Por Maurício Avoletta Júnior

Sempre ouvi que as estátuas de santos eram ídolos mortos, mas sempre as admirei. Algo que poucos entendem é que não devemos olhar diretamente para os santos, e sim para o que os santos apontam. A ideia é que santos foram espelhos que refletiam a Cristo. Não é a toa que o olhar das estátuas nunca está direcionado a nós, mas ao alto. Isso não é diferente com São Nicolau, também conhecido como Papai Noel, embora como protestantes façamos um verdadeiro escarcéu em volta da imagem dele.

Recentemente foi lançada no Brasil a tradução de um livro do filósofo americano James K. A. Smith, Você é Aquilo que Ama. Nele o autor defende a necessidade da liturgia, ou seja, da repetição como forma de ensinar e aprender. Concordo com praticamente todo o argumento de Smith, mas aqui não falarei sobre o poder do hábito – ou repetição – com o mesmo foco litúrgico, e sim do poder do hábito na imaginação. Quando era pequeno, me fizeram acreditar que o Papai Noel era uma mentira completa, mas no final das contas isso não deu muito certo, para a tristeza de todos que tentaram me fazer desistir da fantasia.

Os principais hábitos que levamos para a vida adulta geralmente são aqueles que adquirimos quando crianças. Ao falarmos que Papai Noel, Coelinho da Páscoa e tantas outras personagens fantásticas não existem, tiramos a criança do mundo de fantasia no qual ela habita – que creio ser o verdadeiro mundo real –, e a trazemos para o mundo acinzentado do materialismo – que, embora seja o mundo em que muitos de nós vivamos, penso ser um mundo falso.

Por que devemos habituar as crianças a acreditarem em fantasias?

Como bom aluno do Professor Tolkien, acredito que não devemos crer somente em algo aquém da nossa existência, mas também em algo que esteja enraizado nas profundezas da realidade e do tempo. Quando uma criança crê na existência do Papai Noel, ela crê, portanto, na existência de alguém totalmente bom, de onde não pode vir o mal e que por graça, presenteia os necessitados. De quebra, esse alguém é esteticamente bastante acolhedor, tem poderes mágicos e voa por todas as casas do mundo inteiro em uma única noite. O hábito de crer na fantasia faz com que a criança, desde muito cedo, compreenda que não existe apenas um mundo material, mas que estamos cercados de um mundo metafísico. O hábito da fantasia prepara a criança para o hábito da comunhão e da liturgia.

Os contos de fadas, como já disse Tolkien em Árvore e Folha, precisam estar minimamente com os pés na realidade e com a cabeça nas nuvens, pois são reflexos de uma verdade. Os elfos, os hobbits e os faunos – e até mesmo o papai noel – não existem e sabemos disso. Mas sabemos não porque não cremos no transcendente e no metafísico, mas porque sabemos que eles são apenas contos. Contudo, entendemos que embora esses contos não sejam verdadeiros, existe muita verdade neles.

Para uma criança, crer em Jesus e crer no Papai Noel é a mesma coisa, pois para ela ambos são verdadeiros. Uma criança não elabora refutações nem analisa argumentos a favor ou contra Deus. Não está preocupada com as duas naturezas de Cristo, nem com o Cristo que andou sobre as águas, que multiplicou os pães e peixes, que fez o cego ver e que depois de morrer, ressuscitou. Diferente dos adultos, as crianças querem saber da beleza e da verdade, e não da argumentação lógica em torno delas…

Ao crescer, vamos aos poucos separando a verdade da mentira, o real das imagens do real. Como cristãos, vamos deixando Papai Noel de lado não por não acreditarmos mais no fantástico, mas por termos conhecido o criador de toda fantasia, do belo e do sublime. Cristo redimiu consigo todas as coisas, inclusive nossa imaginação, por isso uma hora ou outra ela irá retornar para ele, como afirmou Tolkien.

A imaginação de um cristão não deve se limitar à teoria e à literalidade, mas deve ser batizada pela fantasia. Nós dizemos acreditar que tudo aponta para Cristo, mas nos recusamos a admitir que lendas e mitos também possam apontar para Ele, pois preferimos negá-las como simples mentiras. C.S. Lewis disse certa vez que o evangelho é um mito que se tornou fato, ou seja, que saiu do plano dos mitos e veio até o plano da realidade: o Verbo que se fez carne. A figura de Papai Noel não precisa tirar o foco de Cristo, mas pode preparar caminho para ele, pois os mitos são uma verdadeira voz que clama no deserto. Eles não são a verdade, mas apontam para ela.

