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Que segredos ela se vê obrigada a guardar?

Por Elsie Gilbert

A história transcrita abaixo ilustra de forma comovente o peso de um segredo guardado por uma menina de apenas 5 anos. Foi contada por Angela Yuan no livro “Out of a Far Country”, que relata sua longa jornada de reconciliação com marido e filho após seu encontro com Deus, já na meia idade. Adultos às vezes desprezam o quanto as crianças sofrem quando pedem para elas guardarem segredos, segredos estes que quebram a inocência da infância . A história a seguir ilustra os efeitos de um segredo imposto a uma criança por uma “mãe do mal”.

Primeiro uma “mãe do mal”

“Eu era menina, com mais ou menos cinco anos de idade, com cabelos escuros que caiam sobre meus ombros em duas madeixas lizas e brilhantes. Eu era gordinha e angelical, e meus pijamas largos me envolviam a medida que eu me remexia na cama naquela noite. Meu pai, um marinheiro mercantil, estava longe em alto mar, e eu dividia a cama com a minha mãe—algo comum para crianças chinesas. De repente meus olhos se abriram. Algo não estava certo.

Tentei entender o porquê do balanço que eu sentia. Toc, toc, toc, toc. A cabeceira da cama batia contra a parede e quando me virei vi uma figura escura em cima de minha mãe. Ouvi suspiros e gemidos e os sucos gástricos em meu estômago subiram para a minha boca. Deixei escapar um grito que perfurou o silêncio da noite—e continua a reverberar na minha cabeça até hoje. Então, comecei a chutar com tanta força que os lençóis foram jogados para longe da cama. Na luz da lua, vi Sr. Lee, um homem que eu reconheci como colega de trabalho da minha mãe. Ele pulou, nu, segurando as calças contra suas partes íntimas. Minha mãe o levou para fora do quarto, fuzilando-me com o olhar por sobre seus ombros.

Eu sentei na cama, puxei meus joelhos até meu queixo e chorei, chorei e chorei. Clamei por meu pai, mas ele não estava lá. Estava a milhares de quilômetros em algum lugar escuro do oceano. Ninguém veio me consolar, ninguém veio me dizer que estava tudo bem. Fiquei lá sentada, engasgando nas minhas lágrimas enquanto todo o meu corpo estremecia.

Tive medo, vergonha e acima de tudo, me senti suja. Tentei esquecer o que tinha visto, mas não consegui. A imagem do corpo de minha mãe entrelaçado com o daquele homem se projetava continuamente na minha memória. Era um segredo escuro que ficou guardado no fundo da minha mente, escondido do mundo, escondido do meu pai.

No outro dia, quando o sol começou a aparecer, fui para o quintal atrás de minha casa. Não sabia onde minha mãe estava e ela não veio me procurar. Ajoelhei no barro e comecei a furar um buraco. Passei meus dedinhos pelo capim até chegar ao solo húmido. Explorei com meus dedos até achar algo sólido: uma raiz bulbosa. Arranquei a raiz do seu lugar na terra e a segurei em minhas mãos trêmulas enquanto lágrimas desciam pelo meu rosto. Havia terra grudada na raiz, ainda assim era possível ver a parte branca desta.

Enquanto imagens da minha mãe fazendo amor com um homem estranho passavam pela minha cabeça, meu peito continuou a estremecer com soluços. Segurei a raiz nos meus dedinhos sujos, levei-a aos meus dentes e comecei a chupá-la. A areia da terra, a suculência da raiz e o doce do capim se misturaram em minha boca. Chupei o suco até formar uma polpa de capim na minha boca. Cuspi a polpa em minha mão e a enterrei de volta na terra—assim como ia enterrar este pesadelo. Eu queria tanto deixar este segredo terrível enterrado no fundo do solo marrom avermelhado de Shanghai—para nunca mais ser visto. Então peguei um outro tufo de capim, chupei seu suco, cuspi e enterrei, repetindo o processo várias vezes. Que outra forma poderia uma criancinha de 5 anos lidar com um evento tão repugnante e horroroso?

Tentei fugir da verdade feia que era a vida da minha mãe, mas como esquecer se todos os dias homens continuavam a passar pela nossa casa? Eles vinham “visitar” a minha mãe durante as longas semanas nas quais meu pai estava viajando. Eu queria vomitar. Ela insistia que os chamasse de “tios”, mas eu me recusava a obedecê-la. Queria cuspir na cara deles, ao invés disto, fuzilava-os com olhares de nojo e repugnância. Isto enfurecia minha mãe, e muitas vezes eu fugi da casa de volta para aquele lugar no quintal, minhas unhas pretas, minhas mãos sujas e machucadas de tanto cavar. E aquelas imagens que menininha nenhuma deveria ter de suportar, sujaram a inocência da minha infância e aleijaram minha mente, coração e alma.”

 

E as “mães do bem”?

