Temporal à vista

Por Elsie Gilbert

 

Estamos na última semana de fevereiro. Como assim? Dois meses do ano de 2018 já se foram. As coisas em Brasília continuam caóticas e o clima entre nós altamente polarizado. Temos muita certeza das nossas posições e igual indignação em relação às posições dos nossos irmãos que não compartilham conosco das mesmas convicções. E no final do dia, a maioria de nós sente um grande cansaço—cansaço advindo do lutar com poucas esperanças, do se perceber remando contra a correnteza.

Decidi colocar um nome neste estado de coisas: estamos vivendo debaixo de uma nuvem. Não a nuvem  que sinalizava a presença de Deus no deserto. Não a nuvem que ajudava diariamente na caminhada do povo de Deus do Egito à Terra Prometida. A nuvem pela qual passamos não é protetora, ela é tóxica. Ela anuncia um temporal e nos torna ansiosos. Ela quer nos fazer duvidar da atuação de Deus entre nós.

Mas Deus está presente aqui, debaixo da nuvem. Neste próximo mês, queremos publicar histórias que demonstram esta presença e que nos revovam as forças, nos devolvendo a esperança. Vamos também publicar reflexões bíblicas que sustentam a tese de que Deus é Deus, soberano,  grande em misericórdia, poderoso em obras.

Começamos com uma reflexão sobre os ensinos de Jesus registrados em Lucas 6, num texto conhecido como o “Sermão da Planície”. Jesus começa estabelecendo um contraste entre o estilo de vida de um profeta comparado com o de um falso profeta. Apesar da aparência de conforto e benção presentes, Jesus lamenta o futuro daquele que é falso. E ele não nos ilude, se o seguirmos, podemos esperar um caminho difícil no presente mas que trará bem aventurança e grandes recompensas no futuro.

Versículos de 20 a 26 poderiam ser resumidos assim:

 

Assim foram tratados os profetas Assim foram tratados os FALSOS profetas
Eram pobres, chegando a passar fome Eram muito bem recompensados financeiramente, tinham fartura
Choraram Riam e se divertiam
Foram odiados, sofreram calúnia, difamação e rejeição por conta do seu vínculo com o Altíssimo Gozavam de um alto índice de aprovação
Estes são os bem aventurados! Ai destes, coitados!

 

Jesus nos convida a seguir o caminho da primeira coluna! Mas como?

Primeiro, decidindo amar e fazer o bem aos que nos odeiam. (v. 27)

Segundo, abençoando e orando pelos que nos maltratam. (v. 28)

Terceiro, rejeitando a prática da retaliação como forma de obter justiça quando alguém nos ferir ou expoliar. (v. 29 e 30)

 

Para mim este discurso é extremamente duro e muito difícil de colocar em prática! Acho que os discípulos devem ter mostrado alguma resistência porque Jesus passa a defender o seu próprio ensino. Até agora, Jesus parece estar nos pedindo para abrir mão no nosso senso de justiça. Não reclamar quando alguém invade a nossa propriedade, emprestar sem esperar restituição, e até aceitar insulto físico. E no entanto ele apela justamente para o nosso senso de justiça como justificativa para estes ensinamentos!

O senso de justiça que ele quer nos ensinar é mais elevado do que o nosso e está fundamentado em um fato básico: Deus é misericordioso para conosco. Sua misericórdia é tão vasta que ela se estende aos ingratos e maus também! A bondade dele não se limita aos que a merecem. Nenhum de nós a merece! Portanto, se quisermos seguir a Jesus precisamos obedecer à esta ordem bem clara e objetiva: “
Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso” Lc 6. 35,36.

Justiça = agir da mesma forma que o Pai de vocês age.

Mas eu ainda não me dou por satisfeita. Parece que Jesus está pedindo demais de mim! Na hora que alguém me ofende, dificilmente me vem à memória aquele dia em que eu ofendi a Jesus e ele me perdoou. Eu quero que a pessoa sinta a dor que ela causou em mim! Para me ajudar, Jesus completa o seu ensino com esta promessa: “Não julguem, e vocês não serão julgados. Não condenem, e não serão condenados. Perdoem, e serão perdoados. Dêem, e lhes será dado: uma boa medida, calcada, sacudida e transbordante será dada a vocês. Pois a medida que usarem, também será usada para medir vocês”. Lc 6.37,38.

Preciso repetir isto para mim mesma: a medida que eu usar para extender misericórdia a alguém, esta mesma medida será usada quando eu precisar de misericórdia. Talvez seja por isto que temos tanto medo do julgamento das pessoas, porque com a mesma medida que julgarmos, seremos julgados!

Onde está a esperança nestes ensinamentos? Esperança relevante para os dias acinzentados nos quais vivemos?

Tudo o que eu doar de mim para aquele que não merece—aquele que é sabidamente ingrato e mau—eu receberei em troca, não pelas mãos do ingrato porque pode ser que ele não tenha nada para dar. Eu receberei a recompensa das mãos de Deus. O Senhor me paga, não porque eu mereço, mas porque na sua misericórdia ele tem prazer em sanar a dívida do ingrato. Ele me paga porque o ingrato e mau precisa ter sua dívida sanada comigo. (Assim como, na minha história pessoal, eu precisei de ter a minha dívida sanada com alguém a quem ofendi). Nesta transação, Deus se torna o fiador. E portanto, o ingrato não me deve mais nada. Sua dívida comigo está completamente paga. Quem sou eu para cobrá-la novamente?

A esperança não está na justiça como a compreendemos. Ela reside na misericórdia de Deus que é infinitamente mais justa do que qualquer sistema de restituição que possamos criar!

Como a obediência a este ensinamento mudaria o nosso comportamento, começando pela nossa atuação nas mídias sociais, por exemplo?

 

 

 

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