Assim como deve ser com os santos, não devemos fixar nosso olhar diretamente nos mitos ou nos contos de fadas, mas no que apontam. Se contarmos a história com o foco certo, a criança que espera pelo Papai Noel na noite de Natal pode ser o adulto que, esperançoso junto com a Igreja de todos os tempos, esperará pela volta de Cristo.

Não é preciso se apressar em dizer a seus filhos que o Papai Noel não existe. Deixem crianças serem crianças e terem a certeza de que existe alguém mais poderoso que elas, que as conhece e que se importa com elas, que as presenteia com aquilo de que mais precisam sem pedir nada em troca. Deixem que acreditem em alguém todo poderoso que não cria nem faz o mal. Deixem que acreditem no bom velhinho. Um dia elas verão que esse bom velhinho diz de alguém que, na verdade, é um grandioso e soberano Rei. Vamos parar de olhar diretamente para o Papai Noel e olhar para quem ele aponta. Vamos olhar pra Cristo.

• Maurício Avoletta Junior, 22 anos. É membro da Igreja Presbiteriana do Tucuruvi (SP). Formado em Teologia pela Mackenzie, estudante de filosofia e literatura (por conta própria); apaixonado por livros, cinema e música; escravo de Cristo, um pessimista em potencial e um futuro “seja o que Deus quiser”.

    • Maurício Avoletta Junior

      Evandro, tudo bem?
      Toda mentira depende de uma verdade para ser o que é. Papai Noel não existe, e isso é óbvio, mas ele possui características parecidas com as de Cristo, principalmente se olharmos para São Nicolau, mais especificamente. Ele presenteia pessoas absolutamente de graça, faz isso sem receber nada em troca, é todo poderoso para fazer o que quiser, mas mesmo assim não fica por ai se exibindo, pois faz tudo na calada da noite. Papai Noel aponta para Cristo assim como Gandalf, de O Senhor dos Anéis que se entregou por seus amigos, morrendo como Gandalf, o cinzento e ressuscitando como Gandalf, o branco. O Papai Noel aponta para Cristo, assim como Harry Potter, que se sacrifica diversas vezes por seus amigos, simplesmente porque os ama e que só sobreviveu pois tem nele um amor maior que toda magia. As criações humanas, no geral, são como os espelhos que o Apóstolo São Paulo cita em 1 Coríntios 13, elas nos mostram parcialmente a verdade, mas não são a verdade.

      E ai, Evandro, você concorda comigo? Se não, por favor, me fale sua opinião, pois adoraria conhece-la. Um abraço, meu irmão!

  1. Uma reflexão bastante interessante, porém perigosa. No plano do “dever ser,” tudo fica perfeito se olhamos por essa ótica. Mas na realidade as coisas são bem diferentes, talvez por causa da nossa cultura embragada pela idolatria. De qualquer sorte vale a leitura e a reflexão. Parabéns.

    • Maurício Avoletta Junior

      O livro que cito no texto, Você é Aquilo que Ama, fala a respeito disso. O Smith propõe uma volta a liturgia e uma visão sacramental da vida, de forma a buscar evitar essa nossa mania de, como dizia João Calvino, sermos construtores – e por vezes consumidores – vorazes de ídolos.

  2. Elça Martins Clemente

    Muito boa sua reflexão! Parabéns!

    Se os mitos e fantasias são usados para apontar para Jesus, creio que está correto.

    No entanto, se o protagonismo é dado a quem quer que seja, e não a Jesus, a meu ver, devemos ter cuidado.

    Com relação ao Papai Noel, em geral, ele é o protagonista, roubou a cena. Pelo menos ma mídia e no comércio.

    Por isso, penso que como cristãos devemos ser bem equilibrados nessa questão.

    • Maurício Avoletta Junior

      Concordo com você, Elça!
      Creio que devemos estimular a imaginação das crianças, mas tudo isso sem fazer com que elas saiam da realidade. Embora não ache que o papai noel deva ser o centro do natal – até porque ele não é -, eu acredito que o presépio e o papai noel podem conviver bem juntos….

    • Paz de Cristo, sem querer desmerecer o livro supra-citado, inclusive quero fazer essa leitura em breve, mas qual a base bíblica do livro? e do seu texto?

