Por James Gilbert

O plano de Deus para a história da humanidade, incluindo sua salvação e a redenção de toda a criação, percorre toda a Bíblia. E por todo o texto sagrado ele escolhe aqueles a quem deseja chamar para servir aos seus propósitos de forma especial. Muitas vezes as escolhas de Deus vão contra o senso comum ou ferem noções sobre o que acreditamos ser o mais aconselhável. Quando Deus separou a Israel para abençoar todas as outras nações do mundo, ele não o fez porque esta era a nação mais forte e poderosa ou a mais correta. Pelo contrário, Israel não tinha grandes méritos. Assim também, quando Deus olha para os indivíduos que compõem o seu povo, ele reserva um papel importante para os mais vulneráveis. Entre estes encontramos as crianças. Que tipo de relacionamento ele estabelece com as crianças? Podemos hoje, corrigir alguma coisa na forma como nos relacionamos com elas em nossas igrejas?

 

(…) a ação de Deus no mundo por meio destas crianças.

SAMUEL: UM MENSAGEIRO FIEL
LEIA: Samuel 3.1-13

Neste relato, Deus quer que o sacerdote Eli receba uma mensagem de sua parte, uma mensagem de disciplina e juízo. A preferência por uma criança como mensageira revela uma atitude da parte de Deus para com as crianças bem diferente da nossa! Ele cultiva um relacionamento único com várias crianças na Bíblia.

REFLITA 1
Deus poderia ter usado outros sacerdotes ou profetas para manifestar suas intenções em relação aos filhos de Eli cuja corrupção tinha chegado ao grau máximo. No entanto, neste caso, ele escolheu se revelar por meio de um menino.

Nesta passagem, assim como em outros lugares na Bíblia, Deus se mostra paciente. Ele demora a manifestar a sua ira trazendo juízo e castigo para os sacerdotes corruptos. E é paciente e compreensivo também com a criança. Deus chama Samuel três vezes. Ele aguarda pacientemente que Samuel vá até Eli e que retorne para ouvir o que ele tem a dizer. O sacerdote Eli também é paciente e compreensivo com o garoto. Paciente o suficiente para ouvi-lo e oferecer a orientação necessária, sem se irritar pela noite de sono interrompida. Eli reconhece que Deus pode falar com uma criança, ainda que vivesse num tempo da história de Israel onde as manifestações audíveis de Deus tinham se tornado raras.

RESPONDA I
Nossa igreja é paciente na mesma medida com as crianças quando elas mostram que ainda não compreenderam alguma verdade espiritual? Se Deus resolver falar por meio de uma criança hoje, qual seria a nossa reação? Seríamos capazes de orientá-las para que se colocassem à disposição de Deus para ouvi-lo assim como Eli o fez com Samuel?

REFLITA II
A mensagem que Deus escolheu revelar ao menino Samuel não era positiva ou divertida. Certamente Samuel conhecia um pouco da situação dos filhos de Eli e de seu comportamento corrompido. As crianças observam os adultos! Ele sabia que o que Deus estava lhe contando era grave e naturalmente temeu contar a Eli aquela revelação. Não sabemos como a corrupção dos filhos de Eli afetavam a Samuel mas sabemos que Deus, de fato, inclui a Samuel no seu plano de intervenção diante da maldade. Samuel, um menino, se tornou o mensageiro de um decreto de julgamento e castigo severos. Samuel não foi poupado de tomar conhecimento de que algo estava muito errado no comportamento dos sacerdotes ao seu redor. Deus não tentou esconder dele estas coisas.

RESPONDA II
Escondemos das crianças como se elas não fossem capazes de perceber quando os adultos falharam em suas obrigações como líderes? Tentamos encobrir delas o mal que sabemos que também as afeta na igreja? Até que ponto é importante para a vida da igreja que as crianças sejam informadas do que se passa no meio dos adultos? Existem limites para esta abertura de informações?

