Tenho ouvido muitas reclamações sobre como os adolescentes, e agora os jovens, estão escrevendo “errado” na internet. Ouço que este novo jeito de escrever está estragando a língua portuguesa e criando uma geração que não sabe ler os textos que vou chamar de “clássicos”.

De alguns anos para cá, não é tão difícil encontrar na internet palavras como naum (não), tbm (também), vc (você) entre centenas de outras palavras que estão sendo abreviadas ou escritas como se fala, para facilitar agilizar a comunicação na net. E a perspectiva é de piorar com o fenômeno do Twitter chegando no país e “forçando” ainda mais as pessoas a escreverem abreviadamente.

Mesmo concordando que temos negligenciado o estudo da língua portuguesa e a valorização da nossa cultura e, também com a opinião que estamos entrando em uma geração que desaprendeu a desenvolver um pensamento com mais de um parágrafo. Pretendo dessa vez ver o outro lado da moeda, para sermos mais justos em nosso julgamento e vermos que este fenômeno não é de todo mal.

Minha crise com o português mais rebuscado veio da simples situação de que por um bom tempo da minha vida eu tentava ler o Antigo Testamento e não entendia quase nada. Pensava que a bíblia, principalmente o AT, era algo tão profundo que eu teria que estudar teologia para entender. Quando entrei no seminário, ao me deparar com outras versões e traduções, percebi que o meu problema na adolescência não era a teologia e sim o português. Pois a tradução que tínhamos na minha igreja era de mais de 50 anos e não estávamos falando a mesma língua.

Foi quando me veio a segunda pergunta lógica, que fiz para a professora de português do seminário: por que não se populariza a Bíblia Linguagem de Hoje? (na época não tinha Nova Versão Internacional). Quando ela de bate pronto me respondeu com outra pergunta: Se popularizar como os letrados (catedráticos) vão continuar dominando o povo?

Foi como cair o véu que me cegava, entender que a ignorância leva a escravidão, e que ela beneficiava quem estava no poder!

Na história, o dinamismo da língua, sempre incomodou quem estava no poder, e entenda o estar no poder como o que controla o conhecimento,com os estudiosos ridicularizando os que popularizavam a comunicação e os religiosos sacralizando o antigo (que já estava dominado) e profanando o novo, o desconhecido.

Foi essa a acusação aos rabinos, após o exílio, de estarem profanando as escrituras por traduzirem do Hebraico para o Aramaico a lei para o povo, assim também foi com o grego na septuaginta. O novo testamento foi rejeitado por muitos da sua época por ter sido escrito no grego do povo e não no clássico.Cinco séculos depois, a tradução da Bíblia para o Latim foi chamada de Vulgar (Vulgata), e não foi diferente com as traduções feitas após a reforma.

Sempre foi assim, era rejeitada a nova linguagem, considerada pobre e vazia, até que ela fosse dominada pelos poderosos, que a engessava e as controlava.

A tentativa de reforma da língua portuguesa, que vimos um tempo atrás, além de ser uma jogada econômica, foi um tapa buraco que não chegou nem perto da realidade do português que falamos hoje.

Você até pode não gostar na nova forma de escrever que a internet está trazendo com muita rapidez, mas acredito que em primeiro lugar ela é inevitável, pois a roda girou e a oportunidade da troca do poder esta bem a frente a todos com a net 2.0.

E para você que é cristão, não se espante se a reforma ou o avivamento vier desse novo jeito de pensar e escrever, pois foi assim que aconteceu na história do cristianismo até hoje!

  1. Oi Botelho: Bom artigo!só um pitaco meu: a KJV era acusada justamente de ser academica devias, e ela foi rejeitada por um bom tempo: a biblia certa a se referir aqui no text seria a tradução de Tyndale, essa sim antes da reforma, a qual lhe custou o martírio, e a que ele queria que "o menino no arado soubesse cantar ela enquanto trabalhava"

  2. Marcos, q resposta da sua professora heim? Qdo me diziam sobre as "doutrinas e costumes" que eram baseadas no antigo testamento, na versão corrigida, eu não entendia nada e não podia contestar, pois "estava escrito na Bíblia." Eu tinha que aceitar.Era essa a resposta de sempre. Tenho um filho de 16 anos e uma filha de 19.Meu vocabulário está sintonizado com eles.Tenho msn,gmail, orkut,blog,etc. Tudo isso incentivado e ensinado por eles.Lógico que alguns adultos me estranham…rsrsr.Mas sei que as pessoas têm dificuldade à mudanças, sejam elas em qualquer área. Sou sua seguidora há mais tempo.Gosto dos assuntos e da maneira que vc escreve.Herdou dos pais!!!???…hehehe. Que venha o avivamento e/ou a reforma (tão esperados) em meio à essa linguagem pessoal e afetiva, que muitos não concordam, mas q também ignoram que, jamais as pessoas se comunicaram tanto com hje, pois não há a preocupação da ortografia, conjugação, etc…rsrs. Sem nenhuma preocupação de ter errado uma letra sequer nesse meu texto…rsrs, despeço com um abraço e que Deus o abençoe em nome de Jesus! Ah…vou postar em meu blog, citando o seu. Ok? Bj. Ooops…isso acima não é um comentário e sim um post…rs.

