Geovana no exato momento em que tirou o lenço de Quézia

Quézia Queiroz é jornalista, mora em Brasília com seu marido David Magri e aos 30 anos, 7 anos após o seu casamento, descobriu que estava com câncer de ovário. Durante os 8 meses de luta contra a doença ela descobriu muitas coisas importantes que mudaram e continuam mudando sua forma de viver e de ver a vida. Entre elas está sua experiência com as crianças:

 

Repouso! É tudo que te recomendam depois da quimioterapia. E é, ao mesmo tempo, o que menos te atrai. Não fazer nada parece assustador, sobretudo, depois de meses em tratamento. O paciente com câncer, em geral, não vê a hora de frequentar lugares cheios de gente, comer muita salada crua – o que é proibido por muito tempo – andar sem máscara protetora por aí e, também, exibir os primeiros fios de cabelo.

Como ficar horas em frente à TV nunca foi o meu forte, quando meu corpo obedecia, eu fazia caminhadas no parque mais próximo de casa, visitava meus avós, jogava Uno com os amigos e… cuidava da Geovana. Isso mesmo! Banquei a babá da filha do meu pastor, que tinha 1 ano e meio de idade. O que eu não imaginava era o quanto aquela criança me faria bem e como ela me ajudaria a mudar uma página da minha vida.

É verdade que a “Jojô” fazia o tempo voar. Quanta energia! Entre decifrar o que ela dizia e vigiá-la para não comer a ração da Jade – minha companheira de 4 patas – brincávamos bastante. Em troca? Muito carinho, quase sempre na cabeça coberta pelo lenço. E, assim, durante o repouso, eu me sentia bem. Estava sendo útil. Sentia-me viva! Inevitavelmente em alguns momentos da quimioterapia eu não me senti assim, tão bem.

Em uma tarde chuvosa e fria, gostei muito da ideia da pequena de brincar de dormir! Ela me cobriu, fez questão de embrulhar a Jade também, e dormiu. Dormiu por horas. Mais tarde, acordou sorridente pedindo a mamadeira e enquanto mamava, acariciava a minha cabeça, talvez encantada com o colorido do lenço.

Com o fim da quimioterapia, meus cabelos já começavam a aparecer, mas eu ainda não me sentia à vontade para desfilar por aí com a cabeça livre. Eu ainda precisava me acostumar com a ideia. Talvez eu precisasse de um empurrãozinho. Foi então que, naquele dia, a Geovana me viu distraída e puxou meu lenço, como quem diz: “Já pode tirar!”. O carinho na cabeça, agora livre do lenço, me acalmou do susto inicial. E eu sorri. Com seu gesto inusitado, que nenhum adulto ousaria praticar, a Geovana me ajudou a mudar de fase. E um novo tempo começou. Agora, sem lenços.

Por concordar com a Geovana, ouvi, muitas vezes, cochichos por onde passei. E aos mais curiosos, que questionavam o motivo de um corte tão radical, a história do milagre era contada. E foram muitas e muitas vezes que isso aconteceu. Desde então, já falei do amor de Deus para mais pessoas que durante toda a minha vida cristã. E, enfim, entendi que me tornei um milagre ambulante.

Como as crianças são doces e encantadoramente sinceras! Mesmo sem dizer uma palavra, a Geovana me mostrou que já era hora de encarar, me olhar de frente e sentir orgulho dos primeiros fios de cabelo. Desfilar, sim, por aí com a cabeça erguida e a alegria de quem carrega a marca do milagre!

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