito na resposta da tentação de transformar pedra em pão: “pois está escrito”. Creio que esta seja a dica de diferença entre Jesus e Satanás, Jesus cita a Palavra de Deus nas três respostas. A questão é que não é só na tentação, Jesus respira palavra de Deus o tempo todo. O único na história que poderia ter livre docência ao ensinar e viver, decide viver a sua vida toda debaixo do que tinha sido revelado. Satanás, porém, já tinha a idéia pronta, o que queria fazer e viver e foi até a bíblia para encontrar apoio na sua verdade. E este é um dos princípios da hermenêutica de satanás: o texto como pretexto para o que quer afirmar.

O interessante é que, quando o querer do interprete é maior que a bíblia, ele usa as bênçãos para si e as recomendações para os outros. Como é interessante ver que as três vezes que Jesus cita a Bíblia para responder Satanás, Ele interpreta para Ele mesmo e não para atacar satanás. Ele afirma que não só de pão ele vive, mesmo estando 40 dias sem comer. Não tentarás o senhor teu Deus, mesmo sabendo que Deus responderia os desejos do seu coração, e que ele deveria adorar somente a Deus. Todas as citações foram de encontro com Ele mesmo e não diretamente a Satanás.

Nas batalhas espirituais daqueles que tem o princípio do reino de Cristo, a palavra sempre passa primeiro por aquele que interpreta, diferentemente do acusador, que as usa sempre para atacar o outro, independente do que a palavra fala para ele mesmo.

Pensando bem nos dias de hoje e neste texto, o que estava por trás dos desafios que satanás colocou a Jesus? Fico pensando que Jesus poderia transformar não só a pedra em pão como o próprio diabo em pão. Não pularia do templo e pediria para os anjos pegarem, ria da cara de Satanás e sairia voando. E na hora de que Satanás pedisse para ele se prostrar, com um dedo ele apontaria para Satanás e o fazia beijar seu pé naquela mesma hora. Esta é a reação de um Jesus todo poderoso! Não é?

Mas se ele reagisse dessa forma, com tudo o que ele tem “direito”, ele teria caído nas três tentações de Satanás: prazer, poder e fama. Teria interpretado as verdades do Reino com os princípios da hermenêutica de Satanás. Mas Jesus, ao vencer as tentações, mostra que seu reino não teria os princípios deste mundo, e sim, princípios de renúncia, serviço e humildade.

Esta é a grande diferença entre a hermenêutica de Satanás e a hermenêutica de Jesus, uma parte da prerrogativa do que dá prazer, poder e fama e a outra, da prerrogativa do amor: renúncia, serviço e humildade. Que Deus nos ajude a viver os princípios da hermenêutica de Cristo.

SOU UM ADMIRADOR de Gandhi. Cheguei mesmo a escrever um livro sobre ele. Estou planejando convocar os amigos para uma homenagem póstuma a esse grande líder pacifista e vegetariano. Pensei que uma boa maneira de homenageá-lo seria um evento numa churrascaria, todo mundo gosta de churrasco, um delicado rodízio com carnes variadas, picanhas, filés, costelas, cupins, fraldinhas, lingüiças, salsichas, paios, galetos e muito chope. O grande líder merece ser lembrado e festejado com muita comilança e barriga cheia!

Eu não fiquei doido. O que fiz foi usar de um artifício lógico chamado “reductio ad absurdum” que consiste no seguinte: para provar a verdade de uma proposição, eu mostro os absurdos que se seguiriam se o seu contrário, e não ela, fosse verdadeiro. Eu demonstrei o absurdo de se celebrar um líder vegetariano de hábitos frugais com um churrasco.

Uma homenagem tem de estar em harmonia com a pessoa homenageada para torná-la presente entre aqueles que a celebram. Uma refeição, sim. Mas pouca comida. Comer pouco é uma forma de demonstrar nosso respeito pela natureza. Alface, cenoura, azeitonas, pães e água.

Escrevo com antecedência, hoje, 27 de novembro, um mês antes, para que vocês celebrem direito. A celebração há de trazer de novo à memória o evento celebrado. É uma cena: numa estrebaria uma criancinha acaba de nascer. Sua mãe a colocou numa manjedoura, cocho onde se põe comida para os animais. As vacas mastigam sem parar, ruminando. Ouve-se um galo que canta e os violinos dos grilos, música suave… No meio dos animais tudo é tranqüilo. Os campos estão cobertos de vaga-lumes que piscam chamados de amor. E no céu brilha uma estrela diferente. Que estará ela anunciando com suas cores? O nascimento de um Deus?

É. O nascimento de um Deus. Deus é uma criança.

O nascimento do Deus criança só pode ser celebrado com coisas mansas. Mansas e pobres. Os pobres, no seu despojamento, devem poder celebrar. Não é preciso muito. Um poema que se lê. Alberto Caeiro escreveu um poema que faria José e Maria, os pais do menininho, rir de felicidade: “Num meio-dia de fim de primavera, tive um sonho como uma fotografia: “Vi Jesus Cristo descer a terra. Veio pela encosta do monte tornado outra vez menino. Tinha fugido do céu…” Longo, merece ser lido inteiro, bem devagar…

Uma canção que se canta. Das antigas. Tem de ser das antigas. Para convocar a saudade. É a saudade que traz para dentro da sala a cena que aconteceu longe. Sem saudade o milagre não acontece.

Algo para se comer. O que é que José e Maria teriam comido naquela noite? Um pedaço de queijo, nozes, vinho, pão velho, uma caneca de leite tirado na hora. E deram graças a Deus.

E é preciso que se fale em voz baixa. Para não acordar a criança.