      • Maurício Avoletta Junior

        Carlos, citei três livros: Você é Aquilo que Ama de James K. A. Smith, A Mente do Criador da Dorothy Sayers e Árvore e Folha de J. R. R. Tolkien. No caso do Smith, ele parte de Isaias 6 e do Salmo 115, mostrando que nos tornamos aquilo que adoramos. A partir dai, ele sugere, como um forma de fuga da idolatria, a liturgia. Obviamente, a argumentação do livro é bem mais extensa do que isso, mas como você queria saber as bases bíblicas da argumentação do livro, essas são as principais. No meu texto, usei o Smith apenas na ideia de liturgia como método pedagógico. Quanto aos outros dois, a base do argumento principal é a doutrina da Imago Dei de Gênesis 1 e 2, no entanto, é preciso lembrar que estes dois últimos livros, embora sejam bastante teológicos, não são de estritamente livros de teologia, mas de teoria e crítica literária. Sendo assim, a preocupação dos autores não é trazer uma fundamentação teológica forte – embora a fundamentação deles seja beem forte, ao meu ver -, mas fazer uma ponte entre teologia e literatura.

        Quanto ao meu texto, tenho também como base a doutrina da Imago Dei, ou seja, compreendo que por sermos criados a Imagem e Semelhança de Deus, temos aspectos semelhantes aos de Deus: nós amamos, criamos, sentimos, nos relacionamos assim como Deus, embora em escala beeeeem menor. Parto também do pressuposto paulino, onde o Apóstolo escreve logo no início de sua carta a Igreja de Roma, que os atributos visíveis e invisíveis de Deus estão presentes em sua criação. Sendo o ser humano uma criação de Deus, então este também reflete os atributos visíveis e invisíveis de Deus. Vemos isso também quando o apóstolo Paulo em Atos 17:28, cita um poeta pagão de sua época, quando o mesmo está falando que subsistimos no próprio Deus e dEle dependemos para tudo. Neste trecho, Paulo demonstra que, assim como afirmou Calvino, toda a verdade é verdade de Deus, independentemente de quem a profira.

  3. O velhinho Noel é uma lenda, criada pela imaginação humana, por isso uma lenda jamais vai apontar para o Real que Jesus Cristo. Devemos ensinar para as crianças conforme elas crescem, que Jesus Cristo nasceu, viveu entre os homens trazendo a paz, revelando o amor do Pai, e nos reconciliado com o Pai, e na sua morte e ressurreição revelou o Seu grande poder de salvar a todos os que crêem em Seu nome. Devemos ensinar a única verdade para as crianças para elas cresceram conhecendo o verdadeiro significado do Natal – O Emanuel, Deus conosco esta entre nós.

    • Maurício Avoletta Junior

      Hélio, tudo bem?
      As lendas são criadas pela imaginação humana, ok. Mas e a imaginação humana, foi criada por quem? Segundo argumenta a Dorothy Sayers em A Mente do Criador, por sermos feitos a imagem e semelhança de Deus, nós refletimos atributos de Deus em nossa própria Sub-criação. É um tema extenso para ser tratado em um comentário, mas se desejar, pode me chamar no facebook que podemos conversar melhor a respeito. Talvez escreva alguma coisa a respeito mais para frente….
      Se tiver interesse, aconselharia a leitura dos livros que cito no texto, Árvore e Folha do Tolkien e A Mente do Criador da Dorothy Sayers.

      Grande abraço!

  4. Antonia Leonora van der Meer

    É uma reflexão e discussão interessante. Mas de fato, hoje, Papai Noel tomou o lugar da personagem principal, e não apenas de um bom velhinho que distribui presentes. E há tantos Papais Noéis nos Shopping Centers, estimulando o consumismo, e falando “hohoho”, meio bobão. Minha sobrinha de 5 anos comentou que Papai Noel era bobo porque vestia aquele monte de roupa no verão. Assim na teoria vejo muito de valor na reflexão, mas na prática fica um pouco mais difícil

    • Maurício Avoletta Junior

      Concordo com você! Nossa cultura consumista transforma algo simples em um problema gigantesco. Acredito que esse exercício de retorno a uma tradição que abandonamos, deve começar em nossas casas, ou seja, na forma como ensinamos as crianças de nossas famílias a respeito da fantasia. Mas creio que esse seja um tema bastante denso e um tanto complicado para ser tratado em comentários haha De qualquer forma, agradeço o seu comentário, Antonia!

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