Por Maurício Avoletta Júnior

Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sem movimento, sem ar – ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai tornar-se indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa à tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor é o inferno.

– C. S. Lewis em Os Quatro Amores

Certa vez li algo que me chamou bastante atenção. Em uma das crônicas do padre Brown, Chesterton nos mostra um dos muitos momentos no qual o padre, em meio a situações inusitadas, nos traz reflexões mais inusitadas ainda a respeito da natureza humana.

Certa vez, Padre Brown foi o único a descobrir um crime que nem mesmo Sherlock Holmes conseguiu desvendar. Todos pensavam nas mais mirabolantes resoluções para o crime, mas ninguém a não ser o padre Brown ateve-se ao óbvio. Diante disso o padre diz: “hoje em dia, as pessoas morrem de medo, um medo específico de cinco palavras: ‘o Verbo se fez carne'”. As pessoas buscam soluções e respostas absurdas para questões muitas vezes extremamente complexas, quando na verdade as soluções são óbvias, mas extremamente incômodas.

Ao analisar essa crônica de Chesterton, o filósofo sloveno Slavoj Zizek mostra que a encarnação de Cristo traz um desconforto para a humanidade, pois a ideia de um Deus que se esvazia de si mesmo é assustadora, no entanto, a teologia nos mostra que essa era a solução lógica e óbvia para resolver o problema da humanidade. Em nossas cabeças, acreditamos que uma simples intervenção divina que alterasse a história, desde o Éden, seria mais fácil. A meu ver, isso é um grande alerta para nossa terrível falta de poesia.

Embora eu concorde com Chesterton a respeito do nosso medo dessa frase de cinco palavras, acredito que temos medo também de outra frase um pouco menor, uma frase de três palavras…

Por que temos tanto medo de amar? Bom, nosso amigo Lewis (sim, o de Nárnia), disse sabiamente em Os Quatro Amores, que amar é ser vulnerável. Aos poucos, venho entendendo cada vez mais o que é ser vulnerável, e, consequentemente, estou entendendo cada vez mais o que é amar. Amar é relacionar-se, relacionar-se é deixar se tornar conhecido por outra pessoa, e isso é entregar-se à vulnerabilidade e à possibilidade real do sofrimento.

Isso é estranho, não é? Amar uma pessoa te leva a desejar que essa outra pessoa não sofra, contudo, quanto mais amor, mais palpável se torna aquele sofrimento, mais possível de se materializar. Acredito também que essa possibilidade se torne ainda maior caso exista reciprocidade.

O filósofo analítico Nicholas Wolterstorff, em seu livro Lamento (sério, leia esse livro!), percebe que Deus é amor e por isso Ele sofre. Woltertorff compreende à duras penas que amar é comprometer-se com outra pessoa que, mais cedo ou mais tarde, não estará mais conosco. Amar é entregar-se à incerteza do futuro, mesmo sabendo que nosso futuro está bem seguro nas mãos daquele que o escreveu.

Não escrevo esse texto para dizer a você que relaxe e tenha calma, pois Deus sabe que isso é exatamente o que todo mundo faz. Sei que isso não só seria o certo a se dizer, como seria o certo a fazer. Mas venhamos e convenhamos: isso nunca acontece. Como dizem, “se conselho fosse bom, a gente vendia”. Esse texto, no final das contas, trata sobre se entregar à vulnerabilidade.

A Tradição Cristã nos ensina que a imagem e semelhança de Deus no homem, embora esteja embaçada por causa do pecado original, ainda é refletida em nós, mais ou menos como o espelho que São Paulo, o apóstolo, cita em 1 Coríntios 13. Pensando assim, assim como Deus é amor (1 Jo 4:8), nós, como reflexos de Deus, amamos. Contudo, devemos buscar amar como Cristo amou, até as últimas consequências, pois nisso consiste o verdadeiro amor: amar ao ponto de dar a vida pelos amigos (Jo 15:13).

Devemos amar, até que o sofrimento nos abrace. E pode ter certeza, mais cedo ou mais tarde, ele nos dará um abraço inesperado. Gandalf (é, o mago do Senhor dos Anéis), disse que a única tarefa verdadeiramente importante que temos é a de decidir o que fazer com o tempo que nos é dado. Com todo respeito por Gandalf, o Branco, mas gostaria de parafraseá-lo e dizer que a única tarefa importante que temos é a de decidir o que fazer com o sofrimento que nos é dado.

Se somos filhos de Deus, devemos perder o medo dessa frase de três palavras. Isso não quer dizer que a lançaremos a bel prazer, como se não carregasse nenhum significado. Contudo, não tenha medo de amar – nem de sofrer! Meu amigo C. S. Lewis tratou de nos lembrar o que acontece com aqueles que buscam se privar dos sofrimentos do amor. Se privar da dor do amor é privar-se em alguma medida do próprio Deus; privar-se de Deus, é abraçar o inferno e é lá o único lugar, sem ser o céu, onde podemos estar livres de todos os males do amor.

  • Maurício Avoletta Junior, 23 anos. Congrega na Igreja Batista Fonte de Sicar (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por livros, cinema e música; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

 

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