Conforme anunciado anteriormente, estamos traduzindo uma série de artigos sobre a vida e obra de Hans Rookmaaker publicados recentemente em inglês pelo site transpositions. A primeira parte do primeiro artigo, disponibilizada em português abaixo, foi originalmente publicada aqui e trata das “quatro liberdades” e arte cristã.

Boa leitura!

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As “Quatro Liberdades” e a Arte Cristã de Hans Rookmaaker

Dr. E. John Walford é Professor de História da Arte na Wheaton College, Illinois, onde leciona desde 1981.  Ele é autor de Jacob van Ruisdael and the Perception of Landscape.

Meu pai havia morrido alguns meses antes, assim, quando o Professor Hans Rookmaaker, historiador cristão de arte da Universidade Livre de Amsterdam faleceu na primavera de 1977, senti como se tivesse perdido o homem de maior significado em minha vida – e tinha mesmo. Eu tinha obtido minha graduação sob sua tutela havia apenas alguns meses e acabara de entrar num programa de doutorado na Universidade de Cambridge, onde meu distinto e humanista orientador judaico-alemão, falecido Professor Michael Jaffé vivia me perguntando: “Onde foi que enfiaram toda essa bobagem na sua cabeça?” A bobagem a qual ele se referia era a profunda sabedoria de Hans Rookmaaker, meu mentor durante sete anos.  Rookmaaker me ensinou a ver e responder ao mundo a partir de uma perspectiva nova, orientada não pela minha  educação britânica secular e de classe alta, mas guiada pelas Escrituras, conforme moldada pela tradição reformada holandesa.

Ao tentar ser um pouco mais específico acerca do que significa, como cristão, ver e responder ao mundo de maneira diferente, recorrerei aos escritos de meu antigo professor, Hans Rookmaaker.  O seu livro, The Creative Gift: Essays on Art and the Christian Life, de publicação póstuma em 1981, trata da questão de ser cristão e artista em um mundo quebrado.[1] Ele delineia duas visões que se contrastam na vida, uma fundamentada na rebelião e permissividade, conforme vista na cultura de seu tempo, e a outra baseada na liberdade que o cristão descobre em Cristo.  É um impressionante conjunto de contrastes que merece cuidadosa consideração.

O tempo não me permite fazer justiça à amplitude de sua visão sobre cativeiro secular e a liberdade cristã, e suas implicações em relação a como cada pessoa enxerga e se engaja com o mundo, mas tratarei de alguns elementos cruciais no que diz respeito à liberdade cristã.

Para contextualizar seus comentários mais específicos, Rookmaaker primeiro esboça seu próprio entendimento de liberdade ao confiar a vida a Cristo, a importância de exercitar tal liberdade com regras dadas por Deus para a vida, e as implicações disso tudo para a criatividade artística.  Ele trata de quatro dimensões dessa liberdade que impactam a maneira que entendemos e nos relacionamos com o mundo. [2] A partir daí, ele contrasta esses entendimentos de liberdade com as noções atuais de liberdade, conforme expressas na arte de sua época. [3]

Tendo feito esses contrastes e considerado várias ameaças à liberdade—vindas tanto da igreja quanto do estado e da sociedade—ele aponta para a contínua tarefa dos cristãos – incluindo obviamente os artistas cristãosde desmascarar pseudodeuses ou falsos ideais e reabrir a visão em direção à plenitude da realidade.[4] Em resumo, desmascarar o que é falso apontando para a plenitude da vida e da renovação é o cerne de sua visão para o chamado do artista cristão.

Na visão de Rookmaaker, a liberdade que se encontra em Cristo dá ao artista cristão um poço de percepções do qual se pode tirar uma verdadeira visão da realidade, uma visão que emerge do cuidadoso enfoque das lentes da sabedoria bíblica sobre o mundo em nossa volta.  Assim, na visão de Rookmaaker, nossa tarefa como cristãos é trabalhar com base na liberdade que alcançamos na redenção de Cristo, buscando maneiras positivas de expressar uma verdadeira visão da realidade – uma realidade maior do que simplesmente a natureza somada ao homem. Enquanto Marcuse evoca uma arte que projeta uma visão do humano que floresce além do princípio da realidade, Rookmaaker nos chama a ver a realidade através dos olhos da fé.

Qual é então a natureza da liberdade descrita por Rookmaaker?

