Imagine que você está prestes a completar 18 anos. Ao contrário da maioria dos jovens desta idade, o que o preocupa não é conseguir mais dinheiro dos seus pais para suas despesas pessoais, ou sua carteira de motorista, mas sim, como se sustentar inteiramente sozinho. Este é o dilema dos que vivem em situação de abrigamento, sem vínculos familiares e que, junto com a chegada da  maioridade, descobrem que agora a palavra de ordem é: “Se vira!”

Encontram-se nesta situação uma parte dos 54 mil meninos e meninas que vivem institucionalizados no país hoje. (Fonte: Direito de Ser Adolescente: Oportunidade para Reduzir Vulnerabilidades e Superar Desigualdades, UNICEF, 2011)

Imagino  que o primeiro papel dos pais naturais poderia ser comparado ao do professor de escolinha de futebol. Jogamos a bola e incentivamos a criança a chutá-la. Mesmo os chutes dados no ar são elogiados.

Depois passamos a exigir mais; apontamos as falhas e mostramos o que deve melhorar — assumimos o papel de técnico. Técnico e jogador-mirim têm os seus desentendimentos, mas tanto um quanto o outro respeita a divisão de papéis.

De técnico a torcedor: o destino de todos os pais

Então chegam os dias da grande rebelião. E de técnico somos pouco a pouco rebaixados a torcedores e remetidos sem dó às arquibancadas. Ali, mesmo que se sinta ferido ou ultrajado pelo rebaixamento, o pai passa a torcer abertamente pelo filho. Pai que é pai só deixa o estádio quando o filho para de jogar. Essa mudança de papéis, de técnico a torcedor, é vivida de forma mais ou menos conflituosa pelas famílias. E, em sua maioria, as coisas tendem a se encaixar.

O importante, porém, é perceber o que o adolescente tem de mais precioso: a garantia de que o técnico jamais pedirá as contas por vontade própria, mesmo em desacordo ou em grande conflito com o jogador.

O rebaixamento parte do adolescente quando ele se sente seguro suficiente para jogar sem o apoio técnico do pai. Mas para tanto ele deixa de ser adolescente e passa a ser adulto! É claro que esse processo não tem data fixa nem acontece da noite para o dia.

Adolescência sem técnico: um grande problema

Agora pensemos no adolescente com um histórico de violência doméstica, seguido de trajetória de rua. Um dia é convidado a aceitar a ajuda de um abrigo. Ingressa na casa, aprende as regras, cresce e se desenvolve em várias áreas. No entanto a grande incógnita continua: quem é o seu técnico? Será que uma instituição pode desempenhar esse papel? Ela permanecerá nas arquibancadas até o final do jogo? Muitas vezes, essa pergunta ainda está sem resposta quando chega o dia em que a instituição (único técnico visível até então) declara:

“Agora, meu filho, você precisa jogar sozinho! Estamos saindo do campo!”

É por isso que não é raro ouvirmos sobre adolescentes que estavam indo bem e de repente retrocederam, voltando a práticas autodestrutivas que já haviam superado. Não é raro também encontrarmos adolescentes ou jovens magoados com a instituição que os amparou por muitos anos.

Adolescência sem técnico: está aí uma coisa que precisa de solução!

 

Fonte: artigo revitalizado da Revista Mãos Dadas, Edição 10, “O grande jogo da vida”, Novembro de 2004.

 

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