Por Carolina Selles

Somos mais de 12 milhões de pessoas na cidade de São Paulo e, juntos, respiramos o mesmo gás carbônico que sai do escapamento de carros engarrafados e de velhos ônibus que nos levam, todos os dias, para nossos trabalhos, faculdades e lares.

Somos muitas e muitos, de fato! Moramos em lugares bem afastados do centro e nos deslocamos por quilômetros, diariamente. Somos da Zona Leste, Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste e de todos os seus desdobramentos.

Apressados, nos deslocamos por quilômetros e não prestamos atenção aos detalhes.

Como paulistanos caricatos (ou adeptos desta cultura que aqui se refugiam) gostamos de supervalorizar a falta do nosso tempo. E assim, desenvolvemos ansiedades diversas, pois estamos sempre com a sensação que temos “um mundo” de opções ao nosso dispor, mas não conseguimos aproveita-las, justamente pela falta de tempo que tanto supervalorizamos.

Para agravar (sim, é possível!), desenvolvemos um olhar distante e crítico para com a cidade que nos acolhe. Adotamos a postura que toda melhoria é de responsabilidade alheia e assumimos postos de meros consumidores, como se a cidade não fosse a soma entre eu e você = nós.

Por isso, não é difícil encontrar pessoas que, ao se estafarem por excesso de trabalho ou se sentirem lesadas pela falta que a “cidade grande” não saciou dentro delas, acreditam que o outro extremo seja a solução de seus problemas: – Viver uma vida bucólica, no campo, longe de buzinas frenéticas, asfalto demasiado e cartão de ponto não seria, então, a solução de todos os meus problemas existenciais?

Confesso que eu já fui uma dessas pessoas. Já quis fugir para as montanhas, acordar com o sol batendo através de uma linda e enorme janela de vidro, através da qual eu poderia contemplar o nascer e o pôr do sol. E nesse lar aconchegante, com cheiro de mato, flores e aromas eu desenvolveria trabalhos manuais e artísticos sem pressa, leria um livro sem interrupções e viveria, então, uma vida alegre, feliz e completa, para sempre, não é mesmo?! Parece que não… Continue lendo →

Por Jean Mendes

Vingadores: Guerra Infinita finalmente estreou nos cinemas. Os fãs não poderiam estar mais felizes e, também, chocados. O filme foi surpreendente em todos os sentidos. Quem já assistiu sabe do que estou falando. Mas, se você não assistiu ainda, pare por aqui, pois você pode se deparar com  algum spoiler. Vá logo ver o filme e volte para cá mais tarde.

Bom, caso você não saiba, Guerra Infinita já tem a maior bilheteria de estreia da história. O longa faz parte de uma grande franquia iniciada em 2008, que já contempla outros 18 filmes, além de curtas-metragem, séries de TV e histórias em quadrinhos. O que explica esse sucesso? Provavelmente você vai pensar: os super-heróis que todos amam, muitas cenas de ação, efeitos especiais grandiosos, um bom elenco e, claro, uma boa história. Se pensou nesses elementos, acredito que você está certo, sobretudo na parte da “história”.

Você conhece alguém que não goste de ouvir ou contar histórias? Creio que não. Isso porque as histórias não apenas nos entretêm, mas também nos ajudam a encontrar sentido nas coisas. Ao colocar a história de vida de uma pessoa em perspectiva, podemos saber quem ela é, o que valoriza e até investigar suas motivações passadas e aspirações futuras. É claro que podemos fazer interpretações equivocadas, mas não entrarei nesse méritos.

O fato é que, evidentemente, todos os filmes contam histórias, algumas boas e outras ruins. As melhores, sem dúvida, são as que nos levam para dentro delas, produzem comoção, geram reflexões e, após isso, boas conversas e discussões. O novo longa dos Vingadores pode ser colocado nessa seleta lista; ainda bem. Afinal de contas, entretenimento barato já existe aos montes. E, se muita gente gasta boa parte do tempo com filmes e séries, que estes pelo menos tragam alguma “edificação”.

Sem querer forçar muito a barra, e guardadas as devidas proporções, eu diria que o “Universo Cinematográfico da Marvel” é uma mitologia moderna que mistura um pouco das epopeias gregas com as distópicas histórias de ficção científica. E digo isso principalmente pelo fato destas narrativas fazerem uso de elementos ficcionais como pano de fundo para desenvolver e comunicar temas universais como bem e mal, a dinâmica da vida em sociedade e as estruturas de poder.

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Por Maurício Avoletta Junior

“A igreja é uma sociedade, o corpo de Cristo e o templo do Espírito. É uma sociedade visível que existe em meio à outras sociedades”.

– Peter Leithart

 

Não, Cristo não foi morto pelo Estado. Não, Cristo não lutou pelas liberdades individuais e nem pelas minorias. Não, Cristo não defendeu que bandido bom é bandido morto. Cristo veio nos salvar do pecado e nos dar uma nova vida, não batizar sua ideologia preferida.

Cristo não era conservador, não era liberal, não era socialista e nem comunista. Ele era homem e era também Deus. Ele é o Verbo que criou o mundo e não o autor de algum manifesto sobre desobediência civil. Não batizem ideologias. Não batizem Cristo. Deixem-se ser batizados por ele.

