Os Pressupostos Religiosos na Educação Musical

Por Paulo Ritzel

Desenvolver uma proposta de educação musical com bases cristãs pode gerar suspeitas, ser interpretado como uma ação com motivações proselitistas ou que só possam ser aplicadas exclusivamente com cristãos ou no meio cristão. Outra forma de descredenciar tal proposta é pelo ataque a qualquer base filosófica que tenha pressupostos religiosos.

O mito da neutralidade científica vem sendo desfeito e hoje é tido como discurso comum na academia, mas quando se fala sobre o dogma da autonomia religiosa da razão, ao que parece, voltamos ao iluminismo. Segundo a análise de Dooyeweerd, toda teoria repousa sobre pressupostos religiosos, o que diverge do conceito moderno de religião.

Percebe-se que algumas propostas contemporâneas de cunho religioso mais explícito são aceitas sem maiores questionamentos. Quanto a esse fato, o pesquisador Guilherme de Carvalho (2011), em palestra no projeto “Música Paramirins”, relata que houve uma tentativa histórica de se livrar do domínio cristão na cultura ocidental eliminando a crença em um Deus pessoal. Segundo ele, a modernidade relaciona a crença religiosa ao teísmo.

Existem muitas evidências da presença de crenças religiosas em propostas pedagógicas que não envolvem um Deus pessoal. Miguel Almir L. de Araujo (1999), em seu texto Abordagem Holística na Educação, afirma que a cosmovisão holística emerge a partir dos mananciais de tradições milenares da humanidade, pois “grandes tradições da humanidade como o Budismo, o Taoísmo, o Hinduísmo concebem que tudo no universo está inter-relacionado em sua existência mais profunda no fluxo contínuo do devir cósmico, na cadência dinâmica de seus ciclos”.

Encontramos essa ideia de religiosidade presente na proposta de educação musical desenvolvida por Murray Schafer. A partir da aplicação da religião panteísta, ele declara que deus está em tudo, descaracterizando a visão de um Deus pessoal. As ideias desse educador canadense são celebradas em muitos países, tendo a educadora e escritora Marisa Trench Fonterrada como a maior articuladora e divulgadora de seu pensamento em território brasileiro.

Fonterrada é tradutora dos livros “O ouvido pensante” e “A afinação do mundo: uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora” ambos de Schafer e editados pela Unesp em 2001. Dentre as publicações da Professora Marisa destacam-se.“Música e meio ambiente – ecologia sonora” (Irmãos Vitale, 2004) e “De tramas e fios: um ensaio sobre música e educação”(Unesp, 2005).

Em artigo publicado em “Patria and the Theatre of Confluence” Schafer (1991) declara:

E o bater dos tambores, o canto, o olhar e o movimento nos carregavam para fora deste mundo, arremessando-nos na voluta do universo, tornando-nos conscientes da unidade de todas as coisas materiais, espirituais, naturais e divinas. Então, a arte revelava divindades nos seres humanos, divindades nos animais, divindades nas árvores, nas montanhas, no sol e no céu, no mar, na lua e nas estrelas. Então, não havia arte. Havia milagres. Então, não havia música. Havia tons mágicos. Então, não havia artistas. Havia sacerdotes e mágicos”. (Schafer, 1991, apud Fonterrada, M. O lobo no labirinto, 2004, p. 323).

 

O “Projeto Lobo” (Wolf Project) desenvolvido por Murray Schafer foi criado com o propósito de retomar rituais da antiguidade ligados à mitologia e magia em contato íntimo com a natureza a fim de criar uma comunidade onde cada participante se envolva cooperando uns com os outros na busca de equilíbrio e harmonia mútua e com a natureza.

É muito fácil identificarmos pressupostos religiosos nessas propostas. Mas, para Dooyeweerd, o conceito de religião vai mais além. Para o autor:

O impulso inato do eu humano para direcionar-se rumo à verdadeira, ou a uma simulada, origem absoluta de toda a diversidade temporal do sentido” (Dooyeweerd, 1997, p.57).

Nesse sentido, todo ser humano é um ser religioso, pois crê de onde tudo surgiu e essa ideia fundante, que os filósofos chamam de primeiros princípios, não pode ser provada cientificamente. É um ato de fé.

Essa ideia mais abrangente de religiosidade está presente na Grécia antiga como vemos em Aristóteles:

Assim, sobre aquilo que pode existir independentemente e é imutável, há uma ciência. E se há tal tipo de coisa no mundo, aqui certamente deve estar o divino, e ela deve ser o primeiro e mais dominante princípio” (Aristóteles, Metafísica – livro K, 1064a33ss)

É preciso deixar claro que Dooyeweerd defende o diálogo teórico entre escolas diferentes. O que ele critica é o ideal de neutralidade religiosa na ciência e na filosofia. Ele denomina essa atitude de dogmatismo da razão devido ao pensamento acrítico na atitude teórica.

Qual é a natureza dessa religiosidade humana? Teremos essa resposta ao responder quem ou o que o homem idolatra.