REFLITA III
Além do relacionamento especial de Deus com Samuel, é interessante refletir sobre o relacionamento do menino com Eli. O sacerdote ouve a criança, com cuidado o bastante para orientá-lo sobre o que fazer diante de uma intervenção divina tão inesperada. Neste caso, o adulto não é excluído, seu papel é importante muito embora ele não esteja “no controle”. Nós não precisamos proteger a criança de Deus nem nos colocarmos entre Deus e a criança!

 

RESPONDA III
Gastamos tempo conversando com as crianças em nossas igrejas? Temos a participação masculina no trabalho que é realizado com as crianças, uma vez que sabemos que bons modelos são extremamente importantes para as crianças, especialmente aquelas que vivem em famílias com apenas um dos pais? Nossas igrejas abrem espaços para que as crianças e adolescentes desenvolvam seus dons em ministério junto com os adultos?

MIRIÃ: PROATIVA E LÍDER DESDE CRIANÇA

LEIA: Êxodo 2.1-9
A história de Miriã acontece 200 anos antes da de Samuel. Ambos pertenciam à tribo de Levi. No tempo de Miriã, os levitas não tinham ainda recebido a incumbência de manter os ritos sacerdotais como já era a prática no tempo de Samuel. Tanto Samuel como Miriã foram profetas, ambos foram líderes do povo de Israel muito embora a liderança de Miriã fosse compartilhada com dois outros líderes, um deles reconhecidamente o maior líder da história do povo de Israel: Moisés. E tanto Samuel como Miriã demonstraram coragem e fé ainda muito jovens. Neste relato, Miriã se coloca como vigia numa situação de crise, aparentemente sem solução. O irmãozinho, com apenas 3 meses está flutua num cesto de junco, no rio Nilo, lugar onde todos os bebês hebreus do sexo masculino devem ser afogados!

REFLITA I
A família de Abraão, os Israelitas, que entram no Egito por intermédio de José, com 70 membros, cresceu imensamente nos últimos 400 anos. Tão grande foi o seu crescimento que este povo passa a ser considerado uma ameaça. O faraó daquele tempo faz três tentativas para resolver esta ameaça. (1) Ele aumenta a carga de trabalho e opressão dos israelitas – tentativa frustrada pela vitalidade inerente a este povo. (2) Ele ordena que as parteiras Sifrá e Puá matem os bebês do sexo masculino na hora do parto – tentativa frustrada pela resistência das parteiras que eram tementes a Deus. (3) Ele ordena que os egípcios cometam o genocídio, jogando os bebês hebreus do sexo masculino no Rio Nilo. Esta última ordem parece surtir efeito. Desta vez, uma menina cuja idade não sabemos, mas cuja insignificância para sua sociedade é patente pelo fato de não ser nem considerada uma ameaça, é a protagonista principal na narrativa. Ela observa tudo com paciência, vê a oportunidade de agir, pensa rápido e propõe para a princesa uma solução atraente: “A senhora quer que eu vá chamar uma mulher dos hebreus para amamentar e criar o menino?” Êxodo 2:7.

 

RESPONDA I
No relato sobre o resgate de Moisés, ainda bebê, do Rio Nilo, Miriã não é mencionada pelo nome. Seu nome só aparece muito mais tarde, depois que o povo passa pelo Mar Vermelho. Você acha que ainda hoje, em muitas situações, os “sem nome” de Deus, as pessoas consideradas insignificantes pela sociedade, podem ser as pessoas escolhidas por Deus para resgatar crianças que estão marcadas para morrer?

REFLITA II
Assim como a história de Samuel, a criança não age isoladamente. A mãe de Moisés construiu o cesto transformando-o em uma “canoa”. Não sabemos porque ela sai de cena, e não temos nada que indique que ela de fato tenha delegado à sua filha a tarefa de vigiar o irmãozinho. Muitas vezes as crianças fazem isto por conta própria. Ela não fica porque tem um plano, ou porque sabe que a filha de Faraó virá se banhar e terá compaixão do bebê. Ela simplesmente fica e vigia seu irmãozinho.