Quando declaramos o credo apostólico e dizemos crer no Deus pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, quer dizer exatamente isso e não o contrário. Cremos no Deus todo-poderoso, criador da realidade existente e capaz de criar qualquer outra realidade possível. Não cremos no Deus do socialista, nem do liberal ou do conservador. O Deus das Sagradas Escrituras é bem maior do que o deus deles.

O Cristo bíblico é conservador demais para ser revolucionário e revolucionário demais para ser conservador. Ele é liberal demais para ser estatista e é estatista demais para ser liberal. O Cristo redentor, o salvador da humanidade, o cabeça da Igreja não é um militante político. Embora ele tenha o costume de salvar alguns militantes, ele não tem a pretensão de agradá-los. Ele não veio trazer a paz, mas a espada. Ele veio trazer unidade entre os seus e separa-los dos outros (Mt 10:34, 35). Ele não veio para falar sobre algum golpe e nem para falar que algum senhor filósofo tem razão. Ele não veio pedir menos Marx e mais Mises, ele veio virar o nosso reino de cabeça para baixo.

Quer ser servido? Sirva. Quer ser o primeiro? Seja o último. Que ser grande? Seja pequeno (Mt 20:25, 28). Bem-aventurados os que choram, os que tem fome e sede de justiça, os pobres de espírito… (Mt 5:1, 11)

Sim, Cristo se importa com os pobres, da mesma forma que se importa com os ricos. Ele se importa com a propriedade privada, da mesma forma que ele se importa com que ninguém passe necessidade. Ele se importa que você cumpra as leis do Estado, da mesma forma que ele espera que o Estado não ocupe o lugar dEle. Um cristão deve ser dominado pelo Evangelho a tal ponto que não se satisfará com nenhuma ideologia terrena. Ele estará tão fascinado pela realidade do evangelho, que não ligará para nenhuma possibilidade ideológica. Continue lendo →

Em abril, como parte da celebração dos 50 anos de Ultimato, publicaremos conteúdos históricos da revista. Confira abaixo o texto “Por que a juventude sem amor foge da igreja??”, do reverendo da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro, Zaqueu Ribeiro, publicado na edição nº 4 de Ultimato, em abril de 1968.

Esta pergunta não corresponde à realidade. Somente uma análise muito desprovida de acuidade pode levar à conclusão de que a juventude perdeu a fé. Há milhares de jovens vivendo a vida vitoriosa da fé, perfeitamente integrados no plano divino da redenção.

Mesmo quando um jovem acuse o problema, sua afirmação somente esconde uma realidade diferente. Admito que nossa juventude sofra de uma subnutrição espiritual, ocasionada pelas omissões paternas na comunicação das melhores experiências cristãs, e se ressintam, também, da pobreza do exemplo da vida religiosa do lar.

Admito que muitos jovens tenham perdido o caminho dos templos, decepcionados com seus líderes religiosos. Admito que se defrontem com as forças do materialismo, mergulhados no conflito que busca arrancar-lhes da alma a fé. Até agora, contudo, a juventude “sem fé” só teve uma fé descentralizada do seu centro, que é Deus.

Prevalece, porém, a mística da juventude, que se apega e se entrega, com toda a sua vida, ao objeto de sua fé. Uns passam a crer em si mesmos; outros em algum messias que sempre aparece; outros em sistemas e ideologias de redenção. Como diz o apóstolo Paulo: “ignorando a justiça de Deus e procurando estabelecer sua própria justiça, não se submetem à justiça de Deus”. Continue lendo →

Por Matheus Ortega

Já imaginou como seria o mundo se não houvesse riqueza ou pobreza?

O Cristianismo anuncia um Reino de Justiça onde nunca mais haverá mais sofrimento, guerras ou morte. Cristãos de todas as tribos, raças e classes oram para que venha o Reino assim na terra como no céu. Mas enquanto isso, vivemos em mundo em que 1% dos mais ricos têm mais do que 99% de toda a população[1].

E o que devemos fazer diante de tamanha desigualdade?

O primeiro passo é ter fome e sede de justiça[2]. Deus convoca seus filhos e filhas para buscarem o Seu Reino e toda a justiça, acabando com a opressão, lutando pelos direitos do órfão e defendendo a causa da viúva[3]. Conforme as palavras do Profeta Miquéias, “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus”[4].

Mas o que é praticar a justiça em prol da transformação social?

Em um livro que estou escrevendo (spoiler abaixo), respondo a esta pergunta complexa da seguinte forma: através do [1] assistencialismo, [2] desenvolvimento e a [3] reforma.

[1] Assistencialismo é o auxílio direto para atender necessidades materiais, sociais ou físicas de pessoas. É uma forma crucial de ajuda em situações de crise humanitária, desastres naturais, ou de conflito em que populações sofrem com falta de suprimentos básicos. Ele cumpre com a lógica de Jesus: “tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram”[5]. Porém, apenas assistencialismo não é capaz de transformar a realidade da pobreza. Continue lendo →