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Fui ao cinema ver o filme Noé preparado para me decepcionar, pois tinha ouvido péssimos comentários da turma da minha igreja. Mas para a minha surpresa gostei do filme como entretenimento e como um bom canal para começar alguns debates teológicos.

Eu já fiz um vídeo, com o diretor de cinema Felipe Cagno, falando sobre minha visão do filme (assista aqui), mas vou escrever mais um pouco para os que gostam de ler e não de assistir vlogs.

Vou fazer uma crítica abaixo só com algumas observações e insights que tive ao ver o filme. Não vou me aprofundar, pois o texto ficaria enorme. Também estou interpretando o roteiro inclinado a uma crítica boa, primeiro porque gostei do filme, segundo porque se fosse encontrar “erros” não sobraria nada e nem me daria ao trabalho de escrever esse artigo.

Observações, críticas e analogias teológicas:

1- O filme tem um formato de roteiro mais baseado no estilo das tragédias gregas do que no estilo literário Hebraico bíblico. Isso dificulta muito a apreciação dos que dominam o texto bíblico e não são familiarizados com os contos gregos.

2- O autor decidiu ter como base a história bíblica de Noé, mas não desprezou as dezenas de correlatos do dilúvio que existem em outras culturas como a do Alcorão, Babilônico e Sumério, que é até mais antigo que o texto bíblico. Isso dificulta muito para o público, que geralmente só conhece uma versão.

3- O diretor e roteirista Darren Aronofsky, do qual eu gosto bastante, é sempre ousado em suas interpretações e costuma passar a sua mensagem andando no limite entre fazer o público aplaudir ou odiar. Essa característica que fez os produtores investirem no filme, pois tinham a certeza de que ele não iria fazer apenas uma história bíblica, mas iria ousar como fez na HQ de Noah.

4- O trailer, na minha opinião é uma sacanagem, pois esconde os elementos fantasiosos do filme, dando a entender que o filme seria igual aos filmes bíblicos que vimos antes. Com esse trailer ele atraiu muito mais público, os conservadores. Ganhando mais dinheiro com a bilheteria, mas também conseguiu um buzz horrível entre a comunidade religiosa. Sendo até proibido de passar em alguns países.

5- Gostei muito da ideia colocada pelo roteirista de que Noé, ao receber a visão da corrupção do homem, entende que toda raça humana precisa ser destruída, incluindo a própria família. A percepção de que Noé se achava tão pecador quanto os outros reforça a visão de que ele era diferente, sua humildade estava andando junto com sua justiça.

6- O roterista força um pouco colocando um Noé ecológico, onde considera os animais sagrados, onde todos viraram carnívoros e sua família a única que se manteve vegetariana. Acho desnecessário isso no roteiro, até porque Deus vai liberar o comer de animais em Gn 9:3. Poderia ser escrito sem isso enfatizando mais a deturpação humana, do que a “pureza” da natureza. Mas como hoje o apelo ecológico está em alta o roteirista decidiu ganhar uns pontinhos com a sociedade moderna.

7- Um filme tem que manter o seu arco dramático do começo ao fim, com isso ele não optou por fazer, como de costume fazem os cristãos, o ápice do drama em se ia chover ou não, ou se o povo iria se arrepender ou não, pois se assim fosse o filme acabaria no fechar da arca ou no começo da chuva. Mas decidiu colocar outro drama: se Noé tinha entendido toda a mensagem de Deus e não era para sobrar ninguém na face da terra ou se Deus ainda tinha um plano para a raça humana. Isso fez o filme ficar interessante do começo ao fim, além de tirar da nossa zona de conforto por ter acostumado a colocar o clímax da história muito antes.

8- Para mim a pele da serpente é um símbolo que o roteirista usa para designar poder, sobre quem está no comando do clã. Como um símbolo da promessa de que um dia um homem iria dominar (pisar) aquele que tirou o homem do Éden. Quando o pecado já tinha passado dos limites do Criador, foi arrancado do líder dos descendentes de Sete e colocado no líder do descendentes de Caim. A dúvida era, se mesmo com a arca, essa liderança sobre o mundo iria ficar com Cam, que representa a continuação de Caim, ou com Moisés e Sem. Por isso, o roteirista, põe a cena de Noé colocando a escama no braço, no final do filme. Uma mensagem clara de qual descendência venceu essa batalha.

9- A bíblia começa a história de Noé falando dos filhos de Deus (Nefilins) que casam com os filhos dos homens, gerando gigantes. Na história da interpretação vemos vários equívocos quanto a esse texto, uns colocam como anjos caídos, eu prefiro a interpretação de que os filhos de Deus eram descendentes de Sete e os dos homens descendentes de Caim e que seus gigantes são uma forma hebraica de se referir a líderes poderosos de clãs. Isso explica a deturpação da raça humana, pois nem os que tinham a aliança se mantiveram separados (santos). Mas é logico que um roteirista polêmico e ousado não iria fazer essa opção. Pessoalmente não gostei nem da opção de anjos caídos e nem dos “monstros” de pedras como forma de representar os gigantes, isso gerou problemas teológicos desnecessários (como a redenção dos anjos), mas por outro lado mostrou claramente que a opção do roteirista foi para uma fantasia, mostrando ao público para não levar tão a sério a estória.

10- O fato de Noé não matar suas netas foi a grande mensagem desse filme, pois além do roteirista garantir a descendência dos 3 filhos, Cam, Sem e Jafé, ele mostra o porquê Deus escolheu Noé. No diálogo final de Noé com Ila, sua nora, ela pergunta por que ele achava que Deus o tinha escolhido, ele responde porque Deus sabia que ele faria o que fosse para cumprir o seu mandato. Aí ela pergunta por que ele não matou as suas netas? Ele fala que quando ele olhou para elas o coração dele só tinha amor. Daí ela diz: por isso que Deus te escolheu! Mesmo você vendo a corrupção humana e sendo chamado para trazer juízo, ainda tem amor ao olhar a raça humana. Para mim é a tipologia de Jesus na cruz, mesmo recebendo toda a culpa da raça humana, ainda teve amor para dizer: “Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem!

Lógico que teríamos muito mais para falar, mas isso a gente pode fazer aqui nos comentários, nas conversas em torno de mesas, nas salas de aula, ou na redes sociais. Um grande abraço e espero ter ajudado com minha opinião.