O aniversário de Áureo

Por Eliceli Bonan

Dedos queimados e calos são cicatrizes comuns deixadas pelo crack nas mãos de quem fuma Foto: Marcello Casal Jr./ABr

- A única diferença entre eu e vocês é que minha roupa está suja – disse Áureo Angélico de Jesus, em pé, debaixo da marquise de um prédio próximo ao Ponto 7, um dos mais movimentados na noite de Porto Velho, RO.

Enquanto discursa sobre a vida, come o cachorro quente que lhe oferecemos e saboreia dydyo, um refrigerante da região, mais vendido que coca-cola. Tira do bolso da bermuda cáqui a carteira de trabalho que há muito tempo não usa. É seu único documento. Bate no peito ao contar que nasceu em Rio Branco, no Acre. Sua expressão muda ao lembrar-se de não ter ganhado nenhum presente de aniversário, no dia anterior.

Veio a Porto Velho por causa da mulher. A língua se embaralha ao falar dela e não consegue dizer coisas claras. Trabalha como guardador de carros e dorme em qualquer lugar. Fuma crack todos os dias depois da metade da tarde porque, segundo ele, as outras drogas não fazem nenhum efeito. O cabelo longo, a barba por fazer, um dos dedões do pé sem a ponta. De pé, na calçada, cinquenta centímetros acima do meu olhar, ele é o professor agora. Sinto-me diante de um mestre. Ele sabe do que fala. Não quer ir para uma casa de recuperação, porque não precisa ser recuperado. E o que precisa? Mais >

Por que você lê a Ultimato?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Responda a pergunta você também. Deixe sua declaração aqui. Para inspirá-lo(a) ainda mais, assista o vídeo abaixo com depoimentos de muita gente legal.

 

Aborto

Está novamente em debate a política em torno da regulamentação do aborto no Brasil. Por isso, achamos pertinente publicar a poesia de Delor da Costa, poeta e mobilizador social em Vitória (ES). O texto foi escrito em janeiro de 2005 e foi musicado em 2006 pela banda Enxerto.

 

Aborto

Nasceu uma criança na maternidade,
Mata, eternidade,
Nasceu uma criança na clinica,
Arranca pinça,
Quase ou totalmente despedaçada,
Ela não chorava e não foi visitada.

Ela estava nas mãos da açougueira, da enfermeira, quase parteira,
A mãe foi embora com o namorado,
Mais um casal apaixonado,
Ela acabou de passar no vestibular,
Nada, podia dar errado,
E ele, não queria perder as curvas do corpo do ser amado,
Mais um casal da era da modernidade.

Moderna, idade,
Que acredita que pode sair com quem quiser,
Quando quiser,
E o que passar disso,
Crescer e chorar,
É só depois, mandar arrancar,
É só mandar arrancar.