Dr. James Romaine é historiador da arte e reside em Nova Iorque. Ele é co-fundador da Association of Scholars of Christianity in the History of Art (ASCHA). Dr. Romaine é professor adjunto de história da arte e presidente do departamento de história da arte na Nyack College.

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O Legado de Hans Rookmaaker:  ”E daí?”

Apesar de não ter conhecido Hans Rookmaaker, que morreu em 1977, fui aluno de um aluno seu, John Walford, e me vejo, de alguma forma, como neto vocacional de Rookmaaker. O exemplo de Rookmaaker deu aos cristãos a permissão de explorar as vocações no campo da história da arte.  Isso é certamente importante – de outra forma, eu mesmo não estaria aqui – contudo, essa pode não ser a dimensão mais significativa e duradoura de seu legado.  De fato, a insistência de Rookmaaker de que a arte, assim como a vocação do historiador de arte, não precisa de justificativa evitou habilmente uma armadilha em potencial que poderia ter limitado a consequência de seu trabalho a uma simples concessão de permissão.  O impacto de Rookmaaker sobre o meu senso de vocação tem mais a ver com articular – para o estudioso, artista e apreciador cristãos – um senso específico de propósito, não somente uma simples permissão.

Na conclusão de seu mais marcante livro Modern Art and the Death of a Culture [A Arte Moderna e da Morte de uma Cultura], Rookmaaker escreveu uma seção intitulada “questões de estética e moral.” Ele argumentou que a estética não é apenas uma teoria abstrata de cor e forma, como se a arte fosse um tipo de decoração interior; é algo vinculado à vida como “um todo.” Essa conexão que ele estabeleceu entre a obra de arte e o florescimento humano é provavelmente a dimensão do método de Rookmaaker que afetou mais diretamente o meu trabalho como historiador de arte.

Para Rookmaaker, a arte tem consequências morais. Se por um lado eu discordo de algumas das conclusões de Rookmaaker em A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, por outro, concordo com ele nesse ponto fundamental, que subjaz o propósito do livro.  Rookmaaker escreveu sobre arte – mesmo sobre arte que ele reprovava – conferindo-lhe uma profunda importância.  Isso não é algo simples de se fazer.  Quando se pensa nas várias metodologias aplicadas à arte – e à arte moderna em particular – muitas delas, de um jeito ou de outro, reduzem a obra de arte. (Isso pode ser porque essas metodologias geralmente têm suas premissas em paradigmas que reduzem a pessoa, o artista, o apreciador e o estudioso.) Esses métodos, quer estejam arraigados em pressuposições formalistas, iconográficas, marxistas ou de outro tipo qualquer, tratam a obra de arte como simplesmente um objeto cultural qualquer e ignoram as dimensões religiosas, espirituais e/ou filosóficas da arte.  Mesmo os estudiosos interessados ​​no “sagrado na arte”, muitas vezes descrevem a obra de arte como uma forma de escapismo espiritual da realidade. Rookmaaker, em minha leitura, viu a arte como tendo uma consequência moral e religiosa, mesmo que a religião fosse uma antítese ao cristianismo.

Em minha prática acadêmica, especialmente ao escrever sobre arte contemporânea, procuro sempre manter a seguinte pergunta em mente: “E daí?” Essa questão indaga: “O que está ‘em jogo’ nessa obra de arte?” ou “como essa obra de arte, em seu conteúdo e forma, realizam materialmente a urgência da condição humana?”  Rookmaaker seria o primeiro a dizer que não se deve buscar nas obras de arte a resposta para os dilemas humanos.  Entretanto, uma vez que estas obras de arte são, ao mesmo tempo, materiais e imateriais, visíveis e invisíveis, elas participam conosco moldando e sendo moldadas pelo desdobramento da história da criação. Embora o processo artístico seja o exercício de uma unidade de conteúdo e forma de criação de sentido, ele é marcado tanto pelo sofrimento quanto pela graça. Obras de arte são manifestações e agentes de transformação pessoal, cultural e espiritual, quer para renovação, quer para ruína.

Rookmaaker foi criticado por sua leitura, às vezes reprobatória, da arte do século 20.  Não obstante, ele levou essa arte a sério, talvez mais a sério do que alguns de seus mais fervorosos defensores.  Enquanto alguns historiadores da arte estavam escrevendo sobre o uso dos artistas modernos de cor e forma, e historiadores de arte escreviam sobre as aspirações xamânicas do artista moderno, Rookmaaker ousou fazer a pergunta: “O que está em jogo na arte do século 20?” Como o título do livro sugere, Rookmaaker considerava a arte moderna como uma questão de vida ou morte.

A preocupação de Rookmaaker com a arte como uma manifestação material da bondade e quebrantamento evidenciados na história da condição humana conferiu propósito à sua leitura cuidadosa dos objetos de arte e à consideração de seu contexto social e consequências. No entanto, ele manteve seu foco na metanarrativa da criação de eternidade a eternidade. Rookmaaker demonstrou que a vocação do historiador de arte era mais do que uma distração desta narrativa; na realidade, ao perguntar “e daí?”, o historiador de arte continuamente conduz a atenção do leitor/apreciador em direção ao que é mais importante.

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Traduzido a partir do original em inglês por Fernando Guarany Jr [Coordenador de Traduções e Membro da L'Abrarte]