Por Daniel Theodoro

No meio do caminho até o parque tem um cemitério, tem um cemitério no meio do caminho até o parque… Mais que uma paródia tosca e malfeita da poesia drummondiana, a frase é uma verdade recente em minha vida.

Cinco meses atrás, mudei para um pequeno apartamento da região sul de Winnipeg. Lugarzinho tranquilo, bairro família, onde de manhã pedestres distraídos dividem a calçada com coelhos, e à noite, com guaxinins e gambás.

Uma caminhada de cinco minutos leva ao parque mais próximo, um grande espaço verde idílico cortado pelo majestoso Red River, um dos principais rios da cidade. Frondosas árvores acolhem visitantes que queiram passar momentos de pura contemplação. Um bosque amplo serve de quintal para fêmeas de veado-mula e seus filhotes, famílias de gansos, além de esquilos que fazem a festa nas latas de lixo. No início do Outono, o dourado das folhas deixa tudo mais bonito. À tardezinha, quando o Sol banha o rio e o reflexo alveja a grama, caminhos de ouro abrem-se aos olhos. É um lugar violento em beleza.

No entanto, antes de acessar esse diminuto paraíso, é preciso contemplar a morte. Quem quer alcançar o lugar de descanso precisa experimentar a inconveniente sensação de finitude primeiramente.

O cemitério que antecede o parque é discreto, mas está lá, carregado de renúncia e ausência de vida, ecoando histórias interrompidas. Lá estão Eileen Marie Frenette (1880-1927), mãe e avó muito amada; Lloyd Preston (1910-1991), que descansa em paz; Therese Arbuthnot (1934-2013), que estará sempre nos corações. Além desses, há muitos outros cujos epitáfios estão gravados em pedras de mármore que ficam no meio do caminho até o parque, pedras de tropeço que engolem o que restou da vida.

Confesso que dias atrás ensaiei mudar a rota e pegar a outra entrada para o parque, um trajeto que não cruza o cemitério, talvez fugindo daquilo para o qual caminho, talvez esquivando daquilo que vem ao meu encontro. Resignado, desisti. Percebi que era uma ideia boba porque desperdiçaria o dobro do tempo para chegar, minutos preciosos que prefiro gastar no parque, sentindo o cheiro do mato, escutando o vento, conversando à tarde com o Criador, quem acalma meu coração e me lembra que a mais incômoda pedra da história já foi removida do caminho e um túmulo foi deixado vazio.

  • Daniel Theodoro, 33 anos. Cristão em reforma, casado com a Fernanda. Formado em Jornalismo e Letras.
  1. José Marinho Nascimento

    Que beleza de texto. A poesia passeia nas entrelinhas. Ferida de mortal beleza, como disse Mário Quintana.
    Sou quem sou porque um dia nossos caminhos se cruzaram. Agradeço por isso.
    Saúde e muita paz, Daniel!

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