Por Gabriel Louback

Corro para me esconder. O medo, a tristeza, a vergonha e a vontade de sumir me jogam no chão. Quero um canto onde ninguém possa me encontrar. Quero desaparecer. Vai que esses sentimentos somem junto comigo? Corro, então, para debaixo da mesa.

E ali fico. É embaixo da mesa que à princípio me sinto seguro: escondido, protegido. Ali, ninguém pode me encontrar. Quando olho para o lado, porém, vejo outros ali. Estão encolhidos, assim como eu, e ninguém tem coragem de falar nada. Sabemos por que estamos ali, não é preciso dizer nada.

Ficamos assim, então, olhando uns para os outros, nos entendendo. Estar embaixo da mesa é voltar para o lar, é percorrer o caminho de volta para casa sem alarde, sem chamar atenção. É onde nos encontramos com nós mesmos, sozinhos, e onde nos encontramos com quem somos ao nos vermos nos outros que também estão ali.

Então, a festa começa. As pessoas vão chegando e é possível ouvir o barulho das vozes e das conversas. Mas é uma festa pequena, para poucos. Todos se sentam ao redor da mesa. Usam sandálias e chinelos, estão com os pés sujos, mas ninguém se levanta para pegar uma bacia ou toalha para limpá-los.

Então se levanta aquele que parece ser o mais importante entre todos, aquele que quando fala faz-se silêncio. Ele vai até à lavanderia e volta trazendo água, sabão e toalha. Um por um, vai lavando os pés dos que estão presentes. Uma discussão com o último deles irrompe. Esse, enfim, deixa que seu amigo lave seus pés. Quando termina, ele conversa com os outros, ensina-os, fala sobre vida e morte, enquanto comem pão e tomam vinho. Ao final, todos estão em silêncio.

Ele então se abaixa e olha para todos nós, escondidos embaixo da mesa. Olha individualmente para cada um de nós, olha nosso grupo com calma, com paciência, como se sondando nosso coração — e acho que é isso que ele faz mesmo, pois parece nos entender, nos conhecer. Olha em nossos olhos, sorri com ternura e compaixão, estende as mãos e diz: “Já podem sair. É a vez de vocês”.

  • Gabriel Louback é formado em jornalismo, com especialização em Missiologia na escola Gå Ut Senteret (Noruega) e missionário na Itália. Gosta de ouvir histórias e de contar as que não são ouvidas.

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