Por Maurício Avoletta Junior

“Se você abandona uma cosia a própria sorte, você a deixa à mercê de uma torrente de mudanças. Se você abandona um poste branco à própria sorte, ele logo será um poste preto. Se você deseja particularmente que ele seja branco, precisa pintá-lo continuamente; isto é, você precisa estar sempre promovendo uma revolução. Em resumo, se você quer o velho poste branco, precisa ter um novo poste branco.”

G.K. Chesterton in: Ortodoxia

 

Já escrevi aqui sobre o óbvio, que a família é a base da sociedade. Falei que família, originalmente, é constituída por homem, mulher e filhos. Falei também sobre o óbvio de que famílias que não são assim ainda são famílias, mas não como deveriam ser. Eu só disse o óbvio e é triste que o óbvio tenha de ser dito, afinal… não é óbvio?!

Certa vez li em algum lugar que cada época tem o santo que merece. Li também em outro lugar que o santo não é aquele a quem todos de sua época abraçam, pelo contrário, é o que rechaçam! Com o passar dos tempos, nossas sociedades foram perdendo seus santos, ou seja, foram perdendo os reflexos claros de Cristo.

Eu, como adoro ser do contra, ouso dizer que nunca tivemos diminuição de santos, apenas um espelho mais sujo. Antes nossos espelhos estavam apenas embaçados, mas ainda conseguíamos ver aqueles que refletiam a Cristo. A história está aí para não me deixar mentir. Ainda que muitos possam não ter lido suas obras, acho impossível não terem ao menos ouvido falar de Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santo Atanásio, São Bento, São Francisco de Assis, São Francisco Xavier, e tantos outros reflexos do nosso senhor e salvador Jesus Cristo. Hoje, nossos espelhos não estão embaçados, mas completamente sujos – realmente, Black Mirror é profético!

Corro o risco de ser mal interpretado ao dizer isso, mas esse é o risco de escrever. A partir do momento que trazemos uma ideia ao papel, somos responsáveis apenas pelo que escrevemos, não pelo que outros interpretam. Nós não podemos ser conservadores, pois não há mais nada para ser conservado! Nós devemos, assim como defendeu o meu querido Chesterton, ser revolucionários! Isso mesmo, revolucionários, reformadores!

Toda revolução se propõe a mudar os valores dominantes, portanto sejamos revolucionários o suficiente para trazer esse mundo, que está de cabeça para baixo, para o lado correto. Sejamos reformadores o suficiente para destruirmos o mausoléu em que transformaram a nossa casa e para a reconstruirmos, exatamente da forma que era antes.

Nossos tempos são inversos à realidade. Hoje os verdadeiros conservadores são progressistas, e os ditos conservadores apenas conservam os erros que os progressistas cometeram – essa ideia é muito boa e infelizmente não é minha, mas do Chesterton. Não devemos, como cristãos, mudar o nosso discurso para que ele se adapte às pautas do mundo moderno. Como cristãos, devemos continuar a ser o que sempre fomos: estrangeiros. Devemos ser o que sempre fomos: Igreja de Cristo.

É engraçado perceber que os santos servem muito mais para mostrar Cristo ao mundo do que à Igreja. Enquanto Igreja, admiramos os Santos por serem um reflexo do nosso senhor, mas, diferente do mundo, já temos o nosso senhor conosco, presente e atuante no meio do seu povo, sua noiva!

Hoje, em meio a uma sociedade corrompida, nos tornamos revolucionários por fazer o que sempre fizemos. Se nossa sociedade for para o extremo oposto, seremos conservadores por fazer o que sempre fizemos. O que muda é o mundo, a Igreja não.

O mundo tenta ser revolucionário, mas não o pode ser, pois não tem um ideal fixo. A cada era o mundo identifica um Zeitgeist diferente. A única forma de ser verdadeiramente revolucionário é estando do lado da Igreja de Cristo, que tem um ideal fixo desde a fundação do mundo. Lutaremos pela Eterna Revolução que, um dia, destruirá esse mausoléu em que o mundo se tornou e reformará tudo para que seja edificada a Cidade de Deus, sobre a qual Santo Agostinho e o Apóstolo São João tanto falaram, e que a cristandade tanto anseia.

  • Maurício Avoletta Junior, 23 anos. Congrega na Igreja Batista Fonte de Sicar (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por livros, cinema e música; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

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