Por Gabriel Louback

Meu irmão tinha me mandado um link para uma matéria que continha os áudios de crianças presas na fronteira dos Estados Unidos, separadas dos pais, sozinhas, chorando e chamando por eles. Eu já havia visto alguns tweets sobre o assunto, mas ainda não tinha tido a coragem de ler e me aprofundar no assunto. Eu não aguentava mais.

A crise política e social no Brasil, a crise migratória na Europa, países cada vez mais burocratas  e menos humanos, mais fechados e menos acolhedores, comportamentos sociais nocivos à minorias, desrespeito com a mulher, com o próximo, o diferente. A sensação é de que nos últimos meses minha alma tem sido despedaçada, pouco a pouco, todo dia.

Frente a isso, por coincidência divina, descobri que existe um termo para esse sentimento de impotência que muitas vezes nos acomete: “desamparo aprendido” (learned helplessness, em inglês, para quem quiser pesquisar mais sobre o assunto). De forma resumida: isso acontece quando, depois de passar por diversas situações de adversidade, dor ou sofrimento, a gente para de tentar evitá-las, ainda que haja condições e seja possível fazermos isso, ainda que seja possível fazermos algo. É uma forma de apatia frente ao que nos traz desconforto.

Porém, a partir da perspectiva na qual somos chamados para sermos embaixadores do Reino, respostas da oração “Venha o Teu Reino”, e seguidores do Messias que declarou que o Seu Reino já chegou, ao abraçarmos o desamparo aprendido corremos o risco de não cumprirmos o nosso papel de sermos sal que traz gosto ao mundo e luz que ilumina em meio às trevas.

Jesus não diz para nos tornarmos sal e luz, Ele afirma que somos sal e luz desse mundo. Esse é nosso papel, nossa função, é nossa condição já posta como filhos do Eterno. Somos o Corpo de Cristo manifesto. E isso implica uma ação intencional da nossa parte, um coração disposto a sermos instrumentos de Deus na sociedade onde vivemos, transformando-a não pela força, mas pela nossa ação, nossa presença, nosso envolvimento, de dentro para fora.

É uma armadilha perigosa nos entregarmos ao sentimento de desamparo, de que não podemos fazer nada, de que as próximas eleições não vão mudar nada, de que não há jeito, de que tudo está perdido. Aprendemos a nos sentirmos desamparados pois muitas e muitas vezes colocamos nossas esperanças na promessa de um messias que resolveria tudo, porém um messias terreno, escolhido por nós. Votamos em um presidente, governador ou prefeito e achamos que ele, agora sim, resolveria tudo. E nos decepcionamos. Mudamos nosso voto e escolhemos outras pessoas, achando que, agora sim, parece que tudo vai mudar. E nos decepcionamos.

Qual a razão de nossa esperança?

Devemos, sim, cumprir nosso papel político e social. Devemos, sim, cobrar justiça e paz dos governos, acolhimento e misericórdia. E devemos, ao mesmo tempo, nós também lutarmos contra a injustiça e acolhermos e sermos misericordiosos e sermos sal e luz. Não podemos perder a esperança, pois somos parte do Corpo que é a resposta para o que está quebrado nesse mundo: governos, sociedade, nossas almas. Vivemos e caminhamos não com base naquilo que vemos, mas por fé, no poder do Espírito e do sangue do Cordeiro, que é antes de todas as coisas, e Nele tudo subsiste.

Minha oração é para que eu possa sair dessa condição de “desamparo aprendido”, pois não é o que a Bíblia nos diz. Há, sim, esperança. Ela está em Cristo, que age em nossas vidas e nos chama a sermos embaixadores de seu Reino, que já veio, mas ainda não está completo. Cristo é a resposta desse mundo, agindo por meio de sua Igreja, por meio de nós, o seu Corpo.

  • Gabriel Louback é formado em jornalismo, com especialização em Missiologia na escola Gå Ut Senteret (Noruega) e missionário na Itália. Gosta de ouvir histórias e de contar as que não são ouvidas.

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