Acolhendo as crianças e ouvindo suas mensagensO livro de Lucas fala sobre Zacarias e sua esposa Isabel. Os dois não podiam ter filhos por causa da idade e por uma provável esterilidade de Isabel. De maneira milagrosa Zacarias recebeu a visita de um anjo anunciando o nascimento de um filho que deveria ser chamado João (Lc 1. 5-66). Isabel ficou grávida e no sexto mês da gravidez recebeu a visita de sua prima Maria, uma adolescente também misteriosamente grávida de poucos dias. 

“Maria preparou-se e foi depressa” ao encontro de Isabel. Minha imaginação é conduzida a pensar em uma adolescente indo buscar orientação e conselhos na sabedoria da prima com mais experiência de vida. Provavelmente encantada com o mistério da formação de uma vida no seu útero, queria compartilhar a experiência com uma amiga do coração. A senhora Isabel e a adolescente Maria estão curtindo momentos que somente elas e as suas semelhantes entendem. Elas entendem e nos ensinam como acolher a vida, celebrar uma gestação.

O que se passa com uma mãe quando deseja a morte do filho no ventre? Quando ela programa intencionalmente um aborto? O que mata o sentimento materno tão natural? O que faz uma mãe adolescente não sonhar com a chegada de sua criança? Que pressões externas ou condições anulam o encantamento com a gravidez?

Isabel e Maria estão encantadas com o nascimento das crianças, sonham com os nomes dos meninos: João e Jesus – respectivamente, uma voz no deserto e o Salvador do mundo. As crianças estão vivas no ventre e no coração das duas mães. Enquanto elas vão sendo tecidas como obras artesanais do Criador, as duas mães traduzem suas histórias em poemas. A encarnação da Vida se manifesta tendo Deus como ator principal e os seres humanos como coadjuvantes. O mistério de Deus na criação se manifesta de forma natural no momento da concepção de um filho. O mistério da participação humana acontece quando surge em nossa mente o desejo de ser pai ou mãe e com ele, sentimentos profundos de acolhimento e cuidado com a vida. 

No encontro, Maria expressou uma singela saudação a Isabel. A criança no ventre de Isabel pulou de alegria: “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. (…) Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria” (Lc 1. 41-44). 

Que extraordinário! Uma criança com seis meses de gestação identificando no útero de uma adolescente o Salvador com menos de um mês de vida. Vida discernindo vida com uma linguagem que a razão dos adultos não consegue traduzir. Era como se João estivesse lembrando à sua mãe Isabel: “Mãe, acorda! É Jesus, o Salvador chegando em nossa casa”. Um embrião de mais ou menos seis meses discernindo o momento histórico e buscando de alguma forma se comunicar com a sua querida mãe. Seja como for, Isabel assume o diálogo e responde ao apelo do embrião. O gesto da criança no ventre da mãe trouxe um novo perfume e aumentou a sensibilidade dos que perceberam o que aconteceu. Quantos milagres e comunicações de Deus acontecem no nosso cotidiano e não percebemos?

Jesus disse que as crianças são os principais personagens do seu Reino. Elas estão embriagadas de perfeito louvor. Foram crianças semelhantes a estas que perceberam a revelação de Deus no Jesus de Nazaré, quando fez sua entrada triunfal em Jerusalém montado num jumentinho. Só na lógica das crianças pode-se entender um espetáculo tão divino. Quero continuar acreditando neste milagre da vida – crianças como personagens prioritários e protagonizando o Reino de Deus. Em outras situações, clamando por socorro, denunciando a perversidade dos desumanos. 

O mundo pode esconder outras vozes mais simples, mas elas continuam presentes. São vozes no deserto (como a de João Batista) preparando o caminho do Messias. Basta procurar, discernir, ficar atento. Será sempre uma voz no útero, num deserto qualquer, mas há de encontrar ouvidos e corações sensíveis. Que Deus desperte a nossa “uterinidade” mental para que ouçamos a sua voz.

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Carlos Queiroz, casado, dois filhos, é pastor da Igreja de Cristo e professor do Seminário Teológico de Fortaleza, CE. É diretor-executivo da Visão Mundial no Brasil e autor de Ser É o Bastante; felicidade à luz do Sermão do Monte (Editora Ultimato e Encontro Publicações).

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