Será que as “mães do bem” estão isentas de impor segredos deformadores sobre suas crianças? Infelizmente, a resposta é NÃO! Adultos impõem segredos sobre as crianças em favor de outros adultos também. Querem proteger a imagem da família e por isto escondem o mal-estar que está do lado de dentro de suas paredes. E lá, como fungos e bactérias em cantos escuros, o mal-estar se amplifica. Quem mais inclinada a fazer isto do que uma mãe que quer manter as aparências de uma família perfeita? Na minha experiência, são as “boas mães”, geralmente ligadas a um parceiro irresponsável, que mais impõem sobre os filhos o “pacto de silêncio”. O filho descobre que o pai joga e está endividado, então a mãe pede segredo. A filha descobre que o pai é viciado em pornografia, então a mãe pede segredo. E é este mesmo princípio, de proteção familiar a qualquer custo, que explica o número (que nos choca e nos causa estranheza) de “boas mães”, pessoas responsáveis, cumpridoras do dever, que negam a realidade e calam a boca de suas filhas quando o assunto é abuso sexual.

 

Se não o segredo, então o que?

Meus fiéis conselheiros me pediram um desfecho positivo para este artigo. Diante do poder devastador de um segredo negativo na vida de uma criança, o que fazer? Confesso que não tenho resposta para esta pergunta. Eu só sei que o contrário de segredo não é a publicidade, mas sim a confidência, a partilha em um ambiente seguro. E para tal, todos nós temos que mudar!

Preciso de vocês! Alguma dica prática de como ajudar nossas crianças a relevarem o que está escondido lá no fundo do coração delas?

 

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Pequeninas e vulneráveis: as 5 maiores armas usadas contra as crianças por pessoas do bem

 

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    • Rosi, a história da Angela é muito interessante porque ela cresce almejando ter uma família perfeita. Só que apesar de conseguir marido e filhos que “andam na linha” a princípio, ela incorpora na cultura familiar o mesmo pacto de silêncio para qualquer coisa negativa. A família vai de mal a pior até que há um processo de conversão, seguido de cura interior e finalmente de reconciliação. Só que o processo levou 8 anos! Graças a Deus pela sua infinita misericórdia!
      Elsie

  1. Vi uma amiga passar por uma situação de divórcio, com uma filha com singelos 9 meses, a primeira coisa que fez foi procurar uma psiquiatra, para saber como lidar com a criança e as informações relativas ao divórcio.

    O divórcio foi resultado de uso de drogas e traição de todas as maneiras pelo marido, até que a criança ficou em risco.

    Achei muito oportuno o conselho que a psiquiatra deu a ela. Primeiro, respirar e acalmar. A filha ainda nem falava, então, tinha que esperar e não antecipar, pré-ocupar. Quando a filha tivesse qualquer dúvida ou tocasse no assunto, era pra responder o que ela tinha perguntado. Mais nada. Sem muitas explicações. Sem culpar o outro, apesar de tudo que ocorreu. Sem juízo de valor. Só fatos. E foi isso que minha amiga fez.

    Um dia, conversando com a filha dela, que estava a esta altura com uns quatro anos, ela mesma me contou que o pai tinha separado da mãe porque eles tiveram problemas no casamento e ela tinha outro pai, que era um tio que foi morar com a mãe quando houve o divórcio.

    Por isso, acho que precisamos, em todas as situações, colocar nossos corações diante de Deus e nos confessar, na medida do possível, uns aos outros.

    A criança não é burra. Muito ao contrário. Tem muita criança mais esperta do que a gente. Ela vai saber que tem um problema e que é um comportamento indesejado e, muitas vezes, por si só, não vai querer contar pra mais ninguém.

    Mas creio que é preciso que ela tenha acesso a mãe pelo menos para conversar e até mesmo orar com ela sobre o problema. Fingir que não existe e esconder nunca foi solução pra nada.

    Entendo eu, modestamente, que nós, cristãos, temos muito que aprender a viver sem falsidade dentro dos nossos lares, para que possamos ser fonte de salvação, não de perdição. Para que a cura de Deus possa vir e não tardar, sobre nossas vidas e nossas famílias.

    Enfim, desculpe o longo texto, mas senti que deveria compartilhar.

    Que seja a paz de Cristo o árbitro em nossos corações.

      • Ana, seu compartilhar é relevante. Parece que nosso dilema é que a realidade nua e crua é algo terrível demais para todos nós, quanto mais para uma criança. Queremos e devemos protegê-la. Concordo que é necessário ter sabedoria e não sair respondendo perguntas que a criança ainda não fez. Quando meus filhos me perguntam alguma coisa, eu gosto de sondar a resposta que eles já formularam para si mesmos primeiro. Quase sempre este é um exercício relevador. Às vezes descubro que eles estão pensando muito mais profundamente sobre o assunto em questão, às vezes descubro que a pergunta é muito mais simples, mais prática.
        Acho que o que sua amiga fez foi correto, mas a riqueza maior do seu relato está no que você fez, buscando conversar com a filha dela como um outro adulto importante no círculo de relacionamentos que envolvem esta menina. Se fizéssemos isto com mais frequência em nossas comunidades… Toda criança gosta de ter amizade com os amigos dos pais. Muito bom ouvir de você!

  2. Elsie,

    obrigada pela compreensão e empatia. E preciso concordar com você. Precisamos ter outros adultos ao alcance dos nossos filhos, que possam ter liberdade de conversar com eles o que nem sempre falam conosco. Fico pensando que é exatamente esse o papel da igreja. Daí a relevância de “ensinar a criança ‘no’ caminho em que deve andar.” Se estamos juntos no caminho, fica mais fácil o carregar o fardo.
    Grande abraço.

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