Caros leitores,

Iniciamos essa publicação com uma nota de agradecimento: o aprofundamento dos estudos aqui relatados se deu a partir da nossa participação na I Conferência do L´Abri Brasil em 2008 (http://labri-brasil.blogspot.com/). O impacto das reflexões ali apresentadas nos motivou a avançar nas pesquisas sobre arte e fé cristã levando a posterior criação da L’Abrarte – Associação Rookmaaker para estudos em Arte e Cosmovisão.

É muito gratificante constatar o frescor dessas ideias através da aceitação e aplicabilidade da proposta no contexto brasileiro contemporâneo.

Obrigado aos amigos do L’Abri Brasil pelo incentivo e apoio.

Paulo Ritzel

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Introdução

A educação fragmentada tem sido um problema cada vez mais recorrente nas discussões acadêmicas contemporâneas. Urge a necessidade de elaboração de propostas pedagógicas consistentes que contribuam com a recuperação da integralidade humana.

A experiência desenvolvida pelo Programa Meninartecidade – há mais de treze anos no cenário da educação pública municipal de Parnamirim RN – revelou duas tendências extremas: a de relacionar a validação acadêmica com o mito da neutralidade científica e a da abordagem tirânica dos aspectos mais caricatos da fé cristã (fideísmo), que insiste em justificar toda e qualquer ação humana pela relevância evangelística cuja preocupação exclusiva é a salvação da alma. Estas ideias se apresentam na nossa cultura como fortes oponentes para a recuperação da consciência do ser total.

Percebe-se que um número considerável de professores e alunos, sobretudo no que se refere ao canto coral, vivem em conflitos decorrentes da compartimentalização e dualismos tão presentes na academia e no meio cristão evangélico contemporâneo.

O texto demonstra como a filosofia cosmonômica desenvolvida pelo pensador Herman Dooyeweerd combate simultaneamente a pretensa autonomia do pensamento filosófico e o fideísmo evangélico. Por fim, aponta para como essas distorções têm interferido na proposta de educação musical desenvolvida pelo Programa Meninartecidade. Trata-se de um relato parcial dos esforços despendidos pelo referido Programa na construção de uma educação musical comprometida com o desenvolvimento do ser humano completo.

Em busca do cerne integrativo

Vivemos em uma sociedade onde a cada dia sabemos mais sobre menos. Essa postura presente no mundo cada vez mais especializado tem contribuído para que o todo se perca nas partes. A busca por alguma explicação adequada de toda a realidade desmoronou quando o homem moderno falhou na tentativa de encontrar uma unidade na diversidade total.  Esse contexto desolador colaborou para a proliferação da visão de mundo reducionista em que cada campo do conhecimento tenta explicar, única e exclusivamente, o mundo a partir de sua esfera da realidade.

Nos últimos quinze anos, tem-se percebido o esforço de educadores das mais diversas correntes pedagógicas para a elaboração de um currículo integrado. É certo que o conceito de educação integral pode partir de pontos de vista diferentes e, por sua vez, podem divergir em muitos aspectos, mas são co-beligerantes quanto à posição contrária ao currículo fragmentado promovido pela escola tecnicista.

Nesse sentido, a presidente do Departamento de Educação de Docentes da Philadelphia Blibical University, Martha  MacCullougt  (2005), percebe a necessidade de elaboração de propostas que procurem identificar um eixo que proporcione unidade entre as partes e assim estabeleça uma relação entre o conhecimento e a totalidade quando afirma:

Um dos principais temas discutidos na educação nos dias de hoje é a necessidade de um cerne integrativo ao redor do qual seja possível organizar a vida e a aprendizagem como um todo. O conhecimento deve ser algo unificado, inteiro e conectado (MacCullougt, 2005, p. 7).

Podemos dizer que para o pensador holandês Herman Doyeweerd (2010) esse “cerne integrativo” tem sua base fundante no nível pré-teórico da estruturação do pensamento, ou seja, na experiência do cotidiano. Ele combate o que denomina “o tradicional dogma da autonomia do pensamento filosófico”, afirmando a existência de um conjunto de crenças que opera a partir de pressuposições pré-teóricas e que é ele que controla a teorização e seus resultados. Essas ideias são consideradas a base religiosa do pensamento teórico e foram chamadas por ele de ideia cosmonômica.

Segundo Albert Wolters (2010):

Ideia cosmonômica é o equivalente para o termo holandês WETSIDEE, que significa “ideia de lei”. O termo “cosmonomia” (cosmonomy) teria sido adotado por Dooyeweerd mediante a sugestão de um dos tradutores da versão inglesa. A intenção do termo é expressar a existência de uma inquebrável coerência entre a lei de Deus (grego nomos) e a realidade criada (grego cosmos), factualmente sujeita à lei de Deus. A expressão completa “ideia cosmonômica” (cosmonomic Idea) refere-se às ideias fundamentais de uma cosmovisão ou filosofia a respeito do que seria o princípio ordenador do cosmo (Wolters, 2010, p. 281).

Dooyeweerd categorizou a realidade em 15 esferas modais: numérica, espacial, cinemática, física, biótica, psíquica, lógica, histórica, linguística, social, econômica, estética, jurídica, ética e pística – derivação do grego “pistis”, que significa fé. Essas esferas ou modalidades estão sujeitas à unidade central da lei divina, ou seja, o princípio ordenador do cosmo (cerne integrativo) aplicado à realidade temporal.

Cada modalidade possui um núcleo de sentido próprio que não pode ser reduzido a outro aspecto da realidade, ao mesmo tempo em que se relaciona com as diversas esferas modais. Tal coerência promovida pela integração das partes garante uma unidade na diversidade e responde ao conflito entre o todo e as partes, ajudando dessa forma, na compreensão do ser uno.

 O estudioso entre as relações da teologia e a música – Jeremy Begbie (2006) afirma que “o significado apropriado de um aspecto particular de nossa experiência pode se revelar apenas em sua coerência inquebrável com o significado de todos os outros aspectos modais”. Essas inter-relações favorecem a prática da interdisciplinaridade.

Segue-se quadro ilustrativo das esferas de modalidades, seus respectivos núcleos de sentido e áreas relacionadas (Carvalho 2008):

 

Para Dooyeweerd o todo é indivisível, portanto a análise das áreas específicas de conhecimento só é possível através da abstração teórica. Mais adiante, estaremos estabelecendo algumas relações entre as modalidades por meio de analogias e aplicando essas ideias ao campo da educação musical. Trataremos em seguida do problema das incoerências quanto à aceitação do lugar dos pressupostos religiosos na academia.