Em primeiro lugar, ela é melhor compreendida em seu contraste entre a permissividade secular e a liberdade cristã, conforme mencionado acima, que através da justaposição ecoa os padrões das consequências das bênçãos e maldições de Deus, conforme recitadas em Deuteronômio, capítulos 4 – 8.  Mas, mais particularmente, Rookmaaker enfoca seu argumento nas quatro liberdades críticas: liberdade perante Deus, liberdade perante nós mesmos, liberdade perante os outros e liberdade e abertura perante a natureza. [5]

1. Liberdade perante Deus:

Temos “confiança perante Deus,” assevera Rookmaaker. “Consideramos a Deus como nosso amado Pai, com reverência e adoração, e tentamos não ofendê-lo.”

2. Liberdade perante Nós Mesmos:

Não precisamos temer a nós mesmos, proclama Rookmaaker, pois Cristo nos aceitou como somos, com nossas próprias personalidades.  Frustração e automortificação não pertencem ao evangelho (Col. 2:16-23). Ainda assim, a autorrealização também não é o objetivo da pessoa renovada em Cristo, já que a vida é tanto um dom quanto uma tarefa para nós como indivíduos.

3. Liberdade perante o mundo (os outros):

Pode ser que venhamos a sofrer, assim como ocorreu com Cristo, alerta Rookmaaker, mas não devemos ter medo do mundo, que pode matar o corpo, mas não a alma (Mateus 10:28). Temos verdadeira liberdade porque estamos nas mãos de Deus.  Ele sabe até mesmo o número de cabelos em nossa cabeça.  Como seus servos, podemos realizar nossas tarefas, mas não precisamos nos preocupar se o destino do mundo depende de nossas ações.  A confiança em Deus nos liberta de ter que calcular e determinar tudo sozinhos.  Pois Deus quer trabalhar através de nossas fraquezas (1 Cor. 2:1-5),  e se compromete a responder nossas orações liberalmente; como seus filhos, somos livres para trabalhar sem pressão ou medo, sem complexos de inferioridade ou superioridade.  Não estamos sós e não dependemos de nossas boas obras para conseguir um lugar no céu.  Conforme afirmado no Catecismo de Heidelberg, o Filho de Deus junta, protege e preserva a igreja.

4. Liberdade e abertura perante a Natureza:

A criação de Deus está aberta diante de nós, afirma Rookmaaker.  Por Cristo ser o Senhor, não precisamos temê-la como uma força malévola (muito embora desde de a Queda a natureza não seja mais plenamente o que Deus pretendia). Muito menos é a criação um sistema que governa a si mesmo.  Leis mecânicas de causa e efeitos podem descrever como o mundo funciona, mas não são capazes de tocar sua mais profunda realidade.  Deus está ativo no processo (Deut. 27-30), razão pela qual faz sentido orar por bênçãos e dar graças antes de comer, ou celebrar o Dia de Ação de Graças.  Não é possível darmos explicações por toda colheita abundante ou desastre natural, mas isso não quer dizer que tudo ocorra por acaso.  Como Jó (Jó 40:6ff), chegamos aos limites do entendimento humano e ficamos pasmos com a sabedoria de Deus na natureza, mas não somos forçados a ver a natureza como uma prisão que frustra os nossos planos.  Isso acontece somente quando fazemos exigências sobre ela que vão de encontro à sua ordem criada, exigências que se opõem às suas normas estruturais.

De maneira crítica, Rookmaaker argumenta que, por causa dessas quatro liberdades, podemos reconhecer que a criação de Deus é o ambiente que ele nos deu para habitar. A criação é a nossa casa.  A alienação é desnecessária.  O contato com a realidade em um nível profundo é parte da vida cristã. Devemos adentrar a realidade, não tentar fugir dela.  A fuga da realidade é uma marca do misticismo oriental e clássico, não do cristianismo.


[1] H.R. Rookmaaker, The Creative Gift: Essays on Art and the Christian Life, Westchester, Illinois: Cornerstone Books, 1981, reimpresso em The Complete Works of Hans Rookmaaker, Ed. Marleen Hengelaar-Rookmaaker, Vol. 3, Carlisle: Piquant, 2002, pp. 135-244.

[2] Rookmaaker, The Creative Gift, pp. 57-68, 103ff.

[3] Rookmaaker, op. cit., pp. 77-108.

[4] Rookmaaker, op. cit., pp. 107.

[5] Rookmaaker, op. cit., pp. 64-68.

Crédito da Imagem: Steven Jaehnert

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Traduzido a partir do original em inglês por Fernando Guarany Jr [Coordenador de Traduções e Membro da L'Abrarte]