Tive o privilégio de crescer em um sítio e, entre a idade de 8 e 11 anos tive dois cavalos, era responsável por cuidar deles, tirar os carrapatos, limpar, passar remédio nas mordidas de morcego e, principalmente, levá-lo para onde tivessem verdes pastos. Essas eram as condições para eu poder brincar com ele. Nunca tive uma cela e nem cabresto, às vezes montava nele com uma corda e cavalgava meio sem direção. O fato de eu deixar ele me levar era a nossa brincadeira, era o que nós dois gostávamos. E o mais fantástico é que quase sempre ele me levava a um lugar que eu não conhecia.

Certa vez, tomei um coice e até uma mordida dele e o cara que nos vendeu falou que era porque eu não estava montando nele com o arreio e ele estava ficando desacostumado e voltando a ter vontade própria. Só comprando um arreio para domá-lo de novo.

Esta experiência que tive, brincando com os cavalos, me ensinou muito sobre hermenêutica. Vou explicar:

A pretensão moderna em dissecar a palavra de Deus de uma forma científica se tornou ineficaz pedagogicamente e de instrumento de transformação.

Não sei por que a maioria dos professores nas escolas nos ensinou que somos maiores que os textos só porque somos os intérpretes. Ler se tornou sinônimo de domínio. Como um cavaleiro domina o seu cavalo na arena de um rodeio, a hermenêutica se tornou o cabresto das letras e o premio é dado para aquele que demonstra mais habilidade em domar o cavalo.

Assim, vamos até o texto para analisá-lo de forma científica e confundimos neutralidade da pesquisa com frieza. Com isso, matamos as poesias, os contos, as narrativas, as parábolas, os textos apocalípticos, entre outros. A forma com que as escolas nos ensinaram a ler, só me serve para ler jornal.

Quero regredir a minha infância e brincar com os cavalos, voltar aos tempos em que a bíblia era lida para mim, assim como foi para os primeiros ouvintes do texto bíblico, onde não sou o domador de cavalos e sim o menino que brinca com o cavalo, que o monta sem superioridade, em uma confiança mútua, sem achar que conhece o caminho.

Quando ouvia as histórias como criança, na frente dos meus olhos já não estavam mais as letras como hoje estão e sim a imaginação, os sonhos que transformavam as palavras em imagens.

Quero ouvir Salmos como ouço Vinícius de Moraes, que narrem o livro de Gênesis como foi narrado Indiana Jones, quero imaginar Apocalipse como um gibi de manga, ouvir as parábolas contadas num banquinho de praça por Forest Gump, receber as regras de Levítico lidas em alta voz por um juiz de tribunal sério e inteligente, ser sussurrado cantares por minha amada e, abrir o e-mail, indevidamente, que Paulo mandou para Timóteo.

Quando ia brincar com os cavalos, só porque não estava domando-os, não significava que estava desrespeitando ou os rebaixando, estava apenas deixando-os ser o que são: cavalos.

Eu sei que, assim como brincar com os cavalos, ler a bíblia dessa maneira é bobeira, coisa de criança. Hoje somos adultos e temos que entrar na arena para que todos possam ver a nossa virilidade.

Mas…Não custa nada sonhar!

  1. Sábias palavras.Estamos tão acostumados com certas passagens e citações que elas perderam o “encanto” e se tornaram tão corriqueiras. Talvez porque vemos elas sendo citadas por pessoas que não possuem tanta moral assim…Foi um grande achado conhecer teu blog.

  2. caraca. muito bom esse texto mano. realmente essa é a crise de quem aprende muito, talvez seja impossivel deixar o cavalo seguir seu proprio rumo após ter conhecido e experimentado os beneficios da cela e do cabresto.

  3. Excelente.sem palavras pra comentar, simplesmente digo que é maravilhoso esse artigo, também gosto de ler a bíblia como uma criança e criar na mente todas as figuras e cenários.Marcos, leia meu blog:www.gutopagiossi.blogspot.comsua crítica é importante pra mim.abraço.

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