Naquela mesma noite, havia uma outra celebração no palácio de Herodes, o cruel. Ele tinha medo das crianças e mataria todas se assim o desejasse. A mesa do banquete estava posta: leitões assados, lingüiças, bolos e muito vinho… Os músicos tocavam, as dançarinas rodopiavam. Grande era a orgia.

É. Cada um celebra o que escolhe. Acho que vou fazer uma sopa de fubá que tomarei com pimenta e torradas. E lerei poemas e ouvirei música. E farei silêncio quando chegar a meia-noite e, quem sabe, rezarei?”

Reflexão interessante do Rubem Alves publicada na Folha de São Paulo, 27/11 sobre o Natal, celebração de festa e, porque não, silêncio?

Alguns pastores e pregadores confundem a responsabilidade de “expor a bíblia com seriedade” e “expor a bíblia sério” e alegam que o humor é uma forma inapropriada para uma pessoa falar de Deus e do Seu Reino, concluindo que seria desrespeitoso ou até blasfemador comunicar o evangelho de uma forma humorada.

Este argumento seria incoerente com o método que Jesus às vezes optou usar para falar do céu e do seu reino. O que estou querendo dizer é que Jesus usava muito humor para pregar.

Mas por que muitos de nós não vemos de cara o humor de Jesus?

Tirando o caso dos cearenses, o humor nunca foi algo fácil de passar para frente, principalmente em forma escrita. Esta foi a dificuldade dos escritores dos evangelhos ao ouvirem as histórias de Jesus, tiveram que escrevê-las.

Já deve ter acontecido com você alguma situação muito engraçada, onde você passou mal de rir, mas pouco tempo depois, quando você foi contar para alguém, não teve nenhuma graça e a pessoa não riu um décimo do que você riu na hora do fato.

Outra dificuldade é a barreira da cultura e do tempo. Canso de ver filmes de “humor” da Europa, EUA ou Japão e não consigo ver graça nenhuma, mesmo sabendo que foram filmes de sucesso em seus países. Ou, até com alguns filmes nacionais um pouco mais antigos, sinto um humor muito ingênuo. Em se tratando do texto bíblico, houve um afastamento que dificultou a percepção do humor nas histórias de Jesus. Mas, se repararmos, veremos uma forma de humor muito clara e descontraída nas parábolas de Cristo.

Quando Jesus ia contar uma história, mesmo que o assunto fosse delicado e tenso, vemos que as histórias dele não seguem a lógica normal, sempre tem um absurdo que o ouvinte, naquela época, tomaria um susto e provavelmente daria risada. Um humorista famoso definiu o humor como algo inesperado ou inusitado que acontece no nosso dia, e nas histórias de Jesus isso estava presente o tempo todo.

Uma história humorada, geralmente, usa o recurso de exagerar as coisas ou não seguir a lógica. Assim como a piada do homem na estrada com seu carro e leu na placa: cuidado curva perigosa a esquerda! E ao vê-la ficou com medo e decidiu evitar a curva virando para a direita. É claro que nas parábolas de Jesus a intenção final não era rir, pois suas histórias não eram piadas e isso eu queria deixar bem claro, mas Ele usava o humor em praticamente todas as historias que contava para mostrar os valores do Reino.

Imagine um camponês ouvindo Jesus contar que um semeador saiu jogando semente para tudo quanto é lado, algumas caíram na estrada, outras nos espinhos, e assim vai! E logo um gritaria lá de trás da multidão: Este semeador é doido, qualquer um sabe que tem que preparar a terra e colocar a semente com cuidado na vala preparada, pois a semente é cara. Ou, um pastor de ovelha ouvir que um pastor largou noventa e nove no deserto para ir atrás de uma, e um patrão que paga o mesmo tanto para alguém que trabalha um dia ou um hora! E assim vai: a mulher que da uma festa por achar uma moeda, o filho que pede da herança do pai vivo, o leproso (Lazaro) que vai pro céu e o rico (judeu) que vai para o inferno, um reino comparado com um grão de mostarda…

No mínimo, uma risada e a atenção, Jesus conquistava do publico, pois o humor de Jesus deixava a história muito mais interessante. Está certo que alguns, principalmente os fariseus, ao entender a profundidade da história, seu sorriso se tornava raiva, mas devemos entender que, à primeira vista, os absurdos das parábolas de Jesus eram engraçados.

Não acredito que Jesus usava o humor apenas para chamar a atenção do publico, ou para a turma rir um pouco mais, ou para tornar mais interessantes suas histórias. Jesus coloca o humor de forma especial no seu ministério de ensino. Acredito que Ele usava o humor em suas histórias de uma maneira profética, a fim de mostrar os valores do reino e apontar os valores invertidos dos religiosos que o perseguiam.

O humor das parábolas de Jesus pode ser a chave hermenêutica (de interpretação) para o começo da compreensão da lição de cada uma de suas histórias. Se entrarmos na história de Jesus pelo humor desconexo aos valores que temos, fica mais fácil entender que o semeador do evangelho não precisa se preocupar com o solo (coração) que vai receber a semente, pois a tarefa dele é apenas semear independente do solo que ele “acha” que é bom, ou que o pastor do Reino é aquele que entende que cada perdido vale o todo (os 100%) no reino de Deus.

Faça o exercício de ouvir as histórias de Jesus com mais humor, e logo perceberá que as parábolas farão mais sentido, não com a realidade, mas com os valores do reino.
Precisamos levar a sério a bíblia, levar a sério a sua interpretação e com isso levar mais a sério o humor.


Texto feito para o Blog “marcos botelho do JV”