Quilombolas - Guariba-PE Foto: U. Dettmar Filhos da ComunidadeJohn Collier é médico aposentado, inglês e um dos fundadores da Revista Mãos Dadas. Apesar de hoje morar em Portugal e de estar menos envolvido com a Rede Mãos Dadas em si, ele ainda mantém contato conosco. Veja a história que nos contou sobre uma viagem sua para o Peru onde participou de clínicas conduzidas por médicos voluntários. Depois de duas semanas de clínica ele se preparava para tirar uma semana de férias na qual planejava visitar Machu Pichu. Mas na noite anterior ao vôo ele e seu amigo Herman tiveram um encontro com uma menina que alterou suas rotas.

Em nossa segunda noite em Arequipa, fomos ao centro da cidade para imprimir algumas fotos, e enquanto eram processadas, fomos passear. Assistimos o final de um casamento na catedral e caminhamos devagar adentrando a praça que estava lotada de visitantes sentados em bancos ou tirando fotos uns dos outros pela fonte. Vimos um homem engraxando sapatos, serviço que o Herman queria há algum tempo. Então nós paramos para isso, primeiro o Herman, depois eu. Enquanto eu estava no banquinho, com um pé sendo engraxado, uma garotinha, de mais ou menos 11 ou 12 anos, aproximou-se de nós vendendo doce. Infelizmente, não há nada incomum nisso, e cada um de nós comprou um chocolate, para ajudá-la em sua iniciativa. Nós trocamos nomes, o dela era Sofia. Ela nos disse que seu pai havia morrido, que havia cinco crianças na casa dela, e que dava o dinheiro das vendas para sua mãe, nada de incomum nisso também.

Então ela disse algo que mudou totalmente a situação para mim. “Você já pensou em apadrinhar uma criança?” Ela nos disse que tinha um padrinho, também chamado John, e que ela havia estado em um projeto chamado “Nueva Esperanza”. E nós perguntamos “Se você tem  um padrinho, porque está rua tarde da noite?” “Eu tinha um padrinho”, ela disse, enfatizando o verbo no passado. A mãe a retirara do projeto, porque precisava de mais dinheiro para sustentar a família. Depois, descobrimos que ela tinha um padrasto também e eu me perguntei quem teria decidido que a menina seria a fonte de renda, sacrificando o seu bem estar ao ponto de esperar que ela abordasse homens estrangeiros tarde da noite numa praça.

Meus sapatos terminaram de ser engraxados, e eu paguei ao homem. Outra criança havia aparecido, ficando parada atrás de Herman. Ela só tinha 4 ou 5 anos e também segurava uma bolsa de barras de chocolate para vender. Parecia que as duas eram irmãs e as duas saíram andando juntas, de mãos dadas. Herman e eu pegamos as fotos reveladas, e a a história devia ter acabado por aí.

Mas não acabou porque John perdeu o sono com a pergunta da menina: “Você já pensou em apadrinhar uma criança?” A pergunta lhe pareceu um ato altruísta de uma criança que apesar de ter perdido algo bom o desejava para outras crianças. Ele já era, de fato, padrinho de outras crianças, mas resolveu que Sofia merecia um investimento maior e ao invés de seguir viagem, ficou em Arequipa por mais uma semana buscando em vão achar a menina.

Não conseguiu achar a menina, contudo conseguiu localizar o projeto Nueva Esperanza que confirmou suas suspeitas sobre a situação familiar de Sofia. O abrigo prometeu procurar a menina e fazer todo o possível para que ela regressasse.

Finalmente, uns 40 dias depois, Herman visitou o projeto. E agora é ele quem conta o que aconteceu:

Na minha última semana no Peru, planejei visitar o abrigo em Arequipa, para ver se Sofia já estava lá. Ao chegar lá o porteiro me recebeu e me deixou entrar. Bertin, o administrador, saiu de um prédio, se dirigiu a mim, me apresentou ao diretor e à sua esposa que me receberam muito bem. Perguntei a eles se Sofia estava e se sabia que eu vinha visitá-la. Sim, ela estava, não, não sabida da minha visita. Então perguntei se eu podia fazer uma visita surpresa para ela. 

Subimos para uma sala e lá estava Sofia com mais 4 meninas. Sofia se virou para ver quem estava chegando. Ela estava a dois metros de mim. Eu olhei diretamente para ela e perguntei: “Você se lembra de mim?” Ela olhou para mim e eu percebi que ela não conseguia me reconhecer. Perguntei novamente: “Você se lembra de mim?” E ela disse baixinho “John?” A esposa do diretor que estava sentada ao lado de Sofia respondeu “Não, ele tem a ver com o seu retorno para nós.”  Os olhos dela se abriram, ela pulou e correu para mim. Eu a peguei em meus braços e com a cabeça dela nos meus ombros, ela chorou por uns 4 minutos e minhas lágrimas se uniram às delas. Este foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida! O diretor não se conteve, começou a tirar fotos de nós dois, assim abraçados.”

Herman e John se tornaram padrinhos de Sofia para a vida!

Para mim que “assisti” o desenrolar da história em tempo real por meio de e-mails, o que me impressiona é a sabedoria de Sofia. (Também, pudera, olha só o nome da menina!) Ela agiu como a serva de Naamã. Num momento de muito pouco poder para mudar as circunstâncias ao seu redor, ela usou o único recurso ao seu dispor: sua voz! Ela não podia obrigar ninguém a fazer nada, mas ela podia pedir, interceder e principalmente contar que havia uma solução logo ali ao alcance de todos. E foi isto que fez. Ouçamos às crianças!

  1. Muito linda a história de Sofia, mas o mais bonito foi a atitude de Herman que não desistiu de procurá-la e decidiu ajudá-la. Oxalá, todos nós estivéssemos interessados em ajudar as crianças, Com amizade, Ycléa

  2. Amei a história e louvo a Deus pela atitude dele em ajuda-la, que Deus continue escrevendo uma linda história cheia de vitórias para a Sofia. E usando grandemente pessoas como ele para implantarem o reino de Deus aqui na terra com atitudes.

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