Caros leitores,

Nessa ocasião oportuna na qual celebramos a encarnação do Messias, decidimos publicar nossa primeira tradução de uma meditação visual de Marleen Hengelaar-Rookmaaker, filha do historiador da arte, Hans Rookmaaker. O projeto de meditações visuais criado e implementado por Marleen advoga um engajamento crítico com o mundo das artes e cultura e se opõe diretamente a rejeições desinformadas ou aceitações acríticas. Cada meditação visual se dedica a uma obra de arte, antiga ou recente, criada ou não por um artista cristão, da Europa, América do Norte ou qualquer outra parte do mundo. As meditações são publicadas regularmente a cada domingo no site Artway.eu.

Em 2012 planejamos implantar um projeto parecido através do site da L’Abrarte. Através dele, artistas brasileiros poderão ter a oportunidade de apresentar suas obras e se conectar com outros artistas do Brasil e, quem sabe, de outras partes do mundo.

Boa leitura!

Paulo Ritzel

L’Abrarte – Associação Hans Rookmaaker para Estudos em Arte e Cosmovisão

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Sombreamento

por Marleen Hengelaar-Rookmaaker

Tradução: Fernando Guarany Jr

Em maior medida do que seus contemporâneos holandeses, Rembrandt (1606-1669) dedicou-se à representação de histórias bíblicas.  Seus colegas calvinistas especializaram-se em paisagens, naturezas mortas e obras do gênero, enquanto seus contemporâneos católicos, como Jan Steen produziram temas bíblicos limitando-se comumente a temas sancionados pela tradição. Rembrandt, no entanto, escolheu temas externos ao cânone tradicional.  Contudo, quando escolhia um tema padrão Rembrandt frequentemente o retratava de maneira singular, como é o caso do desenho da Anunciação, produzido em 1635.

A Anunciação é a representação visual de Lucas 1:26-35. Ao longo da história da pintura, essa obra tem sido um tema relevante e altamente valorizado, pois retrata um importante dogma:  Deus tornando-se humano em Jesus de Nazaré. Há uma série de elementos que tradicionalmente fazem parte da representação desse tema: Gabriel se aproxima de Maria pela esquerda, que está lendo a Bíblia em uma determinada passagem de Isaías. Reverentemente o anjo se aproxima de Maria, às vezes, ajoelhando-se diante dela.  Maria também se curva em reverência ao anjo.  Outro elemento padrão é a pomba descendo ao longo de um raio de luz em direção ao seio de Maria.  Às vezes, porém, o raio adentra o seu ouvido, pois Cristo é a Palavra. Às vezes um bebê é retratado neste raio de luz, com ou sem uma cruz em suas minúsculas mãos.  Foi assim que o momento da concepção encontrou expressão.

Vejamos como Rembrandt expressa esse momento. Imediatamente fica claro que pouco resta da interpretação habitual deste tema. O anjo se aproxima de Maria pela direita e Rembrandt não inclui uma pomba na cena. À primeira vista, o desenho faz uma impressão um pouco confusa com um monte de rabiscos obscuros.  O encontro entre o anjo e Maria está longe de ser uma cena serena e elevada com figuras curvando-se umas às outras, mas, na realidade, representa um espetáculo caótico e emocional.

Gabriel, como podemos ver pelas linhas fluidas atrás dele, adentra a sala voando a toda velocidade. Ele inclina-se com cuidado sobre Maria e olha para ela cheio de preocupação. Sua asa esquerda é retratada apenas parcialmente: o papel era pequeno demais para conter a sua imponente presença. Maria fica totalmente deslumbrada com a entrada do anjo. Ela desliza em sua cadeira, enquanto seu braço esquerdo busca o apoio do braço esquerdo do anjo. Seu braço direito fica solto. O livro desliza em seu colo.  É preciso olhar com muito cuidado para perceber os detalhes, como, por exemplo, o espaço em frente à parte superior do corpo de Maria  que é preenchido por um emaranhado de linhas indistintas. O que está acontecendo ali é, afinal, um grande mistério. O rosto de Maria, cheio de sombreado, está escuro e cheio de emoção.  Ou seria isso uma referência a Lucas 1:35:  “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá”?

Mas não para por aí. Rembrandt utiliza a fórmula, muitas vezes presente na arte do século 17, da mulher em perigo, que mostra a mulher de lado na posição sentada (de fato Mary flutua aqui em uma posição impossível entre o céu e a terra).  Esta fórmula de Rembrandt, por exemplo, também é empregada em suas representações do banho de Bate-Seba e Susanna – ambas mulheres em perigo devido à ameaça de serem atacadas por um homem. Maria também é uma mulher em perigo aqui, diz Rembrandt, devido à sombra do poder do Altíssimo, que vai levá-la a uma vida cheia de sofrimento. A propósito, aquele por quem ela sofrerá, o bebê, aparece no meio da parte inferior do desenho.

Outro elemento que precisa ser percebido é o chinelo em primeiro plano à esquerda. Um chinelo muitas vezes sugere cenas de cama  na arte holandesa do século 17, mas poderia também apontar para Moisés, que teve de tirar os chinelos na presença da sarça ardente.  Podemos até dizer que estamos pisando em solo santo aqui!

Assim, vemos que Rembrandt deu um toque de originalidade ao retratar um tema tão conhecido. A humanidade presente na reação de Maria, por exemplo, sugere que ela não é como um santo em um nível intocavelmente acima de nós, mas uma mulher de carne e osso. Além disso, Rembrandt enfatiza a aparência majestosa do anjo e da grandeza incompreensível do que está acontecendo ali.  Mas talvez o elemento mais especial neste desenho seja o grande cuidado do anjo com Maria: o seu olhar terno de preocupação enquanto se curva em direção a ela, abrindo suas asas sobre a cabeça dela para protegê-la e abençoá-la. Pois, embora possamos receber chamados impossíveis e, mesmo correndo perigo, quem permanece na sombra do Todo-Poderoso, ele certamente protege debaixo das suas asas.

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Texto traduzido do original em inglês disponível em http://bit.ly/vLnDCf