Tantos anos se foram, e você ainda me enche de orgulho!

24 de abril de 2015

Anápolis, GO

Caro José,

Quinze anos, três meses e dois dias atrás você me deixou para ir ao Pai. Todos os dias de todas as semanas, todos os anos, penso em você pelo menos uma vez. No começo, meus pensamentos se misturavam com sentimentos de culpa e tristeza. Minha mente parecia presa naqueles dias de sofrimento que passamos no hospital enquanto sua vida se apagava como uma luz de vela se dissipando em uma poça de cera.

No devido tempo, o Senhor gentilmente me lembrou que seu sofrimento havia acabado, então por que eu continuar meditando sobre ele?

Depois vieram muitas lembranças dos bons tempos. Qualquer sobra de arroz e feijão é um lembrete de que você os transformaria em um mexidão e que o comeria diretamente da panela! O cheiro de tinta me leva de volta ao nosso quintal, onde você consertou tantos carros para complementar nossa renda. Às vezes, as mudanças no tempo ou a luz do dia conspiram para trazer de volta à minha memória incidentes específicos, detalhes de nossos 37 anos de uma vida bem compartilhada. Hoje em dia, parece que penso em você num exercício de especulação. Como você reagiria diante das coisas que vão acontecendo comigo? Que bom que você não precisa mais sofrer com os últimos contratempos de nosso filho. Ou, diante de um acontecimento feliz, me pego pensando, “Ah, como o José ia gostar de ver isto!”

Hoje eu experimentei este último jeito de pensar.

Lembra do nosso homem de rua? Aquele que morava na nossa rua e invariavelmente batia a nossa porta pedindo um pedaço de pão? Ele se sentia tão a vontade conosco que era capaz de exigir um sanduíche completo ao invés de pão com manteiga. Ou, ele pedia uma agulha e linha para consertar suas roupas. Mas um banho… nem pensar!

Bem, mudei-me para um prédio de apartamentos a cerca de dois quilômetros de distância da Rua Bolívia. Eu precisava de um pouco mais de segurança. Precisava de colocar mais espaço entre a rua e a casa para fosse possível me darem um aviso sobre as visitas inesperadas de nosso filho, especialmente quando ele chega em um estado mental alterado e se torna agressiva.

Mas ainda caminho até a sede da Missão e continuo trabalhando lá meio período.

Você estava certo, esta cidade tornou-se não só a sede da Missão, mas também da nossa família. Anápolis é pequena o suficiente para que ainda conheçamos nossos vizinhos pelo nome e grande o suficiente para oferecer boas opções profissionais aos nossos filhos adultos. Bem, para as meninas e seus maridos, pelo menos.

Esta tarde, subindo a Av. Universitária em direção à Missão, encontrei o nosso homem de rua! Não me lembro do nome dele. Eu não o via desde a mudança de nossa antiga casa. Ele envelheceu. Mas, por outro lado, nada mudou: a mesma sacola onipresente, as mesmas roupas soltas, a mesma sandália havaiana, a mesma expressão de bom humor e… o mesmo cheiro! 

Ele me reconheceu imediatamente e começou a falar comigo. “A senhora não é a viúva do Pastor José?” Quando acenei positivamente, ele me surpreendeu perguntando: “Como estão as filhas? A Elsie se casou? Eu ouvi que a Eunice está trabalhando na prefeitura. E a Ester? Ela já virou médica? Devo ter demonstrado que estava assustada porque ele se apressou em explicar com uma expressão distante e afetuosa: “Ah, o Pastor José, que homem bom. A senhora sabia que a gente conversava muito? Dizem que esta cidade tem pelo menos 600 pastores. O Pastor José foi o único que falava comigo!

Já passaram todos esses anos e você ainda me enche de orgulho!

Diva

 


Escrevi esta história como se fosse minha mãe, a missionária Diva Bueno Cunha, que encerrou sua carreira missionária com a Missão Novas Tribos após 50 anos de dedicação, em 2012. Ela contou sobre o encontro com este homem de rua para nós, filhas, com lágrimas nos olhos. Eu sei que os sentimentos e atitudes dela descritas nesta carta fictícia são muito reais, foi o que vivemos com ela, desde que meu pai se foi no dia 26 de fevereiro de 1995. Pedi a ela que lesse minha versão e que me desse permissão para publicar e foi o que fez.

A verdade é que eu sou uma pessoa bem aventurada porque tive um pai cujo caráter cristão deixou marcas verdadeiras na vida de muitas pessoas, pessoas sobre as quais não teremos notícias até nos encontrar com Jesus, com elas e com o papai na glória que está por vir.

Se o seu pai já se foi para o Pai, gaste alguns minutos agradecendo ao Pai pela vida dele, apreciando as grandes batalhas vencidas por ele nesta vida, reconhecendo que ele, assim como nós, foi formado no oculto, e esmeradamente tecido nas profundezas da terra. E que no livro de Deus foram escritos os dias, sim, todos os dias que foram ordenados para ele, quando ainda não havia nem um deles. Sl 139.15,16

 

  1. Ao ler esse lindo e emocionante relato, melancolicamente me lembro desse tempo de interação com vizinhos. Rodas de viola na calçada, em frente de casa. Evangelismo nas ruas/praças. As intermináveis partidas de golzinho, com os chinelos servindo para demarcar a área do gol, soltar pipa… (melhor parar, risos).
    Seu relato nos impacta muito ao trazer a percepção de como atualmente gastamos pouco tempo interagindo com as pessoas, muitas vezes dentro de nossa própria casa e, pior, a percepção de que esse comportamento ensimesmado se reflete também na atuação da igreja.

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