Aqui temos uma menina corajosa. Diante de uma situação tão grave, de ver seu irmãozinho indefeso, flutuando num rio, exposto e sujeito à morte, ela suporta o sofrimento e na hora certa oferece o conselho que garante a sobrevivência do menino. O menino será cuidado pelos adultos, eles têm os recursos e a experiência para isto. Mas a menina ocupa, nesta história, um lugar que talvez nenhum adulto na comunidade pudesse ocupar. É ela quem provê as conexões salvadoras. Ela fala a coisa certa, na hora certa. Ela vai buscar a “ama”—sua mãe. Esta menina se tornou uma peça importante para a sobrevivência do seu irmão que por sua vez foi personagem fundamental na libertação de seu povo.

RESPONDA II
Nossas comunidades de fé percebem que para protegermos as crianças, nós precisamos da ajuda delas também? Percebemos que a participação das crianças pode ser peça fundamental para a nossa sobrevivência como cristãos num mundo mal?

 

REFLITA III
O nome desta menina é Miriã, como nos é revelado em Êxodo 15.20 como os seguintes dizeres: Miriã, a profetiza, irmã de Arão. O povo de Israel passa em seco pelo Mar Vermelho. O exército egípcio segue pelo mesmo caminho. Moisés intercede tocando com a sua vara no mar. A muralha de água cai sobre os cavalos e cavaleiros egípcios. Agora sim. O povo está livre do poder dos egípcios. A cena agora é de euforia e celebração. Moisés compõem um hino que ocupa os primeiros 18 versículos do capítulo 14 de Êxodo. O refrão do cântico é animado pelos tamborins de Miriã que lidera as mulheres. Elas vão dançando e cantando: “Cantem ao Senhor, pois triunfou gloriosamente. Lançou ao mar o cavalo e o seu cavaleiro”. O profeta Miquéias menciona Miriã como um dos três líderes de Israel da era do exílio: “Eu o tirei do Egito, e o redimi da terra da escravidão; enviei Moisés, Arão e Miriã para conduzi-lo.” Mq 6.4

RESPONDA III
Que impacto as experiências com Deus durante a fase da infância e da adolescência podem ter sobre o cristão na fase adulta?

Miriã é lembrada também por um conflito de liderança que teve com Moisés. Neste conflito ela é punida por Deus. Como muitos outros líderes na Bíblia (começando pelo próprio Abraão), ela também erra e precisa de correção. Quando uma criança demonstra dons espirituais e capacidade para liderança, isto não quer dizer que estará imune às tentações. O caminho de todo cristão, quer criança ou adulto, passa pela vida de fé em comunidade. O único líder sem pecado, é Jesus.

CONCLUSÃO
Nos dois exemplos estudados acima, fica claro a ação de Deus no mundo por meio destas crianças. Isto não acontece em detrimento dos adultos, mas sim de forma complementar, em parceria. Em cada caso, os adultos são atores importantes, mas os resultados esperados por Deus não teriam sido alcançados sem a participação efetiva das crianças. Podemos argumentar que estas histórias são exceções e não a regra. No entanto, elas não existem em isolamento. Em várias outras passagens do Antigo Testamento as crianças são envolvidas de forma relevante nos planos de Deus. E no Novo Testamento este tema continua a começar pelo próprio menino Jesus. (Veja aqui um resumo de todos os encontros de Jesus com as crianças).

Deus busca ativamente a participação das crianças na condução de seus propósitos para a humanidade. Como Cristãos, seguidores de Cristo por meio de quem podemos chamar a Deus de Pai, estamos também abertos para escutar, perceber e envolver as crianças no ministério que Deus quer realizar por meio da igreja local em nossas comunidades?

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