  3. Marquinhos, outro ótimo texto! Só corrige a parte do véu que te "cegava"… heheheheheEu sou uma dessas pessoas que escreve praticamente tudo em português mesmo na internet, mesmo no Twitter! Abrevio poucas coisas porque a linguagem abreviada e esquartejada de internet de certa forma me irrita! Mas entendo quando as pessoas, principalmente os teens e os jovens, usam o internetês: respeito a forma deles e eles respeitam a minha!Uma coisa que não pode passar despercebida é que quem usa essa linguagem sabe o que está fazendo, ou seja, lê e entende o texto que para um "leigo" seria indecifrável! E acredito que essa mesma abordagem deve ocorrer aos textos bíblicos: é importante que saibamos ler e entender as Escrituras acerca da revelação de Deus para nós mesmo que esteja escrito em internetês!Aliás, eu lembrava de ter visto coisas legais sobre isso, fica um link que achei: http://www.fayerwayer.com.br/2009/07/e-se-a-primeira-versao-da-biblia-fosse-escrita-na-internet/Abraços, Marquinhos, fica com Deus!Sabrina

  4. Grande Marcos BotelhoQuando vamos estar juntos no podcast irmaos.com???Sobre o seu artigo, gostei bastante, mas levantou-me uma questão: isto não é a cultura da ignorância?Se avaliarmos diversas versões bíblicas veremos que há distorções quando se tenta "traduzir" uma linguagem mais rebuscada em outra mais simples.Se compararmos, por exemplo, a SCF (Almeida Revista e Corrigida Fiel aos Textos Originais), que é 100% TR (Textus Receptus) ou mesmo a ARC anterior à versão de 1995 teremos palavras complexas, porém muito próximas do que realmente foi escrito.Versões como a NVI ou a NTLH facilitam o entendimento, mas subtrai parte do entendimento correto dos textos.Não seria melhor se as igrejas investissem na educação de seus membros, em primeiro lugar?Além do benefício inicial da compreensão dos textos bíblicos, isto se refletiria na vida destas pessoas, proporcionando mais possibilidade de conhecimentos diversos, cultura e até refletindo no trabalho e na remuneração.

  5. concordo em partes, essa coisa de que a burguesia detem o poder com a ignorância do povo etc, é uma tremenda besteira que a galera do Lula e os revolucionarios de meia tigela jogaram no coração do povo, é necessário que as pessoas entendam a biblia mas a geração fast food quer tudo de mão beijada sem fazer nenhum esforço algum em estudar ou interpretar ou sequer escrever de maneira correta,as vezes escrever de maneira errada é mas dificil do que o correto mas os jovens fazem por afirmação não por abreviação.

  6. Gostei do texto. Acho que o assunto é complexo e merece atenção. Penso que mais embaixo está um problema que envolve a filosofia, a lingüística e a teologia. Sinto que a linguagem evangélica está desgastada hoje. Eu particularmente não encontro uma linguagem para expressar minha espiritualidade. Muito menos encontro uma comunidade para fundamentar a semântica de uma teologia com uma práxis. Enquanto isso, a teologia parece estar trancada a 7 chaves por doutores teólogos. Eles certamente deverão achar 15 erros teológicos e 20 heresias por sentença quando eu ou uma comunidade futura começarmos a elaborar uma linguagem que desafie os poderes políticos e religiosos. Sinto que a teologia e sua linguagem hoje são elitistas. O que fazer? Talvez uma literatura folclórica libertária.

  7. Olá Marcos. Dois anos depois, me deparo com o seu blog e especialmente com um assunto que movimenta a todos. Pessoalmente costumo escrever tudo completo, como a Sabrina aí em cima.
    Por outro lado, não se pode criticar tanto o que é uma questão de praticidade. O que importa é a comunicação eficiente. E isso, embora irritante para alguns, essa forma de escrever não deixa de ser.
    Mas o que eu gostaria de lembrar é que muito antes do advento da internet os colegas de classe na escola já escreviam assim. Quando se passava bilhetinhos na sala, ou quando se fazia uma anotação rápida num caderno, era exatamente dessa forma que se escrevia: vc, qto, mto… Naquela época até a palavra de uma fita magnética acondicionada em um cassete era abreviado por K7!
    Depois, com o advento do telex (não, não sou Matusalem), foi necessário substituir por outras formas os acentos das palavras e surgiram o “eh”, “naum” etc. Isso acontecia também em outros idiomas. Os mais velhos que são os que normalmente se irritam são os mesmos que vibravam com o jurássico “Beatles ‘4’ ever”!
    As línguas têm vida: elas nascem, crescem, evoluem e morrem. Já podemos sentir isso ao assistirmos um filme de Oscarito ou de Mazzaropi. Veremos que o idioma que se falava na época já difere bastante do que se fala hoje.
    O “r” inicial, por exemplo, era sempre vibrante simples alveolar (o “r” de “touro”), o “l” sempre lateral alveolar líquido, isto é, tinha som de “L” mesmo em palavras como Brasil, calça etc.
    Os termos eram outros: as calças jeans eram caLLças RRancheiRRas, os hambúrgueres eram almôndegas e os skates, patinetes.
    Não há como impedir isso, nem faz sentido. Portanto não é nenhuma novidade que deva ser irritante. Isso é tão antigo que as pessoas que hoje reclamam o fazem provavelmente por estarem ficando velhas e esquecendo das coisas, além de estarem se tornando rabugentas.

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