Por Gabriel Louback

O livro dos livros tinha esse nome por diversas razões. Uma delas é que podia ser considerado uma referência de livro entre todos os outros livros já escritos; e o motivo para isso era que possuía a essência de todas as histórias já vistas e vividas, não necessariamente todas as histórias já contadas ou que ainda seriam contadas, mas com certeza a substância de tudo o que já tínhamos visto e vivido, e que ainda veríamos e viveríamos.

Era possível enxergar-se no livro dos livros, descobrir sentimentos que não conseguíamos expressar, encontrar preces que buscávamos clamar, palavras de júbilo que traduziam a nossa alegria, prantos que coincidiam com nossas lágrimas. Podia parecer que emprestávamos as palavras do livro, mas a verdade é que pareciam ter nascido de nossos próprios corações, embora não soubéssemos nunca como expressá-las antes de lê-las ali, escritas há milhares de anos. O livro dos livros falava sobre nós, mas também podia falar dentro de nós.

Isso acontecia pois a natureza do livro dos livros possuía um sopro em si, um sopro vital; o livro dos livros era resultado da ação desse espírito vivo, Palavra revelada em mentes e corações, inalada e aspirada como perfume; expirada, exalada e manifestada em forma de histórias eternas, relatos de acontecimentos históricos que, se lidos com o coração e com a alma, tornavam-se um instrumento, fogo vivo em nós.

Era possível, claro, ler o livro dos livros como informação e conhecimento, e era riquíssimo nesse sentido; assim como era possível lê-lo para obter sabedoria – conselhos, pensamentos e reflexões não faltavam -; porém, acima de tudo, o que fazia o livro ser o livro dos livros era o poder que havia em suas palavras, quando lidas com o coração aberto, às vezes abatido ou extenuado, buscando com sede por renovo e vida.

Quando encontrava disposição na leitura das palavras do livro como algo vivo, como algo que de alguma forma tinha poder para agir em nossas mentes, corações e almas, o livro dos livros tornava-se, assim, como o levedo que fermenta e transforma uma massa, que fermenta o mosto da uva transformando-o em vinho novo.

Por isso, tantas e tantas vezes o livro dos livros foi banido e proibido, tendo suas páginas rasgadas e despedaçadas, servindo nesses casos como um pedaço precioso aos que conseguiam manter fragmentos dele, ou uma folha inteira que, a cada semana, ficava na casa de uma família, sendo lida dia e noite, imprimindo suas palavras nos corações de crianças e adultos, jovens e velhos; passando para uma nova família e uma nova casa na semana seguinte.

Mas era impossível conter a força e o fluxo do livro dos livros; ele era como um rio selvagem e de leito fundo, sempre caudaloso, como se tivesse acabado de chover em sua nascente, como se toneladas de neve continuassem a derreter continuamente, alimentando seu vigor, como uma fonte de água viva, que nunca seca; um rio, sim, indomável, mas que também servia para banhar- se, lavar-se, mergulhar nele, ir fundo e, ao tornar à superfície, inspirar o fôlego de ar como se fosse a primeira vez que respirássemos, como se nascêssemos de novo; um rio para também beber de sua água tranquila que formava lagos ao lado de campos verdes.

O livro dos livros vivia há milhares de anos: viveria por outros tantos incontáveis e continuaria vivendo mesmo quando ele deixasse de existir, mesmo quando cessasse o tempo e o ser de tudo e da criação, pois suas palavras eram vivas.

Assim, ele viveria, não como um objeto inanimado, mas como um organismo, uma voz ecoando, a palavra que permaneceria, ainda que terra e céu passassem.

  • Gabriel Louback é formado em jornalismo, com especialização em Missiologia na escola Gå Ut Senteret (Noruega) e missionário na Itália. Gosta de ouvir histórias e de contar as que não são ouvidas.

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